sexta-feira, 9 de março de 2018

Guerra Fria: o mundo gira e a Lusitana roda ou a fila anda

Via Rebelión



Antes e depois


Rodolfo Bueno
Tradução do espanhol: Renzo Bassanetti





O que mudou? Tudo, embora na aparência as coisas continuarão igual: a CIA não parará de intervir em todo o planeta; as bases norte-americanas continuarão instaladas onde estavam; a OTAN não será desmantelada ainda; os beijos, abraços e mesuras de líderes ocidentais aos políticos de Washington continuarão, embora menos cálidos; os meios de comunicação de massas continuarão dando loas ao poder hegemônico imperial, embora com uma ou outra voz dissonante...enfim, aparentemente nada de novo sob o sol. 



Mas sob a terra, tudo ferve e o pior é que os envolvidos estão praticamente com os pés e as mãos amarrados, sem possibilidade de desfazer os nós. É que não há pior inimigo para nós quando engolimos nossas próprias mentiras. Eles propagaram  que tudo o que é russo é ruim: Ivan I foi um czar terrível; Pedro o Grande, um czar somente grandalhão em tamanho; a imperatriz Catarina, a Grande, somente uma grande meretriz; Napoleão foi derrotado pelo marechal inverno, da mesma forma que Hitler; a Revolução Socialista de Outubro foi somente uma orgia sangrenta; Lenin, um tirano da pior espécie; Stalin e Hitler são a mesma coisa; a Segunda Guerra foi ganha pelos EUA; A URSS, uma experiência fracassada; o presidente Putin, um novo tirano; a cultura russa, chacabana; sua ciência, uma cópia da ocidental; seus escritores, nem para telenovelas; seu cinema, chato; sua imprensa, propaganda estatal; somente se salva Gorbachev por que quase libera a Rússia. Isso eles disseram ao mundo e nisso acreditaram, embora não se possa esconder o sol com um dedo.



Agora, desde o início deste mês de março, terão muitas dificuldades para continuar mentindo. Como poderão justificar diante da sua população os desperdícios com os enormes gastos militares? Neste momento, que em caso de guerra cada uma das sua frotas pode ser derrotada com um só torpedo; agora que seu guarda-chuvas protetor não vai protegê-los nem contra o mais leve chuvisco; agora que suas bases militares são um estorvo para os países onde as instalaram e que em seguida estes vão pedir para desalojá-las; enfim, agora que o mundo inteiro  irá ver que o rei está nu. 



Continuarão os dirigentes europeus suportando que qualquer funcionário de terceira categoria do Departamento de Estado dos EUA os mande tomar nas guampas? Pode ser, mas não por muito tempo. Continuará a Europa suportando a existência da OTAN, agora que ela perdeu a razão de ser, se é que alguma vez a teve? Pode ser, mas não por muito tempo. Continuarão alguns governos a adquirir armamento dos fornecedores do Pentágono, que a partir de agora passou a ser da Idade da Pedra? Pode ser, mas não por muito tempo. Continuarão alguns países a suportar a vassalagem, além de pagar tributos ao poder hegemônico, com o qual eles têm colaborado espontaneamente ou forçadamente, agora que tem a possibilidade de liberarem-se disso? Pode ser, mas não por muito tempo.  Continuarão os povos suportando a humilhação de ter bases americanas em seu território? Pode ser, mas não por muito tempo. Continuará o mundo a aceitar dólares, dinheiro sem respaldo real algum? Pode ser, mas não por muito tempo. 



Tudo isso tem a sua história. Durante a crise dos mísseis no Caribe, ambas as potências, URSS e EUA, compreenderam que era impensável uma guerra atômica entre elas, por que seria o fim da espécie humana. Isso se chamou equilíbrio através do terror. Mais adiante, Reagan, que apesar de suas poucas luzes é considerado um dos melhores presidentes dos EUA, formulou a idéia da guerra das galáxias, que fracassou por ser muito cara. Posteriormente, o Pentágono desenterrou essa idéia e a reformulou como guarda-chuva atômico, ou seja, cercar a Rússia com sistemas anti balísticos, de modo que ela não pudesse responder logo após um ataque. Essa impunidade, que rompia o equilíbrio do terror, foi possível graças à vassalagem coletiva dos países vizinhos da Rússia, antes membros da URSS, e do Japão e da Coréia do Sul, que aceitaram a contragosto esses sistemas com a desculpa que estavam dirigidos ao Irã e à Coréia do Norte.       



A Rússia, impossibilitada de dar uma resposta equivalente ao rompimento do equilíbrio estratégico por parte dos EUA, fez apelos para parar com essa loucura que terminaram caindo no vazio. Em 2004, Putin os advertiu que para contrabalançar a agressividade contra a Rússia, seus cientistas iriam desenvolver equipamentos militares inovadores sem iguais no mundo. Ninguém acreditou nele. “Não fizemos segredo algum de nossos planos, mas sim falávamos deles abertamente e, antes de tudo, incitamos nossos sócios a negociar”, disse ele. Em 2007, os serviços de segurança da Rússia permitiram o vazamento de informações sobre os testes do foguete intercontinental Sarmat, que dribla qualquer  sistema norte-americano de defesa anti-mísseis, e que é invulnerável por não seguir uma trajetória balística predeterminada.  Que interesses haverá na indústria armamentista norte-americana que, mesmo assm, não deteve seus planos belicosos? Sempre se ouviu falar sobre a criação de armas fantásticas por parte da Rússia, mas a confirmação oficial somente chegou neste 1° de março, quando na sua mensagem anual, Putin, diante da Assembléia Federal da Rússia, fez referência aos inovadores modelos de armas desenvolvidos  pelo  seu país em resposta ao abandono unilateral do Tratado de Mísseis Anti-balísticos  por parte dos EUA.



Esse informe é tão estarrecedor e demolidor, que os personagens a quem indiretamente ia dirigido não conseguem se recompor nem atinar como reagir, e pior ainda, não sabem como poderão se sobrepor. A melhor solução é sentar e negociar um desarmamento que garanta a segurança de todos. Essa saída é impossível, pois se o presidente Trump der um passo nessa direção, será comido vivo. Deveriam então reformular toda a sua caduca estratégia, algo também impossível por que teriam que redistribuir o atual orçamento militar, que hoje em dia engorda os grandes monopólios fabricantes de armas, para que os estudantes norte-americanos, que hoje seguem carreiras administrativas, comecem a estudar ciências básicas, isto é, matemática, física, biologia e química. Para isso, teriam que reformular a educação escolar e universitária, mas isso custa muito tempo e dinheiro. Poderiam atrair mais cérebros do exterior, mas estes são escassos. Portanto, além de pequenas mudanças para tentar tranqüilizar a população, nada irá mudar, mesmo que digam o contrário. 



É incrível que os EUA estejam dando os mesmos passos que o Império Romano deu antes da sua queda, ao depender de terceiros. Ou seus governantes não conhecem história ou, nas suas fanfarronices, a desprezem; em ambos os casos estão perdidos.  Eles tem outra saída de loucos, que oxalá não se lhes ocorra, que é a de começar uma guerra nuclear, que teria  uma resposta imediata, infalível e devastadora. É de se esperar que no Pentágono ainda se encontrem mentes sãs que a evitariam. Tomara que seja assim.   





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