terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Atravessaram o Rubicão e não percebemos


Sanguessugado do  Viomundo

 Assim nasce um ditador

Marco Aurélio Mello

Algum dia historiadores vão querem conhecer o que forjou a não tão nova personalidade militarista de Michel Temer.

Aqui vai uma pista.

Segundo pessoas íntimas do presidente-golpista, sua inspiração vem de Gamal Abdel Nasser, militar e político egípcio.

Apesar de ter instaurado um governo republicano, Nasser baniu os partidos e governou sem oposição por 16 anos, de 1954 a 1970, até sua morte.

Ao contrário do impopular Temer, Nasser foi um líder de massas, nacionalista e carismático e obteve fama no “Terceiro Mundo” principalmente pela nacionalização do Canal de Suez, em 1956, quando enfrentou duas grandes potências imperialistas: a França e a Inglaterra.

Aliado dos Estados Unidos, impôs enorme humilhação aos europeus, cujos exércitos foram obrigados a deixar o Egito.

Em 1967 teve sua maior derrota política, ao ser atacado pelos israelenses, na guerra dos seis dias, quando se preparava para retomar as colinas de Golan, na Síria, mas acabou perdendo também parte do Sinai.

Se o sentimento nacionalista tem raízes no militarismo, ser nacionalista implica necessariamente em escolher um inimigo.

Temer sabe muito bem disso e, ao contrário dos tempos da guerra fria, ou do conflito árabe-israelense, seu inimigo não está também nos países fronteiriços e, portanto, tem de estar em solo brasileiro.

Por que não, então, escolher “o crime organizado”?

Mas que crime, o tráfico de drogas?

Não, o controle do crime já está equacionado nos presídios e fora deles porque o narcotráfico já faz parte do Estado.

Os inimigos de Temer e, consequentemente, do país, estão entrincheirados nos quartéis, fiéis a um radical nacionalista cristão e homofóbico de nome Jair Bolsonaro.

Como a política se faz ocupando espaços, este é o espaço a ser ocupado.

Por isso, a ação militarista forjada por Temer encontrou amparo em parte da sociedade e da elite, que precisam desesperadamente voltar aos poder.

E o filho de imigrantes do norte do Líbano radicados em Tietê, interior de São Paulo, sabe muito bem disso.

Sua familiaridade como os militares é antiga.

Durante o governo de Fleury Filho, poucos dias após o Massacre do Carandiru, Temer foi nomeado secretário de Segurança Pública.

Nos anos 80 pairaram sobre ele suspeitas de que era financiado pelo jogo do bicho.

As acusações não deram em nada, por insuficiência de provas, ou de boa vontade.

Em 1987, Temer quase deixou o PMDB para ser um dos fundadores do PSDB.

Ele sempre teve muita proximidade com José Serra, FHC e Mário Covas.

Mas, aconselhado por Montoro, que dizia que no novo partido a “fila seria grande”, decidiu permanecer no PMDB.

Dos anos 90 em diante, quando assumiu o protagonismo na carreira parlamentar, à frente do PMDB, foi sempre artífice da base governista, fosse qual fosse o Governo de turno.

Viu sua chance de tomar de assalto o Estado nas crises a partir de 2013, cujo enredo conhecemos de cor.

Portanto, com base em suas inclinações e interesses, infelizmente temos de admitir: Temer não deixará o cargo assim tão facilmente.

Custe o que custar, ao Brasil e aos brasileiros.

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