sábado, 15 de agosto de 2015

Qual a esquerda possível?

Via feicibuqui Alexandre De Oliveira Périgo

O discurso do senador Randolfe Rodrigues do PSOL tecendo rasgados elogios à TV Globo foi muito mais que uma mera declaração subserviente e vergonhosa de um sujeito que se diz "socialista".

Todavia sua fala não deve causar surpresa nem decepção à medida que escancara a atual crise ideológica da esquerda no Brasil - e no mundo; uma esquerda que permanece há décadas ancorada em somente duas linhas de ação, tão excludentes quanto motivadoras do "racha" histórico que a permeia: ou rende-se ao poder do capital quando chega ao poder - a chamada "esquerda moderada" ou "democrática" - ou promove um utópico discurso revolucionário sem nenhum senso de pragmatismo e que mais parece sonho adolescente - a denominada "esquerda revolucionária".

As limitações sistêmicas da “esquerda moderada" acometem todos os partidos ditos "democráticos" e que na verdade apropriam-se deste termo apenas enquanto eufemismo para "lenientes com a burguesia e com o sistema de concentração de capital"; seus maiores representantes são o PT e o PSOL.

O PT antes mesmo de vencer sua primeira eleição para o governo federal emitiu a malfadada "carta ao povo brasileiro", cujo conteúdo pode ser resumido como: "elite, acalme-se, não vamos tocar no seu dinheiro, pedimos apenas licença para distribuir um pouco a renda através da geração de empregos e de alguns programas sociais que custarão migalhas do PIB, e garantimos que vocês ganharão muito com isso tudo"; e a partir de então cumpriu sua cartilha desenvolvimentista à risca, com uma política que - pese-se as enormes conquistas sociais inéditas no país - sempre foi subserviente ao capital e danosa ao meio ambiente.

Hoje esse modelo, como já era previsível, vai se esgotando e é ponta de lança para a atual crise política, com direito à festa da direita que nada de braçadas na onda antipetista.
Mas o PT, justiça seja feita, é apenas parte da "esquerda moderada"; o PSOL também mostrou a que veio com um discurso dito revolucionário mas que culmina com Randolfe lambendo as botas dos diretores da Globo no senado ou aliando-se à direita para combater o PT.

Há mais partidos que seguem a trilha da “esquerda moderada” como o PC do B, mas que nem merecem atenção especial; os exemplos de PT e PSOL são mais que suficientes para validar a ineficiência sistêmica dos modelos adotados a médio prazo.
Por uma questão de justiça conjuntural é importante analisar-se também as limitações pragmáticas da segunda vertente da esquerda: a dita "revolucionária", cujos mais relevantes representantes são o PCB, o PSTU e o PCO.

E para tal vale imaginar uma improvável reunião entre dirigentes desta "esquerda revolucionária" eleita para governar o país com banqueiros e empresários (já que a tomada do poder pela via armada é ainda mais inimaginável que tal encontro):
- "ok, senhores, nós detentores da grana e do poder entendemos seu discurso e nos rendemos a seu apelo popular; vocês desejam o fim do capitalismo e da concentração de renda no Brasil! Por onde começamos?"

E se fará um silêncio sepulcral no Politburo tupiniquim, pois os "revolucionários" vivem apoiados em discursos difusos e chavões subjetivos sem nenhum sentido metodológico, como "chega de trabalhar para o capital já que é o capital que deve trabalhar para todos nós", "não é mais possível viver num mundo onde 1% das pessoas detém 50% do dinheiro", e "o capitalismo é a causa de todos os males da sociedade".

No poder a "esquerda revolucionária" duraria semanas, deixando de legado uma brevíssima insurgência militar que levaria novamente os truculentos milicos ao governo; e por falar em direita vale também apontar que na oposição a “esquerda revolucionária” não raramente se alia a esta para combater a “esquerda democrática”, o que só aumenta a já mencionada cisão histórica.

Assim desenha-se o dilema ideológico e pragmático de toda a esquerda no século XXI: rende-se ao capitalismo quando chega ao poder ou vive de subjetividades pós-modernas e pseudo-revolucionárias enquanto não possui perspectivas de assumi-lo.

E nesta toada assiste-se o esfacelamento de dentro para fora dos governos ditos populares da "esquerda moderada" pelo esgotamento da eficácia das políticas desenvolvimentistas que mal resvalam nas posses da burguesia e o respectivo refestelamento da direita, sob os olhares tão indignados quanto perdidos da "esquerda revolucionária".

Pois até que alternativas viáveis sejam criadas haverá iniciativas isoladas mas nunca governos de esquerda verdadeiros e efetivos.

Tempos negros estes para todos nós da esquerda, meus amigos.

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