sábado, 15 de agosto de 2015

Um novo feudalismo (servidão moderna)

Via Rebelión

Alberto Fernández Liria 

Tradução do espanhol: Renzo Bassanetti

Para pagar nossa dívida, nossos filhos e nossos netos, pelo fato de serem nossos descendentes, terão que entregar a outros a riqueza que forem capazes de produzir. Assim acontecia com os servos da gleba, que deviam entregar parte de suas colheitas ao senhor feudal por que eles eram filhos de servos e o senhor, filho de senhores. 

Karl Marx assinalou já há muito tempo que desde quando as sociedades produzem mais riqueza do que a imprescindível para a sobrevivência de seus integrantes, ou seja, desde os princípios da História, as formas através das quais uma minoria tem se apropriado desse excedente e as justificativas que têm sido dadas para isso tem variado. A apropriação por parte dos amos do produto do trabalho dos escravos era através da força, e isso se dava de forma ostentosamente visível. Embora a tradição e a religião propusessem razões para justificar o direito dos senhores ao produto do trabalho de seus servos e filhos dos servos pelos pais dos senhores, a força também era patente e garantia o ato da arrecadação.  

O capitalismo clássico supôs a introdução de uma sutileza sem precedentes. Continuava a haver uma minoria que se apoderava da riqueza que não era imprescindível para a sobrevivência da maioria da população. Contudo, a apropriação não se produzia num ato no qual a força fosse visível: ao contrário, em troca de realizar seu trabalho, o trabalhador recebia um salário que lhe permitia subsistir, voltar a trabalhar no dia seguinte e alimentar seus rebentos que pudessem substituí-los quando morressem ou fossem incapazes de continuar trabalhando. O ato através do qual patrão aparentemente enriquecia era a venda de um produto que estava claro que era seu, por que seus eram os meios empregados para produzi-lo, e ele tinha pago pelo esforço necessário para colocá-los em prática. Aí não havia força visível. Isso permitiu tornar crível a idéia de que, diferentemente do que acontecia com os escravos e amos na sociedade escravagista ou com servos e senhores na sociedade feudal, trabalhadores e patrões eram iguais em direitos e que a democracia era possível.  No feudalismo, nascia-se servo ou senhor.  Durante os anos de paraíso capitalista, nascia-se cidadão.   

A ruptura financeira do capitalismo terminou com essa ilusão. Há grupos humanos que acumularam dívidas que são impagáveis, dentre outras coisas por que não há no mundo nem uma pequena fração da riqueza real à qual fazem referência os títulos financeiros com base nos quais a reclamam os credores.  E há, portanto, grupos de seres humanos que nasceram ou vão nascer diferentes de outros, aos quais vão ter que entregar a riqueza oriunda de sua produção por que são filhos de outros pais e que gerarão filhos que se verão na mesma situação por que a dívida não é pagável no lapso de uma vida humana.

Ou teríamos nos tornado loucos?

Alberto Fernández Liria é psiquiatra.

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