terça-feira, 3 de outubro de 2017

Rita Almeida: Idade Média Reloaded

feicibuqui da Rita Almeida

Quando a arte se dispõe a recuar de sua tarefa de desconstruir e arejar o que está instituído, enrijecido e apodrecido em uma sociedade, em nome da histeria coletiva que clama pela moral e os valores da família, estamos todos ferrados. E o pior é que a grande maioria nem faz ideia do risco que isto representa.

Nos tornamos uma sociedade que massacra a cada dia mais seus entes mais frágeis e que está jogando no lixo todos os programas e avanços sociais dos últimos anos.

Que se deixa manipular a ponto de destituir uma presidenta legítima por causa de pedaladas fiscais (que era prática comum de todos os governos anteriores e foi legalizada dias depois de sua queda) para se calar diante desse governo golpista que mostra a cada dia sua face verdadeiramente corrupta e perversa.

Uma sociedade que decidiu cagar regras pra tudo; desde fazer militância até limpar a bunda (não é piada, há pouco tempo tivemos um programa Bem-estar que ensinou a maneira correta de se limpar a bunda - dê uma googlada nessa merda e descubra que você sempre limpou a bunda de forma errada).

Uma sociedade que não confia mais nas suas instituições: nem do poder executivo, nem do legislativo e nem do judiciário. Uma sociedade que confunde liberdade de imprensa com denuncismo irresponsável e criminalização da política.

Uma sociedade que usa seu sistema judiciário, não para fazer justiça, mas para fazer justiçamento, pirotecnia, roteiro de cinema e inventar heróis de enganação. Uma sociedade que cultiva uma polícia que ainda funciona no modelo capitão-do-mato, que mata e persegue os mais frágeis em nome da proteção dos poderosos e endinheirados.

Uma sociedade cuja moda terapêutica é o coaching; uma espécie de treinamento de cães elaborado para humanos. Uma sociedade que se deixa enganar por líderes religiosos que se encaixam perfeitamente num perfil de sociopata.

E diante de todo esse massacre e repressão das nossas subjetividades, ainda temos que recuar da arte, nossa via de escape e respiro, em nome da moral e dos bons costumes. Eu não sei se vocês estão entendendo a gravidade da coisa, mas vamos muito mal.

Não por acaso a depressão e a medicalização dos nossos mal-estares são uma epidemia, sem perspectiva de recuo. E eu tô pra dizer a vocês, aqui dentro desse meu post-vômito-indignado, que os usuários de drogas ilícitas estão melhores que a maioria nesse ponto. Ao menos estão fazendo algo que quebra o instituído, que denuncia essa podridão que estamos vivendo.

Por fim, diante desse rebosteio todo, dedicamos um Setembro Amarelo - desculpa mas eu tenho vontade de mandar ao cu todos esses meses com cor - para fazer prevenção ao suicídio.

Cerceamos cada vez mais a possibilidade de vida das pessoas, de manifestação das suas subjetividades e singularidades, reprimimos a sexualidade e achamos que uma campanha burocrata vai fazer impacto no índice de suicídio? Ah para!! É muita hipocrisia né?

Só sei que a  gente precisa sair dessa depressão coletiva, dessa passividade, ou estamos todos condenados à morte coletiva. Portanto, quem estiver disposto a viver que crie seus pontos de resistência e indignação, ainda que na sua micro-política. É preciso botar um ponto de basta nesse rolo compressor homogeneizante, moralizante e policialesco.

E a arte, meus caros, é nosso último refúgio. Se permitirmos que invadam esse espaço para normatizá-lo será nosso fim. 

Resistam!

* Me perdoem o post indignado e se ele feriu alguém, mas é autêntico. A outra opção seria cair em depressão profunda ou fundar um grupo de guerrilha. Escrever me salva todo dia. É minha arte.


* Meu post também é resultado da minha profunda tristeza com o suicídio do Reitor da UFSC. E sabe o que eu acho? Que ele foi ao encontro de seu modo de resistir. Que ele nos perdoe por nossa omissão e passividade. Toda minha solidariedade aos seus familiares.

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