sábado, 13 de janeiro de 2018

O Brasil vai bem. O que vai mal é a realidade.

Correio do Povo via Renzo Bassanetti 


Ordem das coisas

Juremir Machado
     
 Se tiver sorte, o cara vem ao mundo para viver 80 anos. Se der azar, passa a infância na miséria, a adolescência na penúria, a idade adulta na batalha e a velhice no asilo. Se nascer com o bumbum para a lua, vai do começo ao fim de vento em popa, do berço de ouro ao hospital cinco estrelas. Com mais sorte ainda, morre sem sofrer. A isso alguns chamam de igualdade de oportunidades no ponto de partida. Alguns, por razões que mais parecem remeter a uma espécie de loteria existencial, encontram forças para mudar de rumo no meio do jogo.

A humanidade até agora encontrou duas maneiras em vigência de se organizar para cobrir este curto tempo que cada um passa neste mundo: o comunismo e o capitalismo. O primeiro, pelas experiências catalogadas, tira toda a liberdade, mas garante teto, rango e hospital até ruir. Ou cadeia. O segundo gaba-se de dar toda a liberdade, mas diz a todos: virem-se para morar, comer e morrer. Outras modalidades de organização social, como a dos índios que resistem em lugares como a Amazônia, estão em extinção, sufocadas pelo darwinismo histórico.

Conclusão: depois de milhares de anos ainda não evoluímos o suficiente para organizar melhor esta curta e acidentada estada na terra. Alguém dirá: tem a socialdemocracia. Tem a Suécia. Faz sentido. Só falta aumentar a escala: os Estados Unidos, a China e a Índia com padrão e modelo suecos. A grande astúcia do ser humano é viver como se fosse eterno mesmo sabendo da sua finitude e precariedade. Só isso pode explicar sua ganância e sua ânsia de acumular o que não poderá levar desta para a outra. Na falta de coisa melhor, simplificamos e tocamos para frente. Há critérios interessantes usados para avaliar situações: a economia pode ir melhor quando a sociedade vai pior. Mais desemprego pode levar ao benéfico resultado de menor inflação. Yes!

Tudo isso hipoteticamente. Imaginemos agora um homem mediano: teve uma infância modesta, uma adolescência espartana e uma vida de muito trabalho e baixo salário. Vai se aposentar aos 65 anos de idade no Maranhão. Quanto tempo ele terá para gozar a vida pós-trabalho? O governo lembra que já é assim para a maioria dos brasileiros. O seu projeto igualitário é fazer que seja assim para todos. Enfim, um governo quase comunista apesar de ser confundido com neoliberal. Confesso que tenho dificuldade para ver um magistrado que recebe auxílio-moradia de R$ 4.300, mesmo tendo casa própria e vivendo na sua cidade, aposentar-se pelo teto do INSS, que está um pouco acima disso.

Tenho olhado telejornais neste começo de 2018 para me refrescar. Descubro que o Brasil vai bem. Está, segundo as manchetes televisivas, decolando. A “ponte para o futuro”, criada como projeto econômico para sustentar a destituição de Dilma Rousseff, estaria dando seus primeiros frutos e passagens. Desconfiado, pergunto ingenuamente: é verdade? É pegadinha? Propaganda eleitoral gratuita? Jogada ensaiada? Medo da volta da esquerda? O tempo passa. Estaria o Brasil de Michel Temer pronto para ensinar à humanidade o leve caminho das pedras?

O Brasil, segundo a mídia, vai bem.

A inflação é a menor da história.

A energia aumenta, mas os alimentos ficam mais barato.

Por quê? Safra recorde e queda de consumo em 2016.

A comida ficou mais barata por termos comido menos.

Genial!

O desemprego também caiu porque agora bico conta como emprego.

A quase futura ministra do Trabalho não cumpre legislação trabalhista.

Um diretor do Detran é rei de multas.

Tem plantação de maconha em clínica para recuperação de drogados.

O Brasil vai bem.


Quem vai mal é a realidade.

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