quarta-feira, 3 de junho de 2015

Os jihadistas a serviço do imperialismo

Via Voltairnet.org

Thierry Meyssan

Tradução do espanhol: Renzo Bassanetti

Os governos ocidentais já nem sequer tratam de esconder o uso de jihadistas. Exemplos? A OTAN derrotou Kadhaffi utilizando a Al-Qaida como força terrestre; Israel retirou os “capacetes azuis” e os substituiu  por homens da Al-Nusra; a coalizão internacional contra o Emirato Islâmico  permitiu que os jihadistas  tomassem Palmira para prejudicar o governo da Síria. É fácil entender os interesses das potências ocidentais, mas resulta menos evidente entender por quê e de que maneira os jihadistas prestam serviços ao Tio Sam em nome do Corão.

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O  xeque Yussuf al-Qaradawi, gurú da Irmandade Muçulmana e predicador estelar do Corão na televisão qatari Al-Jazeera, abençoa os jihadistas que operam na Síria e no Iraque, e afirma muito seriamente que, se Maomé vivesse, hoje seria aliado da OTAN.

Frequentemente nos perguntamos como o Pentágono e a CIA se arrumam para manipular milhões de muçulmanos e conseguir que lutem pelos interesses do Tio Sam. Embora seja certo que alguns dos líderes sejam agentes pagos, também é verdade que a maioria dos jihadistas acreditam que lutam e morrem para ir ao Paraíso.  A resposta é extremamente simples: partindo da retórica da Irmandade Muçulmana, é possível uma pessoa afastar-se da realidade humana e ser enviada a matar qualquer um, como quando se agita um pano vermelho diante de um touro.

Oficialmente, o Emirato Islâmico  separou-se da Al-Qaida e não reconhece a autoridade de  Ayman Al-Zawahiri. Contudo, em muitos lugares, como na região síria  de Qalamun, é impossível diferenciar os seguidores do Emirato Islâmico dos da Al-Qaida: os mesmos jihadistas utilizam simultaneamente as duas etiquetas. 

Certamente, sempre haverá alguém que responda que tudo não passa de uma diferença de ordem pessoal surgida simplesmente porque Abu Bakr Al-Baghdadi quer ser chefe no lugar do chefe. Mas o fato é que o Emirato Islâmico e a Al-Qaida, embora utilizem retóricas muito diferentes, recorrem exatamente às mesmas práticas. 

As organizações tem em comum as consignas da Irmandade Muçulmana: “Nossa Constituição é o Alcorão”, “A Solução é o Islam”. A vida piedosa, assim, torna-se extremamente simples. Não importa que o Criador nos tenha feito inteligentes; invariavelmente, e sem importar-se com as circunstâncias, é prciso aplicar a palavra divina como se fôssemos máquinas. E se a situação enfrentada não consta no Livro... a solução é destruir tudo. Obviamente, os resultados dessa forma de agir são catastróficos, e essas organizações tem sido incapazes de instaurar em qualquer lugar nada que se pareça ao começo da sociedade perfeita que eles dizem desejar.  

A diferença reside na história de ambos os grupos:

  • · Desde 1979 até 1995, ou seja, desde as operações da CIA no Afeganistão até a Conferência Árabe Popular e Islâmica de Khartum, os mercenários de Osama Bin Laden lutavam contra a União Soviética com a ajuda pública dos Estados Unidos.
  • · De 1995 até 2011, ou seja, da Conferência de Khartum até a operação “Tridente de Netuno”, a Al-Qaida expunha uma retórica contra “os judeus e os cruzados”, enquanto continuava lutando contra a Rússia na Iugoslávia e na Chechênia.
  • · Já a partir de 2011-, ou seja, desde a “Primavera Árabe”, a  Al-Qaida tem apoiado a OTAN, na Líbia, e a Israel, na fronteira das colinas de Golan ocupadas.

Contudo, a opinião pública ocidental não seguiu essa evolução. Está convencida do perigo de um mítico expansionismo russo, se obstina em atribuir aos jihadistas os atentados de 11 de setembro, não vê a realidade sobre o que aconteceu na Líbia e na fronteira de Golan ocupada por Israel, e por isso se prende à errônea ideia que apresenta a Al-Qaida como uma organização terrorista anti-imperialista.  Os árabes, enquanto isso, não se baseiam nos fatos, mas sim escolhem – segundo os casos – a realidade ou a propaganda ocidental para assim inventarem uma narração romântica sobre a Al-Qaida.

O Emirato Islâmico, por sua vez, se afasta do Corão e se aproxima dos neoconservadores. Assegura que os principais inimigos  são outros muçulmanos: os xiitas e seus aliados. Prefere esquecer a época da guerra na Bósnia, onde a Legião Árabe de Bin Laden gozava do respaldo  simultâneo dos Estados Unidos, Arábia Saudita e Irã. Mas...quem são os aliados dos xiitas? A República Árabe Síria é Estado Laico) e a Jihad Islâmica Palestina (sunita). Em outras palavras, o Emirato Islãmico luta prioritariamente contra o Eixo da Resistência, que se opõe ao imperialismo.  De fato, o Emirato Islâmico assume seu papel como aliado objetivo dos  Estados Unidos e de Israel no Oriente Médio Ampliado, embora teoricamente diga ser inimigo de ambos.

A maleabilidade de ambas as organizações reside na sua ideologia de base, que é a Irmandade Muçulmana. Por isso, resulta ser lógico o fato de que quase todos os chefes jihadistas em algum momento tenham sido de algum ramo da Irmandade Muçulmana. Por isso, é também totalmente lógico o fato da CIA ter respaldado não somente a Irmandade Muçulmana egípcia, desde quando ela foi recebida  na Casa Branca pelo presidente Eisenhower, em 1955, mas também todas suas ramificações estrangeiras e todos os seus grupos dissidentes. Definitivamente, o califato que sonhava Hassan El-Bana, o mesmo que dizem querer Ayman Al-Zawahiri e Abu Bakr Al-Baghdadi, não procura voltar á Idade de Ouro do Islã, mas sim instaurar o reino do obscurantismo. 

Assim o confirmou o Ministro das Relações Exteriores da França, Laurent Fabius, em 2012, ou seja, antes da cisão entre a Al-Qaida e o Emirato Islâmico, quando declarava “Sobre o campo de batalha, estão fazendo um bom trabalho!”

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