quarta-feira, 9 de maio de 2018

Argentina: um País como prenda (o FMI agradece). Efeito orloff: o Brasil será a Argentina, amanhã



Max

A mensagem atira a Argentina e volta ao pesadelo de 2001. Agora é oficial: a segunda maior economia da América Latina está novamente em crise e procura a ajuda do Fundo Monetário Internacional (FMI) para obter um "apoio financeiro". O anúncio foi feito pelo Presidente Mauricio Macri numa curta mensagem, explicando que o contacto com o FMI foi necessário para continuar com "o único caminho que existe para sair da nossa situação".


A situação é complicada, pois o Peso alcança os mínimos históricos e o preço do Dólar atingiu ontem um novo máximo em Buenos Aires: 23 Pesos em troca duma moeda dos Estados Unidos, um ano atrás eram suficientes 15 Pesos. Para conter o colapso, o Banco Central argentino elevou as taxas de juros três vezes desde o mês passado, uma subida de 40%; mas, apesar disso, o Peso continua a perder valor.

Macri: culpa dos outros

Explica Macri:
O ambiente global mudou por causa do aumento das taxas de juros e dos preços do petróleo, a Argentina continua entre os Países mais dependentes do financiamento externo.
É por esta razão que o Presidente falou com o Diretor do FMI, a simpática Christine Lagarde. E é por isso que o governo de Buenos Aires decidiu negociar uma linha de apoio financeiro com Washington. Explica o Ministro do Tesouro argentino, Nicolas Dujovne, que ainda não esclareceu nem a extensão da assistência do FMI e nem os limites financeiros e temporais da ajuda:
Quanto mais segurança pudermos criar nos mercados internacionais, melhor é.
O Ministro continua afirmando que o governo Macri promove uma "política de correção gradual" que está a começar a produzir resultados, mas também lembrou:
A Argentina está exposta à volatilidade do mercado. A mudança no contexto global, como o aumento das taxas nos EUA, levou a uma mudança no fluxo de capitais das economias emergentes para as centrais.

Os outros: culpa tua


Paradoxalemente é nos Estados Unidos que encontramos a primeira voz de desacordo: segundo o Presidente da Federal Reserve, Jerome Powell, "há boas razões para crer que a normalização da política monetária continuará a ser administrável" por parte das economias emergentes, sendo "exagerado" a papel que é dado à reserva dos EUA em Países como a Argentina.

Na frente interna, o bloco de deputados da aliança peronista-kirchnista Frente para la Victoria critica a decisão do Presidente de pedir 30.000 milhões de Dólares ao FMI. Num comunicado, a Frente afirma:
Exigimos do poder executivo que qualquer possível acordo com o FMI, antes da aprovação, seja amplamente discutido no Congresso Nacional. [...] A decisão significa um sério revés: nos dois anos e meio de administração de Néstor Kirchner, a Argentina cancelou a dívida com o FMI, 13 anos depois, nos dois anos e meio no cargo, Mauricio Macri nós envia para o Fundo. Os acordos com o FMI foram sempre prejudiciais para o nosso povo. Significaram cortes salariais, pensões, privatizações, demissões no setor público e aumento da pobreza na Argentina, levando o País a crises económicas e sociais muito profundas.
A primeira vez que a Argentina recebeu dinheiro do FMI foi em 1957, após o golpe contra Juan Perón: os militares pediram 75 milhões de Dólares, a relação entre o País e o FMI culminou em Setembro de 2004, quando o Presidente Nestor Kirchner anunciou o reembolso da última prestação do empréstimo e a notícia foi comemorada como uma vitória da soberania nacional, o primeiro passo para a recuperação da grave crise de 2001.

O que está a acontecer parece um filme já visto e traz para a memória à crise da Dívida Pública que transformou os Títulos de Estado de Buenos Aires em papel sem valor. O risco é mais uma crise num País que, nos anos Cinquenta, era um entre os mais ricos do mundo, destino para a imigração dos Países europeus mais pobres. Mas o que está a acontecer não surpreende: a eleição de Mauricio Macri representava uma forte viragem na direção do neoliberalismo e agora é altura de recolher os frutos. Com o actual Presidente, a Argentina voltou ao ano de 2001 e o FMI agradece.

Em apenas dois anos, o homem que havia prometido na sua campanha a redução da inflação e o respeito dos números do emprego, conseguiu fazer crescer a Dívida Exterior em 35%, chegando assim ao total de 307.295 milhões de Dólares, o que representa 56% do Produto Interno Bruto. Culpa apenas do "ambiente global", do "aumento das taxas de juros e dos preços do petróleo" como afirma Macri? A resposta chega dos Estados Unidos, onde várias agências de notação financeira, como Moody, alertaram acerca das grandes nuvens escuras que pairam sobre o futuro económico da Argentina, apontando também o dedo contra o responsável: a política escolhida pelo Presidente Macri. É nesta linha que encontramos o The Sunday Times, o Financial Times, Fitch e Forbes  (curiosamente, os mesmos que antes tinham aplaudido com entusiasmo a eleição do Presidente).

A prenda


Os resultados das políticas presidenciais estão todos neste dado: um trabalhador é demitido ou suspenso a cada 6 minutos. Em apenas dois anos, o número subiu até cerca de 300 mil pessoas, agora sem emprego, enquanto outros 150 mil podem ter o mesmo destino até o final de ano. Cerca de 10 mil empresas tiveram que fechar as portas: a abertura indiscriminada das fronteiras comerciais (Viva la Globalización!) deixou muitos empresários incapazes de competir com as importações.

Isso sem mencionar os mais pobres ou os reformados, que fazem saltos mortais para sobreviver com uma taxa anual de inflação que excede 30%.

Diante deste cenário turbulento, Macri escolhe a solução mais temida: chamar de volta o Fundo Monetário Internacional. Claro, haverá mais despedimentos, mais cortes, mais sofrimento e tudo isso ao longo de décadas: será hipotecado o futuro de inteiras gerações. Mas este é o mercado, é o "sistema que funciona". Um País oferecido de bandeja: uma prenda que a simpática Lagarde aceitará com o rosto sério da ocasião e o coração aos pulos de felicidade. Para Macri e a simpática Christine: missão cumprida.


Ipse dixit.

Fontes: Il Fatto Quotidiano, Telesur

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