sábado, 5 de setembro de 2015

Mães de Aylan

feicibuqui da Barbara Lito

Porque EU preciso ver a imagem

“E o maior medo de toda mãe é que aconteça com o seu menino o que aconteceu com aquele menino...”

Estou morando longe de casa. Sou estrangeira. Nesse pouco tempo de 'exílio' eu e minha família sentimos o acolhimento e a repulsão.

Tempos difíceis pra migrar.

Tenho um menino que tem saudades de casa. Eu tenho saudades de casa.
Via rede social a distância se estreita. Estou lá, em casa, e ao mesmo tempo estou aqui, tentando construir uma nova casa sem os meus.

E surge ele, o menino, na praia.

Tento fugir dele. Saio do computador, mas ele não sai da minha memória. A imagem da desolação. Vou ao mercado e converso com uma senhora muito gentil. Dentre o preço da comida e o tempo que está mudando surge a conversa sobre os sírios. "Vem muitos bandidos para cá para roubar" me diz a senhora, que me lembra minha própria avó... Ela tem medo, aqui muitos têm medo dos que chegam...

Volto para casa, coloco a roupa para lavar, faço a comida, entro no computador e lá está ele, o menino... Enquanto falo com um amigo, vejo textos interessantes, compartilho uma receita, surge o menino, deitado, viralizado, a imagem que é um soco no estômago.

Penso que não importa, eu vejo o menino sírio querendo ou fugindo dele...

E decido que preciso ver, preciso olhar, contemplar aquilo que me traz repulsa.

Ele me lembra o meu menino, dormindo.

E o maior medo de toda mãe é que aconteça com o seu menino o que aconteceu com aquele menino...

Então olhei com atenção, e tremi, tentei desviar o olhar... mas levei o exercício adiante.

Muito do que está escancarado naquela imagem está fora dela, fora do quadro... No que me fez imaginar, tantas vezes, como aquele menino chegou ali... de onde ele veio, com quem estaria, quem dos seus sobrou pra chorar por ele... E antes, qual o tamanho do desespero dessas pessoas que arriscam seus meninos, porque se correr o bicho pega e se ficar o bicho come... De repente a massa desordenada e amorfa de fugitivos sírios ganha um rosto ocultado pela areia, ganha a estatura de um menino, e se humaniza de uma maneira aterrorizante, através da imagem da morte. Da morte de um inocente menino.

Volto pros meus afazeres, pro meu menino alheio ao mundo horrível (e lindo) nde ele vai crescer. Volto para o cotidiano, volto a ficar dormente, mas o menino não sai de mim, ele me arranca do automático, ele grita na minha cara o quanto sou privilegiada. Ele me sacode por dentro, pois junto dele estão milhares de meninos e meninas, morrendo ao tentar sobreviver: afogados, de fome, de bala (muitas vezes perdida)... Os meninos do meu país morrendo às pencas, criminalizados, excluídos... todos os meninos são Aylan...

E isso é insuportável!

Esse menino polifônico me desperta acordada. Me desperta com uma surra.

E nesse momento ele está mais vivo do que todos os meus quase mil amigos virtuais.

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