terça-feira, 27 de outubro de 2015

Theotônio dos Santos: surpreenda-se com a tecnologia antiga da Pátria Grande

Via PDT

Fonte: OM - Apio Gomes / Ascom PDT | 24 de outubro de 2015


Theotônio dos Santos: "Líderes aprendem com o povo"


“Lembro-me das reuniões, até quatro horas da manhã, quando Brizola, ao sair, respondia a cada pergunta das pessoas que estavam na rua, em frente ao Partido: ‘Governador, o senhor não pode fazer isto…’. E ele explicava, com uma paciência colossal”. Com esta recordação, ao voltar ao Auditório Carmen Cinira, da FLB-AP, no Rio de Janeiro, Theotônio dos Santos estava definindo o arquétipo dos líderes latino-americanos, um dos tópicos de sua palestra, nesta quinta-feira, dia 22.


O economista e professor Theotônio dos Santos participou do terceiro encontro do seminário América Latina: a Pátria Grande, promovido pelo Movimento de Aposentados, Pensionistas e Idosos (MAPI-PDT) – com apoio da Fundação Leonel Brizola - Alberto Pasqualini, Fundação Darcy Ribeiro e Direção Nacional do PDT – com objetivo de trazer à discussão a importância da integração do Continente, principalmente neste período atual, em que forças internacionais que sempre dominaram economicamente a região buscam desestabilizar governos eleitos democraticamente.

– “Eu acho que esta é uma das características mais importantes de uma verdadeira liderança política: a sua capacidade de aprender; sobretudo aprender com o povo, porque é o povo quem vive os grandes dramas e tragédias de nossa realidade; e que está sempre disposto a lutar, pensar e buscar soluções”.
Para Theotônio, o fenômeno latino-americano passa muito por este estilo de liderança, disposta a lutar junto com o povo; e quem fez uma observação muito concreta sobre isto foi Fidel Castro, a cerca de dois anos após a Revolução Cubana: “Nós nunca fizemos nada que não estivesse, antes, na consciência do povo cubano”.


A América Latina está vivendo um momento muito dramático, exatamente porque os avanços que tivemos na região nem sempre representavam a vontade popular, “por medo, muitas vezes, de desafiar as classes dominantes”. Nós sabemos que o custo é muito alto (já pagamos este custo muitas vezes), mas a verdade é que, se não há esta disposição, não há condições de haver transformação.


Neste momento, no Continente, existem lideranças que estão ganhando muito prestígio, muita força, perante o povo – não só de cada país, mas também de toda a região e no exterior: “Neste momento, existe um pensamento, em muitos setores da Europa, de que a América Latina, hoje, está na vanguarda política mundial. Há uma ideia bastante difundida neste sentido”.


No Brasil, existe pouco interesse da mídia e dos políticos pela problemática latino-americana – e pelo papel de liderança que se pode exercer, como expressão deste grande movimento social e político que está avançando na região.


Há, por outro lado, uma tradição política conservadora, extremamente reacionária, que também se manifesta no mundo empresarial – que entende o trabalhador é quase um escravo –, que “vem de uma superioridade absoluta; que vem não se sabe de aonde: porque não é uma classe dominante educada”, porque, em grande parte despreza muito o trabalho intelectual, o conhecimento propriamente dito.
A América Latina tem, hoje, uma presença muito significativa no cenário mundial, nas lutas sociais e políticas: “Há uns dez anos, por exemplo, movimentos sociais muito fortes criaram o Fórum Social, que se inicia aqui no Brasil, em Porto Alegre, e, de repente, se transforma em um movimento mundial de grande expressão”.


Theotônio dos Santos discorda dessa imagem que coloca este Continente como terceiro-mundo, cujo entendimento, contemporâneo, não retrata com fidelidade a definição desta expressão, criada por um demógrafo francês, depois da Segunda Guerra mundial.


Para o palestrante, se nós olharmos o mundo, hoje, vamos perceber que o centro social, político e econômico está se deslocando muito fortemente – e cada vez mais – para estas regiões do chamado terceiro-mundo.


A Pátria Grande da qual Darcy Ribeiro falava


“Se nós queremos, realmente, falar da América Latina, temos que falar como potência mundial – um dos centros políticos e econômicos mais importantes do mundo”, e não apresentar como povos inferiores, como é um conceito apresentado corriqueiramente, e aceito pelos próprios latino-americanos sem muita contestação.


– “Nós temos que respeitar a América Latina. Nós temos uma presença história, uma presença econômica, uma presença política e uma presença intelectual extremamente importantes”.
Theotônio entende que esta história de que a gente não se respeita é uma das coisas mais graves que temos, e cita alguns casos históricos “para não se pensar que a América Latina é uma coisa improvisada; um fenômeno ocorrido depois da colonização: nós somos uma força civilizacional, extremamente avançada”.


Há cerca de 20 anos, foi descoberta, no Peru, uma cidade – Caral –, que é a civilização mais antiga das Américas e terceira mais antiga do mundo: um centro urbanístico de alta qualidade.
Neste centro, descobriu-se um desenvolvimento tecnológico espantoso para a época: construção de pirâmides – equivalentes às que o Egito fazia na mesma época, com a vantagem de ter um sistema antissísmico (que, hoje, os japoneses estão estudando, por ser mais avançado do que o deles).


Na agricultura, eles conseguiram cinco cores diferentes de algodão, através de métodos de grande capacidade tecnológica. Existe, hoje, um grupo de empresários europeus estudando para ver se é possível utilizar este conhecimento no mundo atual.


A NASA tem um grupo que estuda como eles desenvolveram uma arquitetura capaz de usar do vácuo, através das grandes quedas d’água. O vácuo é fundamental na astronáutica, pela falta de energia no espaço. “Se você souber criar um vácuo, no espaço, pode pensar em termos de grandes viagens – o que hoje não é possível porque se esgotas os meios que temos hoje”.


Caral esteve desaparecida por todo este tempo, coberta por areia, mas os nossos indígenas sabiam que ela existia ali uma civilização. “Nós é que não – nós que, tão educados, tão conhecedores do mundo”.
Theotônio diz que isto demonstra que não estamos diante de povos atrasados. Somo um povo com forte capacidade intelectual, de desenvolvimento e de acumulação de conhecimento histórico:


– “Temos que partir da nossa capacidade; da nossa enorme capacidade. A NASA está aprendendo; o japonês está aprendendo; os empresários europeus também estão aprendendo”.


Citou também outros exemplos, como dos indígenas destes países, que conheciam toda nossa biodiversidade. Grande parte de a economia alimentar europeia vem daqui (citou batata, milho, chocolate, tomate, abacate e frutas diversas), desenvolvida aqui:


– “E não pense que são produtos naturais. São produtos ao qual se chegou, através de um longo processo de especialização do uso desses produtos; de modificação deles para poder chegar a ser um produto utilizável pelo ser humano”. E concluiu: “Isto é produto de civilização; produto de conhecimento”.



Durante o debate, que alongou sua apresentação a mais de três horas e meia, respondeu a perguntas sobre BRICS, MERCOSUL, China, Índia, petróleo e crise em países latino-americanos – o que comprovou, na prática, uma de suas frases mais fortes, entre tantas outras: “Se nós queremos, realmente, falar da América Latina, temos que falar como potência mundial”.

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