quinta-feira, 14 de junho de 2018

América monstruosa




António Santos   




Os EUA arrogam-se, em nome dos direitos humanos, o direito de derrubar governos e destruir países. É o “excepcionalismo EUA”. Mas até organizações norte-americanas que escrutinam as suas práticas internas denunciam não apenas as violações de tais direitos, mas o facto de, em vários casos, tais violações configurarem verdadeiros crimes contra a humanidade.

O governo dos EUA é responsável pela sistemática violação dos direitos humanos das crianças presas nos centros de detenção dos Serviços Aduaneiros e de Protecção Fronteiriça (CBP, na sigla inglesa). A conclusão é da centenária ACLU, União Americana pelas Liberdades Civis, e consta de um relatório divulgado na semana passada, baseado em mais de 30 mil documentos internos dos CBP relativos ao período entre 2009 e 2014.

Separadas das famílias, as crianças capturadas a cruzar ilegalmente a fronteira com o México são enviadas para estes nebulosos «centros de detenção», pequenos Abu Ghraib onde não entram advogados, nem jornalistas, e presas dentro de «jaulas» (é esta a expressão que consta no relatório) sem cama nem latrina. Depois, os funcionários deitam fora «os pertences pessoais dos imigrantes, incluindo os seus documentos». E então começa a tortura.

«Os funcionários dos CBP recorrem frequentemente à violência contra as crianças», começa por avisar o relatório, mas à medida que se percorre as páginas e se somam às centenas os casos, torna-se difícil conceber que o alvo de uma violência tão monstruosa são adolescentes, crianças e bebés: um funcionário «atirou um jovem de 16 anos ao chão e esmagou-lhe a cabeça com a bota», pode ler-se; outro agente «atropelou uma criança de seis anos durante a detenção partindo-lhe uma perna (…) e recusou-lhe cuidados médicos»; o relatório prossegue «frequentemente, os funcionários disparam as armas de electrochoques contra as crianças, só por diversão».

E depois há os abusos sexuais: «obrigaram uma rapariga de 16 anos a despir-se, abriram-lhe as pernas e tocaram-lhe nas partes íntimas enquanto ela gritava». Outra queixosa, de 15 anos, denunciou que ameaçaram violá-la caso ela se recusasse a assinar um papel de «auto-deportação». No mesmo registo, um menino de 14 anos foi mantido durante uma semana nu na jaula, enquanto o ameaçavam com abusos sexuais, de forma a pressioná-lo a assinar o mesmo documento.

As condições, essas, são sempre infra e desumanas: há «fluídos humanos nas paredes e no chão, onde também se vê papel higiénico usado com fezes (…) o que causa um odor ofensivo»; há relatos de fome e crianças a quem é recusada água; há jovens grávidas a quem é dito que «vêm para aqui contaminar o nosso país» e mães adolescentes que se queixam a guardas indiferentes «de não terem leite para dar aos bebés, que choram de fome»; há crianças mais velhas, a quem é dado «sistematicamente leite estragado, o que causa várias intoxicações alimentares» e há o relato de «um funcionário [que] negou-lhe [a uma menina] analgésicos e pensos higiénicos após uma operação a um quisto nos ovários».

Estes crimes contra a humanidade, porque é isso que são, aconteceram durante o mandato de Obama. Sabe-se que com Trump a situação se agravou: os CBP têm hoje mais opacidade, mais armas de guerra, mais orçamento e mais crianças presas nos seus centros. Lembremo-nos disto da próxima vez que «Estados Unidos» e «direitos humanos» surgirem na mesma frase.

*Este artigo foi publicado no “Avante!” nº 2322, 30.05.2018


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