segunda-feira, 3 de agosto de 2015

O Holocausto Manicomial 2: Trechos da história velada do Juquery

Via Justifcando

Thayara Castelo Branco

Considerado um dos maiores hospícios do Brasil, o Asylo de Alienados do Juquery - projetado por Ramos Azevedo e fundado por Franco da Rocha em 1898 em São Paulo -, abriga mais de um século de história (velada) de mortes, torturas e maus tratos.

Na inauguração o hospital tinha 80 pacientes, muitos "sem diagnóstico algum de doença mental”[1], representantes de um setor improdutivo e inútil da sociedade:

Não havia um diagnóstico preciso dos problemas mentais. Conviviam no mesmo ambiente, esquizofrênicos, alcoólatras, pessoas com síndrome de down, usuários de drogas ilícitas... a lista vai longe! Até presos políticos foram parar lá dentro e morreram sem que ninguém soubesse onde foram enterrados. No início do século 20, imigrantes japoneses chegavam ao porto de Santos e só porque tinham os olhos puxados eram considerados diferentes e acabavam internados no Juquery. A política da época era limpar as ruas e eliminar aquilo que parecesse diferente e não se enquadrasse nos padrões de normalidade da sociedade[2].

No seio da medicina social constituiu-se a psiquiatria brasileira no final do século XIX, convencionalmente definida como uma especialidade que se ocupava do diagnóstico e do tratamento das doenças mentais, mas que no início do séc. XX estruturou-se na biologização dos comportamentos e na prevenção eugênica. O Juquery atendia exatamente a essa política de sanitarismo, higienismo, controle social e segurança, lógica esta de neutralização dos “inúteis-inferiores” para que não se reproduzissem e não atrapalhassem o avanço das raças “superiores”.

Em 1922, foi inaugurado um pavilhão de menores, chegando ao número de 3.520 crianças em 1957. Entre 1957 e 1958, o número de pacientes passou de 7.099 para 11.009; e, neste último ano, atingiu a marca de 14.000 internados. Em 1981, o complexo contava com 4.200 pacientes entre o Juquery e o Manicômio Judiciário, instalados na mesma área[3].

Sobre as “terapias” utilizadas no hospital,

Além da Malarioterapia, outras terapias foram aplicadas, como as injeções de substâncias químicas como o Protinjetól, o Sulfurpiretógeno, o “Dmelcos”, injeções de leite, cálcio, etc. Foi a terapia biológica mais utilizada no Juquery, mas foi perdendo força com o uso das demais terapias biológicas e finalmente com o advento dos psicofármacos e dos Antibióticos. (...)No final da década de 30, o choque cardiazólico foi introduzido. Este inaugurou as “terapias convulsivantes” que pretendiam curar casos de Esquizofrenia e de diversas psicoses. Inicialmente essa forma terapêutica era ministrada através de injeções de Cânfora e, por provocar uma crise convulsiva mais forte, foi substituída pela injeção de Cardiazol[4].

Nas festividades (?) dos cem anos do hospital (final dos anos 90), o perfil dos internos do Juquery não era muito diferente do da inauguração:

Dos 1.670 pacientes, apenas 25% eram “doentes mentais”. Internados há muitas décadas os pacientes eram ociosos, deslocando-se apenas para comer, dormir e, esporadicamente, tomar banho de sol. As queixas de má alimentação e falta de higiene ainda eram constantes. Estes cem anos ferem, envergonham e criam dívida com a história da humanidade. Eles têm a marca e a identidade do sofrimento humano.”[5]

Ressaltamos que no início dos anos 2000 (antes da promulgação da Lei Antimanicomial), o Brasil detinha o título de país com o maior parque manicomial do mundo[6], com quase 100 mil pacientes confinados. Nesse período, o Juquery somava um histórico de 120 mil pacientes e só num período de 10 anos – entre as décadas de 70 e 80 - chegou a abrigar entre 16 e 20 mil pacientes.

Enquanto o Brasil “comemorava” os 100 anos (de torturas e mortes) do funcionamento do Juquery, a Declaração Universal dos Direitos Humanos fazia 50 anos. No ato em que se festejava que “todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos”; que “todo indivíduo tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal”; e que “ninguém será submetido a tortura nem a penas ou tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes”, contraditoriamente, muitos aplaudiam a perpetuação do genocídio e desejavam, certamente, votos de muitos anos de vigência da barbárie manicomial.

Em 2005, houve um incêndio que atingiu o setor administrativo do hospital, a biblioteca, e destruiu praticamente todos os registros de internação. Afirmam ex-funcionários que nesses livros constavam uma média de 33.977 óbitos. No meio destes, estavam dois mil menores, dentre eles: adolescentes, crianças e natimortos[7]. O incêndio impediu uma série de investigações e comprovações documentais do genocídio que ali ocorreu.

Atualmente, o hospital vive um processo de desativação que já dura uma década. Vários já foram transferidos para residenciais terapêuticos e instituições no interior com melhores condições de acolhimento, mas ainda não há uma política eficiente que atenda as diretrizes da Reforma Antimanicomial (Lei 10.216/01). Os que continuam lá internados são pessoas cronificadas que estão “há mais de 30 anos e não possuem condições para reinserção social, devido à ausência dos familiares"[8].

No mundo dos cadáveres adiados, o que se pode depreender é que “a ‘morte’ de cada ‘malvivente’ surte efeitos farmacêuticos sobre os bem-viventes”[9]. E é importante que se diga o óbvio: o Estado diariamente psiquiatriza o perigo público, enjaula e joga a chave fora.

Thayara Castelo Branco é Advogada. Mestre e Doutoranda em Ciências Criminais pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), com área de pesquisa em Violência, crime e Segurança Pública.

Fotos por: Claudio Edinger

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