segunda-feira, 20 de julho de 2015

Vicenç Navarro: “Europa como ponto de referência mundial desapareceu”

Via Esquerda.net

“A Europa ponto de referência mundial para aqueles que desejam viver em países democráticos e justos desapareceu”, defende o sociólogo e politólogo espanhol. No seu artigo, Navarro denuncia a enorme manipulação dos media espanhóis e alemães no que respeita à chantagem e ao ultimato a que foi sujeita a Grécia.

 

Vicenç Navarro

“As medidas impostas pelo establishment financeiro europeu (hegemonizado pelo alemão) - e os seus instrumentos políticos (a Troika, o Eurogrupo e o Conselho Europeu) - tentavam humilhar o povo que foi o único que, através do seu governo, se rebelou contra o austericídio forçado por aquele establishment financeiro”, escreve Vincenç Navarro num artigo de opinião publicado no Público espanhol.

“Esta humilhação apresentava-se ao público com satisfação e regozijo por parte dos maiores meios de informação, que atingiam o que alguns humoristas norte-americanos definiram sarcasticamente como um ‘orgasmo mediático’. Nunca tanto ódio se tinha expressado em tais meios com tanto prazer para quem o transmite, e tanta dor para quem o recebe”, acrescenta o sociólogo e politólogo espanhol.

Segundo Navarro, “em toda esta apresentação”, a “causa justa que o governo Syriza defendia” foi esquecida, bem como “alguns elementos chave para entender o ocorrido, incluindo o enorme desequilíbrio de forças em tal conflito, que atingiu níveis bélicos, conflito que era parte do existente entre as elites dirigentes na zona euro (que estão ao serviço do capital financeiro) e as suas classes populares”, um conflito que “Noam Chomsky definiu não como uma luta, senão como uma guerra de classes, que atingiu a sua máxima expressão na Grécia”.

“Os grandes meios de informação ao serviço dos interesses financeiros que os controlam ocultaram a maioria dos factos, ignorando, quando não ocultando, esta guerra de classes”, frisa, avançando que, “de um lado, estavam as instituições mais poderosas da zona euro, desejosas por destruir o Syriza, e assim matar o inimigo (e a expressão não é hiperbólica, pois esta era a sua intenção: destruir o inimigo e o Syriza, expulsando-o do governo)”, e, “do outro, estavam as classes populares da Grécia”.

Perante os “atos ilegais e canalhas (não há outra maneira de o definir), o povo grego realizou um enorme ato de valentia e coragem ao votar maioritariamente [no referendo]” contra “o establishment político-mediático europeu, sabendo o que isso poderia significar”, refere Vicenç Navarro.

O sociólogo e politólogo espanhol lembra que “a resposta das elites dirigentes na zona euro à rejeição das suas propostas foi aumentar ainda mais a sua hostilidade, exigindo medidas que convertiam a Grécia num ‘protectorado’ da Troika, recuperando a fórmula política imperial que tinha deixado de existir desde o período de descolonização que precedeu a II Guerra Mundial”.

No seu artigo, Navarro denuncia ainda “a grande falsidade de apresentar a ajuda aos bancos como um ato de solidariedade para com o povo grego”.

“Com um exercício de grande cinismo, estes Estados que tinham resgatado os bancos com dinheiro público à custa do bem-estar das suas classes populares, apresentavam agora o Syriza como o mau da fita por não querer pagar aos pensionistas europeus o dinheiro que os ditos pensionistas tinham emprestado aos pensionistas gregos (os quais, indicaram todos os meios, gozavam de pensões supostamente exuberantes)”, escreve.

Segundo Vicenç Navarro, “o objectivo desta propaganda era evitar que as classes populares dos países da zona euro se aliassem contra os seus próprios establishments, liderados pelo alemão”.

“É interessante sublinhar que os maiores aliados do governo alemão, na sua mão de ferro, foram os governos espanhol, português e irlandês, pois [como indica Varoufakis na sua entrevista no New Statesman (13.07.15)] odeiam o Syriza e queriam destruí-lo, temerosos de que forças políticas anti-austeridade que existem nos seus países beneficiassem de qualquer melhoria que o Syriza pudesse alcançar”, frisa.

Para Navarro, “o ocorrido nestes dias terá um enorme impacto na Eurozona”.

“A Europa nunca será a mesma a partir de agora. A Europa ponto de referência mundial para aqueles que desejam viver em países democráticos e justos, desapareceu”, defende, sublinhando que “a rejeição a esta Europa neoliberal, antidemocrática e reacionária, ao serviço do capital financeiro, está a estender-se ao longo do seu território, e criou-se uma nova situação que abre toda uma série de oportunidades”.

“Os factos mostraram com uma enorme clareza que o governo alemão da Sra. Merkel domina o Eurogrupo e dita as suas políticas, e fá-lo pensando única e exclusivamente nos seus interesses de classe. E digo de classe porque a classe trabalhadora alemã é uma das suas vítimas (merece destacar-se, por verdadeiro, o apoio valente das esquerdas alemãs, Die Linke, e dos sindicatos alemães às reivindicações antiausteridade gregas)”, refere ainda.

Segundo o sociólogo e politólogo espanhol, “hoje vemos o governo alemão, aliado com os establishments financeiros de cada país, como o centro de um poder que é profundamente antidemocrático e antissocial”.

“Existe uma aliança das elites dirigentes na zona euro, as castas que representam os interesses económicos e financeiros dominantes, que não tem limite na sua hostilidade para com as classes populares e o mundo de trabalho da cada país, incluindo o grego. É, repito, o que Noam Chomsky definiu acertadamente como a guerra de classes”, vinca.

“O que é mais urgente é que as classes populares, através de movimentos sociais e sindicais, e partidos políticos - estabeleçam laços de cooperação e associação para parar as medidas de austeridade, estabelecendo as bases para uma mudança profunda desta Europa reaccionária para outra Europa justa e democrática”, remata Navarro.

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