sábado, 18 de novembro de 2017

Eric Hobsbawm (1963): São Paulo e Recife.

feicibuqui do Rudá Guedes Ricci

Os paulistas têm dificuldades para entender o Brasil. A dificuldade aumenta quando se trata de entender o nordeste. Um problema cognitivo grave.

Hobsbawn, num texto de 1963, retrata ligeiramente o que percebeu como diferença abissal entre São Paulo e Recife. Um olhar estrangeiro normalmente não captura as nuances, mas percebe os traços mais gerais ao contrário daquele que está mergulhado até a medula no ambiente em que sempre viveu.

Vale a pena dar uma lida nas observações do historiador inglês:

RECIFE

"Qualquer pessoa que queira saber o que é uma região subdesenvolvida poderia começar pelo Recife, a capital do empobrecido Nordeste brasileiro. (...) Metade vive nos barracos indescritíveis (...). Como vivem ninguém sabe. (...) A população parece não ter tido uma refeição completa há dez gerações: raquítica, baixa e doente. Ao mesmo tempo, há sinais de rebelião. As bancas de jornal estão repletas de literatura de esquerda: Problemas da Paz e do Socialismo, China em Reconstrução e o jornal das Ligas Camponesas, que são fortes na região (mas há também abudância de Bíblias).

SÃO PAULO

É assombroso pensar que estou no mesmo país do Recife. Os arranha-céus brotam, as luzes de néon brilham, os carros (a maioria feita no Brasil) rasgam as ruas aos milhares, numa anarquia tipicamente brasileira. (...) Esta cidade gigantesca (...) e corrupta. Um líder político local [Adhemar de Barros], agora estimado pelos norte-americanos por seu anticomunismo, costumava fazer campanhas eleitorais com um slogan muito franco: "Rouba, mas faz". (...) O mercado interno para a indústria brasileira é extremamente pobre: aqui, até camisas e sapatos são vendidos a prazo. (...) Os interesses industriais brasileiros são os únicos que não parecem ter medo da revolução social ou de [Fidel] Castro. (...) De certa forma, eles me lembram dos velhos industriais radicais da Inglaterra do século XIX, que tinham o mesmo sentimento de ter a história ao seu lado. (...) O Brasil é um país muito estranho para previsões de visitantes casuais."


Além de sugerir paralelos com personagens atuais, a descrição indica os motivos para o nordeste rejeitar tucanos e Temer e se apoiar no lulismo. Na Era Lula, o BNDES aumentou em mais de 630% os recursos para a região, destinados a apoiar investimentos empresariais. Mesmo com este aumento incrível, a fatia de investimentos em relação ao bolo total do banco de fomento brasileiro chegou a.... 16%. Acho que dá o tom do descaso do centro-sul para com o nordeste.

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