quarta-feira, 15 de julho de 2015

Pablo Vilaça sobre depressão

feicibuqui do Pablo Vilaça

Pablo Villaça

Praticamente todos os dias recebo mensagens de leitores que, lutando contra a depressão, manifestam uma profunda insegurança com relação à própria capacidade de seguir adiante, expressando também uma frustração óbvia diante da força da doença. Como já escrevi várias vezes sobre minhas próprias experiências como depressivo crônico, creio ser natural que acabe sendo o destinatário de mensagens do tipo - e procuro respondê-las na medida do possível.

Aliás, parte da motivação destas pessoas - desconfio - reside na oportunidade de se abrir sobre o que sentem sem o receio de serem julgadas, já que sabem estar "conversando" com alguém que divide sua ansiedade. Há, infelizmente, um estigma persistente relacionado à depressão. "Por que você não faz um esforço?", "Será que não percebe como tem tudo pra ser feliz?", "Você se entrega demais" - frases assim trazem um julgamento implícito, por mais bem intencionadas que sejam, já que dão a entender que, de certa forma, o depressivo "permite" sê-lo.

Além disso, a depressão, como qualquer doença, reage de maneiras diferentes aos mesmos tratamentos dependendo de cada paciente. Não é incomum que um antidepressivo que funcionou por anos de repente se mostre incapaz de conter uma crise mais forte.

E, no entanto, quando isso acontece, a perversidade da doença envolve levar sua vítima a acreditar que a falha é sua como indivíduo, não de seu metabolismo ou do remédio. E como falar de depressão permanece sendo tabu, cada um de nós sofre calado, frustrado e envergonhado.

É por esta razão que, depois de conversar com uma leitora via inbox esta semana, me senti compelido a compartilhar algo para que, no mínimo, meus companheiros de doença possam ter a certeza de que não estão sozinhos, de que não são "aberrações" ou criaturas fracas.

Não vou citar, claro, o nome da leitora, mas seu desabafo entristecido sobre o fato de lutar há 5 anos contra a depressão me comoveu. Ela parecia acreditar que suas recaídas eram uma falha de caráter que apenas a tornavam um estorvo para seus familiares e amigos.

Pois bem: eu me percebi depressivo pela primeira vez aos 15 anos de idade. Convivo com a doença, portanto, há quase 26 anos - e me medico diariamente há 12.

E em setembro do ano passado, em Porto Alegre, amarrei um cinto em torno do pescoço, prendi a outra extremidade no box do chuveiro de meu quarto do hotel e me preparei para morrer.

Não tive consciência, naquele momento, de que estava prestes a cometer suicídio. Não estava chorando desesperadamente enquanto agia, não havia escrito carta de despedida e nem planejara me matar. Estava na capital gaúcha ministrando um curso e vivia uma crise depressiva que se tornara mais grave em função de várias circunstâncias - entre elas, o fato de ter acabado de anunciar que o Cinema em Cena, que eu criara há quase 17 anos, iria chegar ao fim. O estresse havia provocado um derrame em meu olho direito, o fim do site me entristecia imensamente e a depressão me golpeava há algumas semanas insistentemente.

Sozinho em meu quarto de hotel, após voltar da aula, me entreguei aos velhos pensamentos suicidas e de repente me ocorreu "experimentar" a sensação de morrer.

Apertei o cinto, dobrei as pernas e deixei a gravidade agir. Senti a cabeça inchar de sangue, percebi a pulsação das artérias do pescoço contra o couro do cinto e me dei conta de que se permanecesse assim por mais alguns segundos, desmaiaria. E que isso seria o fim.

E imaginei meus filhos recebendo a notícia de que o papai havia morrido.

Firmei os pés, me ergui e só então, já sentado na cama, chorei de verdade.

A primeira coisa que fiz ao retornar a BH foi procurar a psiquiatra, contar o que havia acontecido e trocar meu medicamento. Aos poucos, melhorei novamente. Sim, os pensamentos suicidas continuam, mas apenas como... pensamentos. Não voltei a cogitar seriamente a hipótese de colocá-los em prática.

Há dias piores e dias melhores. Mas, desde então, não houve muitos dias desesperadores.

Pois a verdade é que a menos que você esteja lidando com uma doença incurável e fatal, o suicídio será - e busco sempre me lembrar disso - uma decisão permanente para um problema temporário. Se eu tivesse hesitado um pouco mais e morrido naquele banheiro de hotel, teria perdido momentos lindos com meus filhos. Teria perdido a reação comovente dos leitores diante do anúncio do fim do Cinema em Cena. Não teria ido à Suécia e a Cannes. Não teria rido tantas vezes com os amigos. Não teria conhecido tantos novos alunos. Não teria escrito sobre a Mulher no Livro de Granito e tantos outros textos. Não teria tanta coisa que apenas imaginar estas quase perdas me deixam agradecido por ter voltado a ficar de pé antes de perder a consciência.

E percebam que esta foi a primeira vez em que cheguei realmente perto de um ato tão extremo - depois de 25 ANOS de depressão.

Esta é a questão, não é mesmo? Um único momento de fraqueza pode ser o bastante para jogar anos e anos de luta no lixo. E é por isto que não só devemos nos manter atentos para os sinais que nossa mente nos envia (a fim de buscarmos ajuda assim que constatamos uma recaída) como também precisamos expressar o que sentimos. Esconder a depressão é como oferecer abrigo a um serial killer na esperança de que este não nos mate - ele pode até se comportar por algum tempo, mas em certo momento aproveitará a vulnerabilidade e a solidão de seu anfitrião para fazer aquilo no qual se especializou.

Portanto... fale sobre como está se sentindo. Compartilhe com as pessoas em quem confia. Ou em fóruns/sites especializados. Discuta com seu psicólogo/psiquiatra/terapeuta. Ou mesmo com um companheiro de depressão via inbox.

E o mais importante: lembre-se sempre de firmar os pés no chão. É o que eu pretendo fazer.

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