segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Não basta ser solidário, tem que haver empatia

feicibuqui da Barbara Lito

Foto de Barbara Lito.

a produção social da indiferença pela banalização do mal - ou a disseminação da impotência - notas sobre @ burocrata que existe dentro de mim e de você ---------------

São quatro horas a mais de diferença. Chegamos tem poucos dias. As malas ainda estão cheias. Vamos dormir muito tarde e acordamos tarde também. Hoje não deu pra ir acertar os papéis do visto. Amanhã tentamos novamente.

(...)

ainda sonolentos, esperamos, numa interminável fila, senha na mão. gente de Angola, Goa, Macau, Brasil. tudo gente. esperamos todos. apita o sinal no quadro das senhas… mecanicamente conferimos. Supostamente muitos falamos a mesma língua mas só as crianças interagem e brincam. elas não obedecem as fronteiras. algumas se impacientam, choram irritadas… eu também não queria estar ali. Mas apenas a infância inconformada se rebela com o corpo, no entendimento empático, no lúdico ou no grito.

(...)

Bom dia senhora! (a prepotente simpatia ensolarada brasileira!)

“Qual o motivo da prioridade?” (esse foi o seu ‘bom dia’, seu ‘como vai?’, seu ‘bem-vinda’)

Bem... meu filho tem menos de dois anos…

“Ele não precisava ter vindo” (olhando sempre para os papéis).

Estamos em época de férias. Ela sabe. Chegamos recentemente. Sabe também. Mas no decorrer da conversa insiste que a presença da criança é desnecessária, insinuando uma suposta ‘esperteza’ nossa. Meu filho quer correr, quer subir nas cadeiras, quer explorar. não podemos. temos que nos controlar.

Eu também quero sair da frente daquela mulher que nem me olha. Para ela eu não tenho rosto, nem meu lindo filho, nem meu companheiro.

Os corpos múltiplos que se revesam do outro lado da mesa são todos os mesmos para ela. Somos todos a mesma serpente de mil cabeças multicoloridas, que todos os dias ela corta, mas que insistem em crescer novamente, e no outro dia, e no dia seguinte, infinitamente… Muitos de nós têm a cidadania, descendentes dos seus conterrâneos que emigraram e fizeram vida e família em outras paragens. por séculos e séculos. Ela sabe que de algum modo somos parentes. Mas não importa.

Ela vai para casa no fim do dia com a sensação de dever cumprido. E talvez sofra de gastrite ou de insônia.

e nós, assim como muitos outros, não conseguimos os papéis. precisamos sempre de algo que não temos e que talvez nunca conseguiremos ter.

(...)

A burocracia opera através da mecanização, da segmentação e da perda da capacidade de reflexão. Pensar, sobretudo o pensamento acerca dos mais vulneráveis, tem deixado de ser uma obrigação moral da sociedade.

A burocracia também atua pela eliminação da emoções, sobretudo as intersubjetivas. Ela elimina a capacidade de empatia genuína.

Empatia s.f. Ação de se colocar no lugar de outra pessoa, buscando agir ou pensar da forma como ela pensaria ou agiria nas mesmas circunstâncias. Aptidão para se identificar com o outro, sentindo o que ele sente, desejando o que ele deseja, aprendendo da maneira como ele aprende etc. Sinônimos: afeição, afeto, afinidade, fraternidade, identidade, igualdade, inclinação, irmandade, simpatia, união, unidade, vinculação, vínculo. Antônimos: abominação, antipatia, aversão, desamor, desgosto, desprezo, estranhamento, execração, rechaço, rejeição, repelência, repugnância, repulsão, repúdio

Em toda a ação e interação humana a empatia encontra-se potencialmente latente. O contato entre os corpos, o face a face, contém sempre uma semente de interação subjetiva, de conexão empática, de emoção. Os encontros intersubjetivos deixam as pessoas numa situação de chamado constante para colocar-se no lugar do outro. Esse ato de ‘se colocar no lugar no outro’ pressupõe o movimento e a ação, mesmo que internalizados.

Por isso a intersubjetividade empática é um elemento político importantíssimo.

Também por isso a violência/quebra nas práticas intersubjetivas diminui a potência de ação política individual, aquela desvinculada de práticas e ações predeterminadas socialmente pelo status quo.
E como funciona essa quebra?

É característica da humanidade a multiplicidade, a diversidade de formas de estar no mundo, a simultaneidade de tipos de identidade e pensamento, que são sempre móveis e contextuais, inclusive num mesmo individuo.

Porém essa complexa miríade de estilos do humano é cartografada por uma força de segmentação de espaços. esses espaços normalmente são construídos para serem fixos, únicos e imutáveis. Trata-se de um desenho anti-vida arbitrário, disfarçado por uma suposta naturalidade ou normalidade, uma espécie de “as coisas são, sempre foram e sempre serão assim”
.
Explico: a essencialização, a naturalização e a literalização de experiências sociais determinam que só se pode ter uma cor, um sexo, uma orientação sexual, uma religião, uma nacionalidade, um time de futebol, uma escola de samba, um pensamento, uma coerência.

A essencialização força o sujeito a se definir com linhas duras, quando seu diagrama é, na realidade, poroso , múltiplo e polifônico - assim como as fronteiras geográficas, eu diria.

Nos relacionamos com o outro a partir dessa armadura identitária (que nos enfiaram e/ou que assumimos) e compartilhamos entre os nossos uma espécie de "intimidade cultural", exacerbada durante as interações sociais, reais ou virtuais, onde aproveitamos para intercambiar valores e estilos próprios, aqueles que devem ser seguidos e aceitos pelos demais para fazer parte da nossa panela. A partir do momento que uma pessoa não compartilha de algumas regras e subjetividades pré-estabelecidas, cria-se um muro dicotômico que a segmenta: ela se torna ‘o outro’.

Esse outro vai se desumanizando a medida em que vai sendo categorizado por novos diagramas fixos. Naturalmente reunimos o outro entre os que acreditamos terem identidades culturais afins, sempre a partir de nossos pressupostos. Esse grupo que não é ‘nós’ acaba por se tornar uma massa amorfa: aqueles “que vem tirar nosso emprego”, “que fazem filhos para ganhar bolsa família”, “os protegidos pelos direitos humanos”, “que precisamos salvar - pela fé, pela cultura ou pelo esporte”, “os que não sabem votar”...

Dessa maneira, a imposição de uma identidade única e fechada (e por isso falsa e esquizofrênica) cristaliza e dá suporte a todo o tipo de segmentação do humano.

É uma das responsáveis também por alimentar o ódio, a discriminação, a subjugação, os massacres, todos cometidos em defesa dos “que estão com deus”, “os de família”, “os cidadãos de bem”, “ os que pagam impostos”, “os que tem direito de ir e vir”, “os da propriedade”, “dos merecedores”, “os iluminados”, “os graduados”, “você sabe com quem está falando?!”.

As justificativas para tais atrocidades, realizadas de humanos para humanos, são inúmeras: “Morreu um inocente, é muito triste, mas podia ser bandido”, “mas eu trato ela como se fosse da família”, “eu não sou racista, tenho amigo negro”, “é preciso ensinar a pescar”, “coitado, é menor, mas comete crimes de adulto”, “é muito ruim perder o emprego, eu também tenho família, eu sei como é”, "Nós apenas seguimos ordens, estamos cumprindo o nosso dever”.

Essas justificativas eliminam de vez toda a capacidade de singularização do humano. E pior, fazem isso sob uma pretensa solidariedade, que nada mas é do que uma espécie de zona de conforto emocional, que atua através do script “No seu lugar eu faria o mesmo (mas eu não estou no seu lugar, eu não sou você graças a deus, sou macho, sou branco, sou civilizado, sou educado, sou trabalhador, sou merecedor, etc etc etc)”.

Essa solidariedade vertical não é empatia, não promove conexão, simpatia. Não une. É desprezo disfarçado e cínico. É se defender, defender os seus, fingindo estar magnanimamente no lugar do outro. É um jeito empobrecedor e superficial de vivenciar as relações humanas individuais e coletivas. Mata a criatividade e a espontaneidade do encontro consigo mesmo e com os demais. É falso altruísmo. Não promove movimento, ação, mudança. Nem mesmo conforta. É um enorme e poderoso gerador de impotências.

“Mas vivemos numa democracia”. Deixei para o final mais uma entre as infinitas justificativas que nos damos todos os dias para tolerar o intolerável, para justificar nossa impotência, para que a nossa indiferença não pegue tão mal, pra que nos perdoemos por tanta apatia… “Vivemos numa democracia” enunciado como conforto emocional não é sinônimo de maior tolerância.

Em nome dessa “igualdade” que só existe no discurso observamos a supressão da diversidade, ou seja, das singularidades que compõe cada um de nós. E suprimidas elas não podem ser acolhidas.

Qual a solução então? Não sei.

Só sinto que podemos aproveitar esse momento em que todas as tribos estão saindo do armário, que os paletós estão ao sol, tirando o mofo, para sairmos da zona de conforto do botão ‘compartilhar’ e exercitarmos a empatia como política de ação/ação política.

E ver no que dá.

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