terça-feira, 20 de outubro de 2015

Obama: fala muito, faz pouco

Via Rebelión


Atilio A. Boron
Tradução do espanhol: Renzo Bassanetti

Uma das perguntas que é possível formular a partir de Cuba é por que o criminoso bloqueio aplicado contra a ilha há mais de meio século – de longe, um recorde absoluto a nível mundial por seu radicalismo, raiva e duração – ainda se mantém sem alterações, apesar das belas palavras e os amáveis gestos de Barack Obama, John Kerry e outros altos funcionários do regime norte-americano.

Digo “regime” porque em ciência política assim é qualificado qualquer governo que viola os usos e os costumes da comunidade internacional, sua legalidade as resoluções das Nações Unidas. Casos notáveis de “regimes” são os governos dos Estados Unidos, Grã-Bretanha e Israel, para os quais tudo isso carece de importância, pois tripudiam sobre as disposições e recomendações da ONU e atuam fazendo da prepotência e da impunidade o traço diferencial de sua gestão de governo.  

No caso do qual nos ocupamos, e a dez meses do histórico anúncio do presidente norte-americano e de seu par cubano, nada mudou. Como dizem alguns amigos da ilha, onde a ironia e o senso de humor são tão afiados como o melhor aço, a canção da moda cantada hoje em Washington quando se fala de Cuba diz em um de seus versos “killing me softly”, ou seja, “mate-me docemente”. O objetivo do império é o mesmo de antes: precipitar a derrubada da revolução e promover através de medidas que são inocentes somente na sua aparência a  conquista da tão sonhada “mudança de regime”. Agora, com doçura. Antes, com os predecessores de Obama, apelando para a sabotagem, as invasões e os atentados. Contudo, o objetivo estratégico não mudou. 

Aos distraídos, lembro que quando em Washington se fala em “mudança de regime”, trata-se sim de fomentar uma guerra civil, perpetrar indescritíveis atrocidades e, se possível, apoderar-se desses infelizes países e de suas riquezas. Os exemplos mais recentes são Líbia, Iraque e Afeganistão, e o que está se tentando hoje na Síria. Certamente os cubanos e cubanas sabem muito bem disso, por que se há um povo que conhece os Estados Unidos e sua classe dominante, esse povo é o cubano. Por isso, não estão surpreendidos com a continuidade do bloqueio e as enormes dificuldades que isso lhes ocasiona em seu quotidiano. 

Obama eliminou Cuba da lista de países patrocinadores de terrorismo, onde tinha sido incluída por um dos presidentes mais ignorantes e brutais da história dos Estados Unidos, o semi-analfabeto Ronald Reagan. Ainda não se pode operar com cartões de crédito que, direta ou indiretamente, tenham relação com um banco ou empresa norte-americanos; o acesso à internet continua sendo uma dor de cabeça para as empresas, os funcionários, os acadêmicos e para o público em geral, vítimas de uma das formas mais sutis de asfixia de uma sociedade no mundo atual.

A recente visita da Secretária do Comércio dos Estados Unidos não permite apreciar nenhuma mudança concreta a curto prazo. Como temos dito em numerosas oportunidades, a Casa Branca conta com suficientes atribuições como para poder dar passos muito importantes que redundariam em benefício da vida dos cubanos, cuja condição um documento do governo norte-americano (Estratégia de Segurança Nacional 2015) ela assegura querer melhorar. Nesse texto, se estabelece a necessidade de que os cubanos “decidam livremente” sobre seu futuro.   

Resulta pelo menos  paradoxal que para se poder decidir em liberdade, Washington considere que a melhor ajuda é estabelecer toda a classe de obstáculos para acessar a internet, dificultar as relações econômicas entre os dois países, manter restrições às viagens ou limites aos objetos que os residentes nos Estados Unidos podem adquirir na ilha e toda uma interminável lista de limitações que, mais do que destinadas a fomentar o crescimento da liberdade em Cuba, como assegura o citado documento, foram concebidas para fustigar uma população, provocar seu mal-estar e criar um clima de opinião sedicioso e destituinte.


Obama deveria lembrar, além de tudo, que o bloqueio é uma flagrante violação dos direitos humanos e da lei internacional, e que ele faria uma importante contribuição à humanidade se começasse a desmontar  essa infernal maquinaria de dor e de morte.

Atilio A. Boron:   Pesquisador  Superior do Conicet​. ​ Pesquisador do IEALC, Instituto de Estudos de América Latina  e do Caribe da Faculdade  de Ciências Sociais da Universidade de Buenos Aires.

Blog do autor: www.atilioboron.com.ar                                                                                              





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