terça-feira, 8 de setembro de 2015

Refugiados: a tragédia maior está a acontecer no Médio Oriente

Via Publico.pt

LIZ SLY (Al-Minya, Líbano )

Os refugiados sírios que estão a chegar à Europa são apenas uma pequena percentagem dos quatro milhões que fugiram da guerra e (sobre)vivem agora nos países à volta da Síria.

Chegada à Turquia em fuga da Síra

Enquanto a atenção do mundo está fixada nas dezenas de milhares de refugiados sírios que acorrem à Europa, uma crise potencialmente muito mais profunda desenrola-se nos países do Médio Oriente que carregam o fardo do fracasso mundial para resolver a guerra na Síria.

Os que chegam à Europa representam uma pequena percentagem dos quatro milhões de sírios que fugiram para o Líbano, Jordânia, Turquia e Iraque, transformando a Síria na maior fonte de refugiados em todo o mundo e na pior crise humanitária em mais de quatro décadas.

À medida que o conflito entra no quinto ano, as agências humanitárias, os países que acolhem os refugiados e os próprios sírios começam a aperceber-se de que a maioria não regressará a casa num futuro próximo, confrontando a comunidade internacional com uma crise de longo prazo para a qual não tem respostas capazes e que pode revelar-se profundamente desestabilizadora, quer para a região quer para o mundo em geral.

O fracasso é, em primeiro lugar e sobretudo, diplomático, diz António Guterres, o alto comissário das Nações Unidas para os Refugiados. O conflito provocou pelo menos 250 mil mortos no coração estratégico do Médio Oriente e deslocou mais de 11 milhões de pessoas, no entanto não existe um processo de paz, nenhuma solução perceptível ou um fim à vista.

Agora, os esforços humanitários estão também a falhar, por causa do interesse decrescente, da diminuição das doações e pelo aumento exponencial das necessidades. As Nações Unidas receberam menos de metade do valor que disseram precisar para cuidar dos refugiados ao longo dos últimos quatros anos. A ajuda está a ser cortada e há programas suspensos no momento em que aqueles que deixaram a Síria à pressa, esperando regressar em breve a casa, estão a esgotar as suas poupanças e os apoios que receberam à chegada.

“É uma tragédia sem comparação no passado recente”, diz Guterres em entrevista, alertando que milhões de pessoas podem ficar sem a ajuda de que precisam para se manterem vivos. “Há muitas batalhas que estamos a ganha”, acrescenta. “Infelizmente, o número de batalhas que estamos a perder é maior.”

“Isto não é vida”
Esta é uma crise cujos verdadeiros custos ainda não estão claros.

Sem ajuda, refugiados sem nada espalham-se por cidades, vilas e quintas do Médio Oriente, numa recordação visível da negligência mundial. Amontoam-se nas ruas de Beirute, Istambul, Amã e nas cidades e aldeias entre elas, vendendo lenços de papel, rosas ou simplesmente mendigando por trocos.

Mães com crianças ao colo dormem junto aos sinais de trânsito, debaixo de pontes, em parques de estacionamento e à porta das lojas. Famílias acampam em quintas abrigando-se com toldos de plástico, bocados de madeiras ou velhos cartazes de publicidade a restaurantes, filmes, apartamentos e a outros pedaços de vidas que podem nunca mais vir a viver.

“Isto não é vida”, diz Jalimah Mahmoud, de 53 anos, que vive de esmolas juntamente com a sua neta de sete anos em Al-Minya, um campo de tendas construídas à pressa junto a uma auto-estrada costeira no Norte do Líbano. “Estamos vivos apenas porque ainda não morremos.”

Inevitavelmente, os que podem vão-se embora. As famílias juntam as suas poupanças, pedem emprestado aos amigos para pagar aos contrabandistas que os amontoam em barcos que atravessam o Mediterrâneo com destino à Europa e à hipótese de uma vida melhor.

Quando lá chegam repetem, a uma escala menor, as cenas de miséria que se desenrolam por todo o Médio Oriente – acampam nas praias da Grécia, dormem nas ruas de cidades europeias e amontoam-se em filas pedindo asilo. Uma prova dos perigos que a sua viagem comporta surgiu a semana passada na Áustria, quando as autoridades descobriram os corpos em decomposição de 71 pessoas deixados ao abandono num camião – aparentemente migrantes levados para o país por contrabandistas.

Os sírios representam a maior percentagem de refugiados que chegaram à Europa nos últimos dois anos e o seu número cresce rapidamente – 63% das 160 mil pessoas que chegaram à Grécia por mar neste ano eram oriundos da Síria.

Mas a Europa é uma opção viável apenas para os refugiados que conseguem pagar os cinco ou seis mil dólares que os contrabandistas pedem.

Dados baseados em entrevistas junto de sírios na Turquia e no Líbano sugerem que aqueles que já fizeram a viagem tendem a ser pessoas que viviam melhor antes da guerra. Os outros poupam tudo o que podem do que recebem ou ganham, vendem terras e bens, na esperança de que também eles consigam fazer a viagem.

Um comentário:

  1. se é pára morrer como vem morrendo como é o caso desses 71 melhor seria ficar e lutar pelo seu passa dá apoio a Assad e expulsar o EI da Siria assim como todos aqueles apoiados pelos americanos que sao oas culpados port tudo que a Siria vem passando.

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