domingo, 18 de outubro de 2015

Livro discute obra de Albert Einstein


Pollyanna Duarte 

O ano de 2015 é um ano sui generis para a física. Fazem exatamente 10 anos da morte de César Lattes, físico brasileiro, co-descobridor do méson pi, partícula fundamental para se entender-se a coesão do núcleo do átomo, professor da Unicamp e um dos maiores físicos da história. Também fazem exatos 60 anos que Albert Einstein, que dispensa apresentações, faleceu. O que têm a ver essas duas datas? É que os dois físicos eram inimigos. Não necessariamente inimigos pessoais, já que nunca se encontraram, mas intelectuais.
Albert Einstein / Foto Wikimedia / licença Creative Commons
Albert Einstein / Foto Wikimedia / licença Creative Commons
Lattes foi um dos principais defensores da ideia que a Teoria da Relatividade não era fruto do gênio de Einstein, mas uma cópia indevida, um plágio que Einstein fez com outras descobertas. No passado a imprensa brasileira e internacional, seja ao comentar a morte de Lattes, seja ao celebrar os cem anos da relatividade, não deu um pio sobre esta controvérsia, de conhecimento público desde os anos 50.
Um livro, recém-lançado pela editora Novo Século, tenta colocar mais luz sobre essa controvérsia. Intitulado Einstein – Verdades e Mentiras, do historiador Waldon Volpiceli Alves, o livro tem a pretensão de analisar os principais fatos polêmicos que cercam Einstein. O capítulo sobre o plágio de Einstein é o maior do livro e nele descobrimos que não era só Cesar Lattes quem defendia essa polêmica tese. Muitos outros físicos, de outros países, também creem que Einstein era, sim, um plagiador das descobertas de outros cientistas e, portanto, não o gênio consagrado pela imprensa nacional e internacional. Claro que o livro também tem relatos dos defensores de Einstein (entre eles Marcelo Gleiser) – físicos, jornalistas e historiadores que defendem a primazia de Einstein na mais importante descoberta cientifica do século 20 e da história da humanidade.
Cesar Lattes / Foto Canal Ciência - IBCT
Cesar Lattes / Foto Canal Ciência – IBCT
Lattes já havia dado entrevistas bombásticas sobre esse assunto. Em reportagem publicada no dia 5 de agosto de 1996, no jornalDiário do Povo, de Campinas (SP), afirma com todas as letras: “Einstein é uma fraude, uma besta! Ele não sabia a diferença entre uma grandeza física e uma medida de grandeza, uma falha elementar.”
E vai mais longe: “Ele plagiou a Teoria da Relatividade do físico e matemático francês Henri Poincaré, em 1905. A Teoria da Relatividade não é invenção dele. Já existe há séculos. Vem da Renascença, de Leonardo Da Vinci, Galileu e Giordano Bruno. Ele não inventou a relatividade. Quem realizou os cálculos corretos para a relatividade foi Poincaré. A fama de Einstein é mais fruto do lobby dele na física do que de seus méritos como cientista. Ele plagiou a Teoria da Relatividade. Se você pegar o livro de história da física de Whittaker, você verá que a Teoria da Relatividade é atribuída a Henri Poincaré e Hawdrik Lawrence. Na primeira edição da Teoria da Relatividade de Einstein, que ele chamou de Teoria da Relatividade Restrita, ele confundiu medida com grandeza. Na segunda edição, a Teoria da Relatividade Geral, ele confundiu o número com a medida. Uma grande bobagem. Einstein sempre foi uma pessoa dúbia. Ele foi o pacifista que influenciou Roosevelt a fazer a bomba atômica. Além disso, ele não gostava de tomar banho…”
Ironias e agressões
O que mais uma vez comprova que, neste país, é mais fácil encontrar liberdade de expressão nos pequenos jornais que na grande imprensa. Mais um trecho do Diário do Povo:
DP – Então o senhor considera a Teoria da Relatividade errada? Aquela famosa equação ‘e=mc²’ está errada?
César Lattes – A equação está certa. É do Henri Poincaré. Já a teoria da relatividade do Einstein está errada. E há vários indícios que comprovam esse ponto de vista.
Mas, professor, periodicamente lemos que mais uma teoria de Einstein foi comprovada…
C.L. – É coisa da galera dele, do lobby dele, que alimenta essa lenda. Ele não era tudo isso. Tem muita gente ganhando a vida ensinando as teorias do Einstein.
Einstein se tornou um santo, uma espécie de Jesus na ciência. Para quem achar que um professor da Unicamp não tem autoridade para contestar o gênio alemão saiba que Lattes fez de tudo para poder entrar com 16 anos na faculdade de Física. Aos 20 anos estava formado e aos 24 anos foi o grande idealizador que descobriu o méson pi. Era famoso por ser dócil com os subalternos e rude com os diretores da Unicamp. Foi o brasileiro que chegou mais perto de ganhar o prêmio Nobel em Física, talvez um dos casos mais escandalosos de injustiça da Academia Sueca de todos os tempos. Lattes descobriu o méson pi em emulsões nucleares (raios cósmicos), mas o prêmio ficou com Powell, que descobriu novamente o méson pi no cíclotron de Gardner e morreu logo depois. Mais do que tudo, Lattes escolheu o caminho das pedras. Poderia ter feito carreira brilhante nos Estados Unidos. Mas, não… Voltou para o Brasil e deixou para nós um legado precioso: o Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (SP), o Instituto de Física da Unicamp, e ainda mais: o respeito da comunidade internacional. É interessante ver as reações das pessoas quando se ataca um mito. Mesclam-se ironias e agressões. Em vários fóruns de internet defensores de Einstein dizem que Lattes era um velho caduco, invejoso etc., mas ninguém contestou tecnicamente suas afirmações. Foram várias afirmações mostrando erros elementares de Einstein. Ou não?
Para quem gosta de querelas científicas, boa leitura.
***
Pollyanna Duarte é jornalista


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