sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Theotonio dos Santos: Países latino-americanos procuram alternativas ao FMI e ao Banco Mundial

Via Sputnik

Arnaldo Risemberg

A cidade de Santa Cruz, na Bolívia, está sediando a reunião anual da LACEA – Associação de Economia da América Latina e Caribe. Um dos temas do encontro é a busca de alternativas ao Banco Mundial e ao FMI. O Professor Theotonio dos Santos comenta a questão com exclusividade para a Sputnik Brasil.

Professor de Economia da UERJ – Universidade Estadual do Rio de Janeiro e professor emérito da UFF – Universidade Federal Fluminense, Theotonio dos Santos afirma que as nações latino-americanos estão certas ao buscar alternativas ao FMI e ao Banco Mundial. Para ele, estes dois organismos impõem condições draconianas aos países que recorrem aos seus préstimos, obrigando seus governantes a se sujeitar a um amplo e injusto conjunto de regras.

Na opinião do Professor Theotonio dos Santos, uma destas alternativas a que os latino-americanos poderão recorrer é o Novo Banco de Desenvolvimento, o Banco dos Brics: “Esta será uma instituição aberta que poderá dar apoio a quem dela precisar.”

Sputnik: Como o senhor vê este encontro de economistas da Associação de Economia da América Latina e Caribe – LACEA, que está sendo realizado em Santa Cruz, na Bolívia?

Theotonio dos Santos: É muito interessante ver que na América Latina existem hoje várias entidades coordenando atividades econômicas e estudos de economia, mostrando que a região está buscando desenvolver um conhecimento próprio sobre as questões econômicas, em vez de se submeter, não só no meio acadêmico mas também no meio das decisões empresariais e nas instituições internacionais dirigidas muito diretamente pelos EUA. Tem havido constantes reuniões e questionamentos. Há pouco tempo foi fundada uma associação de estudos sobre o pensamento econômico latino-americano, houve uma reunião com mais de mil pessoas na Argentina. No Chile também houve uma reunião com o mesmo caráter, enquanto estava se realizando no México uma reunião da SEPLA – Sociedade de Economia Política Latino-Americana, além de outros encontros em Cuba e no Panamá. Trata-se de um movimento de ideias em toda a região no sentido de romper com o pensamento econômico que tem sido o inimigo dos nossos povos e que tem impedido o nosso desenvolvimento e o avanço do nosso país.

S: Esses países estão buscando alternativas ao Fundo Monetário Internacional e ao Banco Mundial?

TS: Essas instituições de certa forma coordenavam o pensamento econômico e transformavam isso em um instrumento de opressão muito forte sobre o pensamento econômico do mundo inteiro. Nós estamos escapando disso – a Argentina é um país onde se avançou muito, o Brasil estava avançando, mas agora recuou porque colocou um ministro ligado a essa corrente. Não temos nenhuma dívida com o Banco Mundial nem com o FMI, e nem precisamos deles. Ter um ministro de Economia desse setor é uma concessão política muito negativa.

S: Quais seriam  os marcos do caminho do Brasil para servir de exemplo aos países no sentido de se livrar da dependência do Banco Mundial e do FMI?

TS: Em primeiro lugar, o grande crescimento de nossas exportações na década de 2000 – o Brasil elevou três vezes suas exportações. Depois, o Lula entrou no Governo com uma dívida de 35 bilhões de dólares, que não sabia como pagar porque não tínhamos nem superávit comercial e nem uma fonte de renda, e menos de dois anos depois nós estávamos exportando mais de US$ 150 bilhões com um superávit que passava dos US$ 50 bilhões. Pagou-se o FMI, não temos nenhuma dívida com o Banco Mundial, e o Lula deu uma ajuda de US$ 10 bilhões ao FMI, de forma que a relação mudou totalmente. Agora temos uma reserva de US$ 375 bilhões, não precisamos pedir nenhum dinheiro emprestado, apesar de ter a política de elevar os juros para atrair capital do exterior – o que é absolutamente inexplicável, não sei quem tem essa ideia e a transforma numa ideia razoável. Hoje não temos nenhuma dependência do Banco Mundial e do FMI, ao contrário, estamos criando, com o BRICS, um grande Fundo e vamos manejar US$ 100 bilhões, o que é muito mais do que o FMI e o Banco Mundial têm. Saímos da condição de pobre-diabo, pedindo auxílio ao FMI, para uma condição de quem está dando auxílio, de quem pode organizar uma atividade econômica muito positiva, tanto na região quanto para outros países, porque o Novo Banco de Desenvolvimento do BRICS é aberto e vai atuar a nível mundial.


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