quinta-feira, 17 de setembro de 2015

No fundo do poço, há sempre um alçapão

Sanguessugado do Sakamoto

Leonardo Sakamoto

A vida. Essa brincalhona.

O promotor de Justiça em São Paulo Rogério Leão Zagallo saiu da casinha ao postar, em junho de 2013, em uma rede social: “Estou há duas horas tentando voltar para casa, mas tem um bando de bugios revoltados parando a Faria Lima e a marginal Pinheiros. Por favor alguém pode avisar a Tropa de Choque que essa região faz parte do meu Tribunal do Júri e que se eles matarem esses filhos da puta eu arquivarei o inquérito policial''.

Logo ele que, em 2011, ao pedir o arquivamento de um inquérito por violência policial, disse: “Bandido que dá tiro para matar tem que tomar tiro para morrer. Lamento que tenha sido apenas um dos rapinantes enviado para o inferno. Fica o conselho ao policial: melhore sua mira''.

Punido pelo Conselho Nacional do Ministério Público e pelo Supremo Tribunal Federal, agora ele tornou-se responsável, através da distribuição aleatória de casos, por conduzir a investigação de policiais suspeitos de terem matado duas pessoas já rendidas em São Paulo. Pode até realizar um trabalho correto, mas deveria se declarar impedido por razões óbvias.

A contradição é inerente à natureza humana. Mas quando ela vem assim, com gosto de soco no estômago, depondo contra a dignidade humana e o direito coletivo, deveria ser acompanhada de massagem grátis.

Mas é no dia a dia que as histórias ganham contornos mais dramáticos porque essas pequenas violências são cometidas, não raro, sem que se perceba. Reuni algumas abaixo:

– Esse sujeito é um cretino, um retardado, um filho de uma puta, deveria ter sido abortado para não falar tanta bosta.

– Concordo. Esses jornalistas são uns idiotas mesmo. E o Marcelinho, como tá?

– Preocupada, viu? A escola dele, que me cobra horrores de mensalidade, está usando livros de literatura com palavrões, acredita? Dizem que o livro é um “clássico da literatura'', mas eu nunca ouvi falar… Que tipo de sociedade estamos criando com isso?

***

– Por isso acho esse pessoal que fuma maconha é um bando de viciado que fica se entupindo de produtos químicos. Acabam com a própria saúde! Só um minuto: Miguel! Ô, Migueeeeel! Traz a garrafa daquele 12 anos que tá no meu nome, ok? Se estiver vazia, pode abrir outra. E aproveita e traz também uma porçãozinha de torresmo.

***

– Esse trânsito está um absurdo. As pessoas não têm consciência de que a cidade não aguenta mais?

– É, um dia tudo vai parar de vez… Vai sair com o carro?

– Só até a academia aqui da rua de trás dar uma malhadinha e já volto. Coisa rápida.

***

– O mundo tá muito violento. Tô preocupado.

– Sim. Viu que alguém ameaçou de morte o governador?

– Mas esse merece morrer.

***

– Professor, o senhor está sendo fascista. Temos que lutar para derrubar preconceitos e unir as classes sociais de forma a garantir uma sociedade em que, não apenas os meios de produção sejam socializados, mas no qual o espaço público pertença a todos e que todos não tenham medo de ocupa-lo.

– OK, conversamos sobre isso depois. A tarefa desta semana é uma reportagem acompanhando um plantão de um hospital público na periferia.

– Ah, mas como é que eu chego lá? O motorista da minha mãe não pode me levar nesse dia. E eu não vou pegar ônibus, né? Não vai dar, não.

***

– Ajuda. Es… es… estrangêrro. Fugi meo país.

– Vai trabalhar, haitiano vagabundo! Querendo se passar por refugiado sírio, é?

***

– Tem gente que fica incitando os mais pobres contra quem trabalhou e tem uma vida mais confortável.

– Sim, são semeadores do ódio!

– Saudades daquele tempo… Olha, fecha rápido o vidro que tá vindo um escurinho. Sei lá o que essa gente é capaz de fazer, né? Não entendo porque a polícia não os recolhe desse semáforo.

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