sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Democracia.com.br

Via Boitempo

 Izaías Almada


“Domingo é dia, de pescaria, lá vou eu de caniço e samburá. O mar ‘tá cheio, fico na areia, porque na areia dá mais peixe que no mar…”

Sucesso de carnaval da minha infância, a letra acima era uma brincadeira para os foliões – como, aliás, muitas das marchinhas de carnaval do passado – e fazia referência aos “peixões” (gíria da época) que enfeitavam as areias de Copacabana e não só.

Inevitável lembrança para quem, como eu, já viveu cinquenta anos bem vividos da vida política nacional. Desde a campanha do “Petróleo é Nosso!” ao circo parlamentar de Eduardo Cunha e as peripécias inconstitucionais de juízes embriagados pela mídia e uma justiça acovardada, sem saber muito bem como atuar (e olha que é um poder independente), isso quando não compactua com o carnaval dos dias que correm. Ou se deixa impressionar pelas chantagens mediáticas.

Natural que me lembrasse da marchinha com toda essa onda sobre as manifestações do próximo domingo, onde os pescadores de águas turvas estão ansiosos para ver o circo pegar fogo.

Estamos reféns do entendimento mais primário e boçal do que seja a democracia. Uma espécie de vale tudo. Um mundo de aventuras entre cavaleiros, aventureiros, homens honrados, proxenetas, brasileiros dignos, achacadores, políticos democratas, meliantes com siglas partidárias, ateus, fundamentalistas religiosos, alienados, alienantes, neofascistas, esquerdistas arrependidos, bem intencionados, escroques, empresários sérios, malandros rentistas, etc., etc., etc…

O juizinho do Paraná manda prender, a imprensa escracha, os religiosos cantam de mãos para o alto em pleno congresso nacional, atiram-se “bombas caseiras”, deixando os rentistas com a pulga atrás da orelha. Ou, se quiserem inverter a ordem dos fatores: a imprensa escracha, o povo acredita, o juizinho de primeira instância manda prender, a justiça “superior” se esconde e – é quase possível garantir – a corrupção continua exatamente como sempre foi no Brasil, sobretudo entre aqueles que se escondem por trás de suas redações e “foros privilegiados”. E dos que sonegam impostos nos paraísos fiscais.

Empresários se reúnem com o governo, esquerdistas traíras detonam a democracia em nome da democracia, chantagens, acusações, prisões sem provas, prende-se quem já está preso, julga-se e condena-se pelas redes sociais e vamos vivendo o dia a dia das incertezas, das covardias, das hipocrisias.

Lobos em belíssimas peles de cordeiro. Bandidos mandando dentro e fora das prisões. Dentro e fora do governo. O panelaço e o cagaço de mãos dadas.

Confesso que em toda a minha memória da política brasileira, dentro ou fora dos parâmetros democráticos, nunca vivi um momento tão tenso e tão calhorda por parte, inclusive, de muitos que teriam o dever de ajudar na preservação da democracia, mesmo essa chamada representativa e com suas imperfeições.

O grau de hipocrisia e de cinismo chega a níveis insustentáveis, escancarando para o país a luta de classes que, não só se explicita com inegável violência, mas tira muitas máscaras dos carnavalescos mais recentes. Na direita, no centro e na esquerda. Para o bem e para o mal. “Tanto riso, ó, tanta alegria, mais de mil palhaços no salão…”

Toda vez que a humanidade passa por grandes transformações, sejam elas econômicas, políticas e sociais, sobrevém a dúvida, a incerteza, surgem inseguranças, e com isso não estou dizendo nenhuma novidade. Nesse início de milênio já dá para inferir que estamos num desses momentos. A internet e toda tecnologia digital está transformando o mundo numa velocidade que quase torna impossível calcular o que vem por aí.

A simples possibilidade de podermos agredir as pessoas e o mundo à nossa volta pelo teclado e pela tela de computadores, iPads, smartfones, em blogs, sites e redes sociais da moderna comunicação dá uma pálida ideia de um futuro próximo repleto de incertezas.

A difusão de fatos e acontecimentos que se espalham em minutos, segundos, por todo o mundo, muitos deles inventados, criados mesmo para confundir e que fazem parte da contemporânea guerra de ideias, está criando uma paranóia coletiva, no mais das vezes temperadas pelo ódio e pelo medo como duas faces de uma mesma moeda: a intolerância como arma de persuasão e intimidação política.

Já vimos esse filme, mas em salas escuras e românticas de cinemas ou mesmo em televisões de tubo ou fitas VHS. Falta agora ver em edição digital, sentados numa grande e confortável mesa de refeitório com quinze comensais de cada lado e todos com seus tablets e smartfones nas mãos, sem sequer falar com o vizinho ao lado.

No Brasil, a solidariedade transforma-se perigosamente numa mercadoria cujo valor se divide, mais do que nunca, entre a impostura do poder econômico, o interesse seboso dos medíocres e a subserviência aculturada de boa parte da sua classe média. Basta pegar o celular e digitar: www.democracia.com.br.

***

Izaías Almada, mineiro de Belo Horizonte, escritor, dramaturgo e roteirista, é autor de Teatro de Arena (Coleção Pauliceia da Boitempo) e dos romances A metade arrancada de mim, O medo por trás das janelas e Florão da América. Publicou ainda dois livros de contos, Memórias emotivas e O vidente da Rua 46. Como ator, trabalhou no Teatro de Arena entre 1965 e 1968. Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

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