sábado, 29 de agosto de 2015

Guerra suja contra os povos do milho

Via Rebelión

Silvia Ribeiro

Tradução do espanhol: Renzo Bassanetti

La Jornada

No dia 19 de agosto de 2015, o juiz Francisco Peñaloza Heras, do 12º Juzgado de Distrito en Materia Civil, cancelou a medida de precaução que há dois anos mantinha suspensa a semeadura de milho transgênico no México, em resposta a uma demanda coletiva pelos danos que esses grãos causam à biodiversidade e à saúde. Contudo, a suspensão continua vigente, já que sua decisão foi alvo de imediata apelação por parte de Colectivas AC, representantes legais da coletividade de 53 cidadãos e 20 organizações que apresentaram a demanda em 2013.   

A forma através da qual o juiz Peñaloza tomou a decisão, ignorando todos os argumentos dos demandantes e cientistas independentes, mas baseando-se nas afirmações da Monsanto e de outras empresas, é outro escalão na guerra suja contra o milho nativo campesino e os povos do milho.

Em sincronia com sua decisão, as multinacionais dos transgênicos desataram um aluvião de comentários à imprensa, assegurando que a semeadura estava liberada. Como denunciou René Sánchez Galindo, advogado da coletividade demandante, “a Monsanto iniciou uma nova campanha de mentiras, já que é falso que a semeadura de milho transgênico estivesse liberada”.

As mentiras da empresa de transgênicos não se limitam somente aos aspectos legais da demanda. Dedicam muito tempo e recursos em falsificar dados para ocultar o que realmente está acontecendo com os transgênicos em países onde sua semeadura é massiva, como os Estados Unidos, país sede da empresa.

A realidade, baseada em estatísticas oficiais desse país durante quase duas décadas (e não em estudos pontuais financiados pelas empresas que utilizam dados parciais) mostra que os transgênicos são mais caros do que os híbridos que já existiam, que em média seu rendimento é menor e que eles tem provocado um aumento exponencial no uso de agrotóxicos, com efeitos devastadores aos solos, e na água, e surgimento de mais de 20 super ervas-daninhas resistentes ao glifosato. A indústria afirma que o milho manipulado com a toxina Bt diminui o uso de agrotóxicos, mas omite explicar que as pragas estão tornando-se resistentes ao Bt, e logo após uma diminuição inicial, o uso de agrotóxicos tem aumentado a cada ano. Por isso, as empresas estão abandonando a venda de sementes de milho Bt, para vender milho transgênico com tolerâncias ampliadas, ou seja, junto ao Bt,  tolerante a um ou mais herbicidas de alta toxicidade, como glifosato, glufosinato, dicamba e até o 2,4-d, com o que o aumento do uso de agrotóxicos se multiplica vertiginosamente.

As empresas asseguram também que possível a coexistência do milho transgênico com o milho campesino. Existem inúmeros estudos científicos e estatísticas em muitos países que demonstram o contrário: onde há cultivos transgênicos, sempre haverá contaminação, seja através do pólen levado pelo vento e insetos (a distâncias muito maiores do que as previstas pelas leis) ou pelo contato em transportes, armazenamento e pontos de venda, onde não há segregação de transgênicos e outras sementes. Muitos estudos no México, incluídos o da própria Semarnat (Secretaria do Meio Ambiente e Recursos Naturais – N. do T.), mostram centenas de casos de contaminação transgênica de milho campesino, embora a semeadora transgênica seja ilegal. Legalizar essa semeadura aumentaria brutalmente essa contaminação, que ameaça diretamente a biodiversidade e o patrimônio genético agrícola mais importante do México, legado por milhões de camponeses e indígenas que o criaram o  continuam mantendo.   

Nos Estados Unidos, a contaminação genética é onipresente. A Monsanto fez disso um negócio: processa as vítimas de contaminação transgênica pelo uso de seus genes patenteados, o que lhe tem rendido centenas de milhões de dólares em juízos ou acordos extrajudiciais. Recentemente, a empresa declarou que não vai processar os agricultores mexicanos. Seria absurdo acreditar nisso. Com certeza o farão, quando tiverem condições para isso. Já em 2004, a Monsanto publicava em jornais de Chiapas avisos que advertiam que quem usasse ilegalmente seus genes patenteados em importação, semeadura, guarda, comercialização ou exportação poderia ser preso e levar multas altas. Além disso, instigavam as pessoas que soubessem de alguma situação irregular a contatar com a Monsanto para que estas não fossem acusadas de cúmplices. Se isso não foi adiante, é por que ainda não havia amparo legal para isso, tema que agora pressionam para corrigir.  

As multinacionais mentem quando afirmam que os transgênicos são inócuos à saúde. De saída, os cultivos transgênicos têm um nível até 200 vezes mais alto de resíduos de glifosato, herbicida que a OMS declarou cancerígeno em março de 2015. E ainda, quase a cada mês são publicados novos artigos com evidência de danos causados à saúde e ao meio ambiente pelos transgênicos.

Por exemplo, em 14 de julho de 2015, a revista científica  Agricultural Sciences publicou uma pesquisa do doutor Shiva Ayyadurai, que mostra que a soja transgênica acumula formaldeídos, substâncias cancerígenas, juntamente com uma diminuição drástica do glutation, antioxidante essencial para a desintoxicação celular. O estudo analisou 6497 experimentos de 184 instituições científicas em 23 países. A pesquisa coloca em evidência a invalidez do princípio de equivalência substancial que é aplicado para avaliar transgênicos, alegando falsamente que são equivalentes aos convencionais. Existe grande desconhecimento sobre como a transgenia afeta a biologia do milho e que impacto ela tem sobre a biodiversidade e sobre a saúde da população do México, onde o milho é mais consumido do que em qualquer outro país.

A guerra recrudesce, mas também crescem muitas resistências, como a moratória popular para não permitir transgênicos em nossos campos e nossas mesas, e isso não vai terminar.

Silvia Ribeiro é pesquisadora do grupo ETC.

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