segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Dilma errou ao seguir a ‘agenda Fiesp’, diz economista


Carlos Drummond, para a Carta Capital

Reclama-se que o governo não pode escolher vencedores. Um erro, pois em todos os países que se industrializaram houve uma escolha. Aqui é pior: não é o governo que escolhe os vencedores, são os vencedores que escolhem o governo.


Aos 31 anos, Laura Carvalho é uma voz dissonante no debate nacional. Estrela em ascensão do pensamento desenvolvimentista, ela é minoria na Faculdade de Economia e Administração da USP, centro majoritariamente ortodoxo, onde leciona. A acadêmica orgulha-se, porém, de estar no lugar certo e na hora certa em dois momentos recentes. Para fazer o doutorado, desembarcou em Nova York em agosto de 2008, um mês antes da quebra do Lehman Brothers, da irradiação da crise financeira mundial e intenso debate econômico. Quatro anos mais tarde estava de volta ao Brasil, em outro instante crucial. “Passamos a viver aqui, com atraso, a mesma onda de austeridade.” Na entrevista a seguir, a jovem economista analisa as falhas do governo Dilma Rousseff. E as possíveis soluções para os impasses da economia.

Quais foram os erros recentes da política econômica?

Laura Carvalho: Cada vez que o dólar sobe, gera certa comoção. E uma forte pressão, principalmente de agentes do mercado financeiro e investidores estrangeiros com ativos em real e das empresas endividadas em dólar, que perdem dinheiro. Há também os turistas em viagem ao exterior. Surge essa pressão de partes com poder na sociedade. Além disso, o governo lida com outros custos da desvalorização, entre eles, a inflação. Por causa desses fatores, o Brasil criou a tradição de usar o câmbio para segurar o aumento de preços. E isso não começou a ser feito no governo Lula. Vem de antes, desde o regime de metas de inflação, adotado em 1999. Abandonamos o câmbio fixo, ele passou a ser mais ou menos flutuante, mas não largamos o uso da taxa de juros para atrair capital estrangeiro, provocar uma valorização do real e controlar a inflação por essa via. A taxa de juros não é usada para contrair a demanda, até pelo fato de a Selic ter pouco impacto sobre os investimentos. Esses dependem do BNDES, das taxas de longo prazo. O consumo também responde pouco à elevação dos juros. A taxa é usada mesmo para controlar o câmbio.

O que mais?

LC: O ajuste fiscal de 2011 não ajudou em nada, muito pelo contrário. Tornou-se mais um motivo da desaceleração do crescimento nos anos seguintes. Pouco se fala a respeito. E como se o primeiro mandato de Dilma Rousseff tivesse começado com expansão fiscal. Ao mesmo tempo, o governo tentou reduzir as taxas de juro. A queda muito brusca da Selic gerou uma desvalorização do real também muito veloz e a inflação acelerou-se. O crescimento do PIB diminuiu, pois tinha o ajuste, a crise na Europa, a estagnação do consumo por causa da elevação dos preços… Tudo desacelera ao mesmo tempo. O efeito positivo da desvalorização, de recuperar a competitividade da economia, acontece mais no longo prazo. Os pontos negativos aparecem, no entanto, rapidamente. E ocorre toda aquela pressão da qual falei. O governo entrou na ciranda de tentar salvar alguns setores, dar estímulos aos empresários de diversas maneiras na esperança de manter o nível do investimento. Mas nesse cenário ninguém vai comprar máquina e equipamento novos para produzir mais. Resultado: a economia despenca e o investimento cai junto. Foi um erro de natureza um pouco diferente do anterior. Talvez a opção correta fosse uma redução de juros mais gradual, sem o ajuste fiscal. Mesmo devagar e embora tenha aumentado um pouco as taxas no início, Lula conseguiu ao longo de seus dois mandatos reduzir substancialmente os juros.

Seria um problema das medidas escolhidas ou da maneira como foram aplicadas?

LC: Usar a taxa de juros para sobrevalorizar o câmbio é um erro e ponto. A tentativa de reduzir os juros rapidamente não tem nada a ver com essa ideia de nova matriz, não é irresponsável, tem de reduzir os juros, não há problema nenhum. Porém, dadas as restrições políticas, as pressões, o Banco Central não sustentou depois essa redução. Dizia isso em 2011. Foi um erro de timing e de magnitude. E um pouco de estratégia também, por causa da conjuntura internacional.

Como é possível evitar esse tipo de erro?

LC: Por que eles erraram? Naquele momento, apontava o debate público entre os economistas, o principal problema era o câmbio. Essa visão foi elaborada por economistas que Dilma Rousseff escuta bastante. Não digo que estavam errados, mas talvez o timing e a forma com que foram ouvidos tenham sido equivocados. Houve ainda a pressão dos empresários. Chamo-a de “agenda Fiesp”. A presidenta seguiu essa agenda: para recuperar a competitividade é preciso câmbio mais alto, redução de impostos e ajuste fiscal.

Qual a sua crítica à agenda Fiesp?

LC: A desvalorização do câmbio é correta. Mas o ajuste como proposto, via corte de gastos, é um descalabro. A redução de impostos também não teria nenhum impacto, ainda mais sem contrapartida. Reclama-se que o governo não pode escolher vencedores. Um erro, pois em todos os países que se industrializaram houve uma escolha. Aqui é pior: não é o governo que escolhe os vencedores, são os vencedores que escolhem o governo. Bem, lá atrás a coisa degringolou e gerou um custo fiscal enorme. A perda de receita se acumula, as desonerações acabam por não ter efeito e as coisas se retroalimentam em uma espiral negativa, da mesma forma como antes se retroalimentavam em uma espiral positiva.

Por que se realimentam tão rapidamente neste momento?

LC: Se você olhar para o índice de confiança dos empresários desde o início do segundo mandato de Dilma, ele despenca. E não despenca depois da eleição, há até um aumento do indicador naquele momento. A ideia de que o atual ajuste fiscal vai produzir um aumento da confiança e levar os empresários a investir ignora a dinâmica do setor privado. Talvez o empresariado até defenda essa política, ache que está correta, mas o impacto sobre os negócios se dá da seguinte forma: cai o EMPREGO, o salário e o consumo das famílias. Com isso recuam as vendas das empresas e elas passam a operar com capacidade ociosa. Não vão investir. O governo entrou, de certa forma, nesta ciranda, perde receita também, o que provoca mais pressão por corte de gastos. Em todas as crises de demanda acontece a mesma coisa. A única salvação seria se o resto do mundo crescesse bastante e estimulasse a venda de commodities. Mas com o comércio e o preço dos nossos produtos em queda, fica-se sem nada. O que será o motor?

Tem uma ideia?

LC: O governo aposta nas concessões para estimular o setor privado. Um problema: o processo demora uma eternidade. Outro: a proporção da participação privada é muito pequena. O governo Dilma deixou de apostar desde o primeiro momento no investimento público. Prefere as desonerações e as concessões, na esperança de o setor privado assumir esse papel. Não aconteceu.

Quais as falhas do segundo mandato?

LC: A primeira parte da desaceleração resulta do ajuste de 2011, dessa mudança estratégica que mencionei. O novo ajuste, este de 2015, produziu ainda mais efeitos negativos em uma economia que patina. Partiu-se do pressuposto de que seria rápido, um ajustezinho. E ele nada tinha de “inho”. Anunciaram um programa fora da realidade, sem chance de se tornar factível, dada a desaceleração da economia. Tiveram de rever e isso gera na população o sentimento de que está todo mundo em crise. Vou perder meu emprego etc. Os consumidores param de gastar e os empresários, de investir. Certamente, o impacto da quebra de confiança é muito maior do que o efeito direto do corte de gastos.

Dá para salvar alguma coisa da política econômica atual?


LC: Os programas sociais foram mantidos e isso é bom. Dilma também não alterou a política de reajuste do salário mínimo, com ganho real. Até agora não houve retrocessos no Sistema Único de Saúde. O governo está, no entanto, cada vez mais capturado. Veremos o que acontece.

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