quarta-feira, 15 de julho de 2015

A América Latina na nova ordem mundial

Via Rebelión

Raúl Zibechi

Tradução do espanhol: Renzo Bassanetti

La Jornada

Nação ou região que não tenha projeto estratégico e não mantenha o timão com firmeza nas piores tormentas geopolíticas, está destinada a ser arrastada pelos ventos dominantes.  A América Latina está deixando passar a oportunidade de romper com seu papel de subordinação como pátio dos fundos do império precisamente por carecer de ambas as condições: projeto e firmeza política.

A América do Sul, região que está em melhores condições para romper com o molde imposto pelo Estados Unidos, se encontra dividida e os países que poderiam focar-se em novos rumos estão paralisados. Em seu conjunto, eles têm perdido peso na arena internacional e nos principais fóruns. 

O documento Estratégia militar nacional dos Estados Unidos 2015, difundido  recentemente e enfocado na contenção da China e da Rússia, menciona em várias passagens todas as regiões do planeta, mas apenas faz alusões secundárias sobre a América Latina e Caribe. Isso não quer dizer que o Pentágono não tenha  uma política para a região, mas sim que não vislumbra problemas maiores em seu pátio dos fundos, onde somente se preocupa com as organizações criminais transnacionais.

Nestes dias se sucedem duas reuniões em Ufá, nos Urais, sul da Rússia: a cume dos países BRICS e da Organização de Cooperação de Shangai (OCS). Para o jornal chinês Global Times, a dupla reunião – na realidade trata-se de uma convergência de interesses – reflete uma mudança profunda na situação euro-asiática, com capacidade de influir em todo o mundo através de mecanismos potentes como o Banco de Desenvolvimento BRICS, o Cinturão Econômico da Rota da Seda e o Banco Asiático de Investimentos  em Infraestrutura (Global Times, 8 de julho de 2015). Em ambas as cumes, o papel da região latino-americana é também marginal. 

Nem a América Latina está presente na conjuntura internacional, nem os grande poderes globais, tradicionais ou emergentes, a levam em conta como ator global. É certo que a região nunca teve presença global, embora o Brasil anos atrás desempenhou um certo papel em vários cenários  em instituições como os BRICS, mas o destacável é o retrocesso em particular da América do Sul como ator independente. Há sete razões que explicam esse passo atrás.

A primeira e a mais importante é a paralisia do Brasil, fruto da combinação de crise econômica e crise política. A potente ofensiva do setor financeiro, da direita e das classes médias contra o PT e o governo de Dilma Roussef, somada à corrupção na estatal Petrobrás colocou o país na defensiva, e não será fácil que ele possa retomar a iniciativa.

O Brasil era o país que tinha conseguido desenhar uma estratégia nacional e regional, que inclui o desenvolvimento de um complexo industrial-militar autônomo  e uma política externa independente. A prisão de alguns destacados executivos das grandes construtoras, como Marcelo Odebrecht, presidente da empresa-chave na construção de submarinos convencionais e nucleares, põe em perigo toda a estratégia brasileira. O papel que o Brasil teve como líder regional, com fortes investimentos em infraestrutura, tende a ser substituído pela crescente presença da China.

A segunda é a crise da Venezuela, em particular a econômica, seguida da crise de liderança, que a impede de continuar sendo uma referencia na região. As eleições parlamentares de dezembro podem agravar a crise que o país atravessa.

A terceira é o fim do ciclo kirchnerista na Argentina, cuja sucessão pode ser resolvida favoravelmente nas próximas eleições presidenciais em 25 de outubro, mas ainda assim será difícil que recupere a pujança que mostrou até agora, em particular nas relações internacionais.  

A aliança estratégica Brasil-Argentina-Venezuela conforma a massa crítica capaz de conduzir o conjunto da região para uma direção mais independente de Washington, transcendendo a América do Sul com projetos como a Celac (Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos).

Em quarto lugar, está a paralisia do Mercosul, onde a crise brasileira abre gretas nos acordos comerciais com a Argentina e Venezuela. A mudança de ciclo econômico com a baixa dos preços das commodities coloca o Mercosul diante da necessidade de migrar para outro modelo produtivo, o que até agora não está sendo registrado em nenhum dos membros.

Em quinto lugar, a aproximação do Paraguai e do Uruguai das política promovidas por Washington. O primeiro está revivendo uma velha aliança com forte componente militar, enquanto que o segundo quer integrar-se à Aliança do Pacífico. Em ambos os casos se registra uma mudança de rumos negativa em relação ao Mercosul e a integração regional.

A sexta questão se relaciona com as dificuldades que a UNASUR está atravessando, que a impedem de jogar um papel ativo na resolução dos conflitos, assim como no desenvolvimento de alguns processos de integração que jazem paralisados. O Banco do Sul, as obras de infraestrutura e os projetos do Conselho de Defesa Sul-Americano estão estancados ou avançam com demasiada lentidão em relação à aceleração geopolítica que o mundo está vivendo.  

Por último, cabe destacar a falta de debates estratégicos na região, que afeta os institutos especializados, as academias, os partidos de esquerda e progressistas e também os movimentos sociais. As urgências do momento têm relegado os temas de fundo, que incluem desde a inserção de cada país e da região em um mundo que está mudando, até os diversos projetos nacionais. Perdeu-se uma decana, em grande medida pela facilidade em ir a reboque dos altos preços das matérias primas, que atuaram como narcóticos paralisando a vontade de fazer transformações estruturais.  

Os movimentos são parte do problema. Desaparecidos os foros sociais como espaços de encontro e debate, o vazio está sendo preenchido pelo Vaticano. Nada de bom pode resultar da carência de projetos estratégicos.

Um comentário:

  1. * NÓS DO BRASIL OSTENTAMOS AS ESPERANÇAS DE UM FINAL FELIZ DA DEMOCRACIA DO BRASIL DA AMÉRICA LATINA DO SÉCULO XXI/2017, VIVENCIANDO O MAIO ESQUEMA DE CORRUPÇÃO POLÍTICA DESDE O SEU DESCOBRIMENTO NO ANO DE 1.500./#

    ResponderExcluir

Comentários são como afagos no ego de qualquer blogueiro e funcionam como incentivo e, às vezes, como reconhecimento. São, portanto muito bem vindos, desde que resvestidos de civilidade e desnudos de ofensas pessoais.
As críticas, mais do que os afagos, são benvindas.