sábado, 10 de outubro de 2015

Contas no exterior: Eduardo Cunha tem muito o que aprender com Paulo Maluf

Sanguessugado do Sakamoto


Paulo Maluf é um dos grandes comunicadores da história recente do país. Calhou de ser um dos mais políticos mais corruptos também, o que – para muitos eleitores – é apenas um detalhe.

Questionado sobre suas contas no exterior, que receberam milhões desviados dos cofres públicos de São Paulo, repetiu por sua própria boca ou pela de seus assessores uma frase que se tornou icônica: “Paulo Maluf não tem nem nunca teve conta no exterior”.

Não importa que aparecessem testemunhas, documentos estrangeiros, batom na cueca, foto de saque em caixa eletrônico fazendo sinal da vitória. Repetia a mesma frase com tanta frequência que, por vezes, parecia rir junto dos repórteres diante daquela nonsense situação. Já tive a oportunidade de entrevistá-lo, sei o que é isso. Em outras, incorporava tão bem o papel de acusado injustamente que, aos mais incautos, passava o recado.

Afinal de contas, como diria Fernando Pessoa, o poeta é um fingidor. Finge tão completamente, que chega a fingir que é dor, a dor que deveras sente.

Em 2004, quando a imprensa noticiou que a Suíça enviara provas de suas contas, informando sobre um depósito de US$ 154 milhões, não se deu por rogado: “Vou mandar providenciar num cartório em São Paulo uma escritura pública de cessão de direitos. Tanto não tenho contas, que vou passar uma escritura. O primeiro que encontra a conta, o dinheiro é dele”. Gênio.

O dinheiro vem sendo repatriado. Mas Maluf segue firme e forte, mantido por liminares, apesar da Lei da Ficha Limpa. Tanto que foi o oitavo candidato a deputado federal mais votado em São Paulo, com 250.296 eleitores depositando nele sua confiança.

Mas este post não é sobre Paulo Maluf, mas sobre Eduardo Cunha.

Em março, na CPI da Petrobras, o presidente da Câmara dos Deputados disse: “Não tenho qualquer tipo de conta em qualquer lugar que não seja a conta que está declarada no meu imposto de renda”.

Depois apareceram testemunhas, documentos estrangeiros, batom na cueca, foto de saque em caixa eletrônico fazendo sinal da vitória, enfim, tudo para comprovar contas secretas na Suíca, que seriam abastecidas com dinheiro de propina.

Daí, ele reafirmou o que havia dito antes, depois respondeu com silêncio, então disse que só se pronunciaria depois de analisar as investigações, depois culpou os adversários e os jornalistas. Dizem que tem passado nervoso.

Eduardo é jovem. Tem 57 anos. Se ele quiser chegar aos 84 de Paulo, com a mesma vitalidade, terá que acreditar no jogo político que aceita o inaceitável, na destreza de seus advogados e, principalmente, em si mesmo. Pois pode até perder a posição e o mandato, mas isso, no Brasil, não significa game over.

Porque parte do eleitorado brasileiro já provou que escolhe heróis em todos os partidos políticos, da esquerda à direita, e segue com eles até o fim – independente do que aconteça. Basta que esses heróis reafirmem suas narrativas com um mínimo de convicção. Então, sentindo-se culpados diante de uma desconfiança que dava sinais de nascer, alguns desses eleitores se prostram arrependidos diante da urna. E pensam “perdoa-me por me traíres” – apesar de nunca terem ouvido falar de Nelson Rodrigues.

Eduardo, convicção vem do treino, mil vezes na frente do espelho se for preciso, para que, diante de provas como pagamento de aulas de tênis em caras academias ou outros mimos com cartão de crédito de conta inexistente na Suíça, você possa repetir, sem piscar, acreditando no que diz e não se importando com o que o mundo inteiro pense. Feito Maluf:

“Eduardo Cunha não tem nem nunca teve conta no exterior”.


Mesmo que isso soe ridículo.

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