segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

A revolução dos mega ricos



Os alugueis pagos pelos pequenos produtores aos grandes donos de terras somara em 2017 mais de 600 milhões de dólares. Aí está a luta de classes e a exploração no campo: a dos donos da terra sobre quem trabalha nela

Luvis Pareja 



 

O comportamento da direita na região não tem sido nem um pouco democrático e os uruguaios são conscientes dos perigos que se acercam após os golpes de Estado no Paraguai e em Honduras, além da derrubada de Dilma Rousseff no Brasil, a tentativa de secessão na Bolívia e os triunfos de Sebastián Piñera no Chile e Mauricio Macri na Argentina.

“Por isso é assustador verificar a falta de reflexão, a inexistência de um debate, a quase nula percepção do perigo e o excesso de confiança da liderança da Frente Ampla”, afirma o jornalista Alberto Grille, diretor da revista Caras y Caretas, enquanto um grupo muito poderoso (os donos da terra) reclama que “o Uruguai está acabando” – enlouquecendo as redes sociais e organizando “patriotadas”, com discurso claramente golpista, que, verdade seja dita, fracassam de forma estrondosa.

Os meios hegemônicos tentam criar uma nova construção fraudulenta da realidade, com claros propósitos políticos. O diário El País e a Associação Rural buscam mostrar um Uruguai à beira do abismo, graças a “um populismo autoritário que alimenta um exército de miseráveis que vivem do assistencialismo de um Estado voraz, uma burocracia corrupta, uma onda de delinquência sem precedentes, um endividamento atroz da economia e uma crise educativa que nos leva a cifras próximas as do Haiti”.

Sem dúvida, ainda há muito o que melhorar no país após treze anos de governo frenteamplista, mas hoje a direita uruguaia mostra seu medo de perder novamente as eleições presidenciais, no ano que vem – mesmo diante de uma Frente Ampla que ainda não tem candidato – e que arremete com o tema rural, o mesmo que afetou o governo kirchnerista na Argentina, supondo que a mesma fórmula pode ser repetida no Uruguai.

O diário El País pede “politização dos protestos agropecuários” e o latifundiário Ignacio de Posadas, talvez com a esperança de ser ele o candidato da direita, diz querer “transformar a insurreição numa revolução”, se referindo ao alçamento de 1% de mega ricos do campo, que terminou mais ou menos em um fracasso, apesar do escarcéu que conseguir fazer na imprensa.

Os números dizem que o Uruguai, que vive uma liberdade econômica sem restrições, não vai tão mal: no fim de 2017, o país teve um Produto Interno Bruto (PIB) de 58,3 milhões de dólares, que dão um PIB per capita de 16,7 mil dólares, o mais alto da América Latina, além de uma inflação de 6,6%, desemprego em torno de 8%, déficit fiscal de 3,5% e um superávit comercial de quase 4 bilhões de dólares.

A pobreza ainda alcança 9,4% da população e a indigência a 0,3%, cifras que são as melhores da América Latina e do Caribe, segundo o informe da Cepal. Tem uma dívida pública bruta de 34 bilhões de dólares, que equivale a 64% do PIB, uma dívida neta que chega a 30,8% e reservas no Banco Central por volta de 15,5 bilhões de dólares.

O Uruguai tem 4,8% de população rural, sem contar o 1% de mega ricos, que concentra a propriedade da terra. Os alugueis pagos pelos pequenos produtores aos grandes donos de terras somara em 2017 mais de 600 milhões de dólares. Aí está a luta de classes e a exploração no campo: a dos donos da terra sobre quem trabalha nela.

“Os que pagam aluguel aos donos de terras não deveriam esperar que seus problemas sejam resolvidos pelos grandes latifundiários e empresários que também lucram alugando maquinária agrícola, caminhões e aviões que se dedicam a fazer a fumigação agrícola, que muitas vezes são os próprios donos da terra”, conta Alberto Grille.

Velho dono de terras, Ignacio de Posadas pede uma “revolução” em um editorial do diário El País. Será a revolução dos mega ricos contra todos os demais? Posadas é filho do político Gervasio de Posadas Belgrano e descendente de José Posadas, que durante a Batalha de Las Piedras teve que entregar sua espada ao líder independentista uruguaio José Artigas. A 300 metros da residência presidencial, está o complexo habitacional do Parque Posadas, onde vivem nove mil trabalhadores, construído em 11 hectares que foram propriedade de sua família.

Ali retumbam os tambores candombeiros e as letras das murgas do carnaval de Montevidéu, que contam os desvarios desta direita que nem a imprensa hegemônica consegue sustentar.

Luvis Pareja é jornalista uruguaio, analista associado ao Centro Latino-Americano de Análise Estratégica (CLAE)

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