sábado, 6 de junho de 2015

O Conselho Atlântico e a Euro-defesa: duas ONG’s e qualquer coisa mais

Via O Diário.Info

Manuel Luiz Robles*

 

Estamos em vésperas de manobras da NATO. É assim ainda mais oportuno este texto de Manuel Luiz Robles - membro da direcção da organização de militares do Estado espanhol ANEMOI -, comunicação apresentada ao Fórum contra a guerra imperialista e a NATO realizado na Universidade Complutense de Madrid no passado dia 12 de Maio.

Depois das magistrais intervenções que me antecederam vou limitar-me a comentar-vos brevemente duas organizações: o Conselho Atlântico e a Euro-defesa. Terminarei com uma conclusão.

A ambas organizações vão beber os meios de comunicação afins do sistema, e contribuem de modo determinante para ludibriar a escassa lucidez reinante, aplainando o caminho para a guerra global em que estamos metidos.

Mercedes Sosa, com a sua cálida voz latino-americana, recordava-nos numa das suas belas canções que a guerra «é um monstro enorme e pisa com força toda a pobre inocência das pessoas».

Esse monstro enorme é a NATO. Tem o seu vértice hegemónico nos EUA. Constitui o braço criminoso do império, que conta com inumeráveis cumplicidades e propagandistas nos meios de comunicação afins. Uma das suas missões é obter o consentimento das populações dos Estados membros, tornando-as cúmplices das suas guerras genocidas. O objectivo mediático perseguido é o domínio das consciências quebrando a vontade de resistência dos sectores ideologicamente mais opositores da guerra. A sua maior influência exerce-a através de uma organização satélite pouco conhecida do grande público: o Conselho Atlântico, uma organização não-governamental.

Chamo a atenção para a diferença existente entre o Conselho Atlântico e o Conselho do Atlântico Norte. Este último é a mais alta autoridade da NATO, e é constituído por delegações de todos os países membros, com o seu Secretário-geral à cabeça. Ao contrário, o Conselho Atlântico é uma organização não-governamental, formalmente independente que, no entanto, constitui um autêntico departamento de propaganda da NATO. A ela vão os meios de comunicação ocidentais beber as suas notícias, análises e delineamentos estratégicos. Os meios de comunicação de grande alcance internacional e influência têm aí uma das suas principais fontes de informação geoestratégica.

Os Estados Unidos exercem o seu domínio militar através da NATO fidelizando as cúpulas militares, cujos altos comandos são cooptados por essa organização criminosa. Utiliza como aparelho de propaganda o lobby citado, o Conselho Atlântico, ligado e alimentado pelo complexo militar-industrial, que por sua vez promove massivamente as «portas giratórias».

É normal encontrar nos conselhos de administração e em altos postos de direcção da indústria de armamento altos comandos militares e políticos em exercício. E vice-versa, empresários das indústrias de armas em altos cargos governamentais. No nosso país [Espanha], como sabeis, temos conhecidos casos de portas giratórias, dos quais um paradigmático é o actual ministro da Defesa, recentemente condecorado pelo Estado francês com a Ordem da Legião de Honra.

O Conselho Atlântico é um lobby financiado pelos Estados membros da NATO e pelas multinacionais de armamento ligadas aos negócios do império. Esta organização dá cobertura a uma imensa sangria de recursos públicos, retirados de outros capítulos essenciais dos orçamentos de Estado, engrossando deste modo as arcas privadas dos senhores da guerra. Os seus dirigentes são influentes personagens do mundo da finança, do mundo militar e do mundo político, interessados em promover directa ou indirectamente conflitos e tensões militares onde quer que seja, de que obtém avultados lucros.

Depois da Segunda Guerra Mundial, a Europa passou a ser um autêntico protectorado dos Estados Unidos, que exerce o seu domínio económico através do seu poderio militar. A soberania residual dos povos europeus está a ser vampirizada por esta gigantesca maquinaria de morte.

O escritor e jornalista francês Michel Collon autor de um documentado estudo sobre o Conselho Atlântico analisou as regras da propaganda de guerra que são aplicadas pelos Estados e meios de comunicação ligados ao imperialismo.

Sintetizou-as assim:
Regra número 1: Ocultar os interesses. Os nossos governos lutam pelos direitos humanos, a paz ou qualquer outro nobre ideal. Nunca apresentar a guerra como um conflito entre interesses económicos e sociais opostos.

Regra número 2: Demonizar.

Para obter o apoio da opinião pública deve preparar-se cada guerra com uma mentira mediática espectacular. Depois continuar a demonizar o adversário, particularmente através de imagens de atrocidades.

Regra número 3: Nada de História!

Ocultar a história e a geografia da região, para tornar incompreensíveis os conflitos locais incitados por essas mesmas potências.

Regra número 4: Organizar a amnésia.

Evitar a mínima referência séria a manipulações mediáticas precedentes. Isso provocaria demasiada desconfiança entre a população.

A aplicação destas regras por parte dos Estados imperialistas criam uma densa cortina de desinformação bem visível para qualquer pessoa advertida.

O Conselho Atlântico é um lobby cujos directores e assessores são, numa grande proporção, altos cargos oriundos da administração dos Estados Unidos, que mantêm estreitas ligações com o seu governo. As suas fontes de financiamento saem dos Estados membros da NATO e das multinacionais. Este emaranhado complexo militar-industrial recebe enormes benesses dos sectores relacionados com o armamento. Interesses económicos ligados ao desencadear das guerras na Jugoslávia, Afeganistão, Iraque, Líbia, Síria e Iémen são exemplos dramáticos desta loucura genocida. Trata-se de uma guerra global motivada pelo controlo de territórios chave, pelo seu valor geoestratégico ou pelas suas riquezas em matérias-primas, particularmente o petróleo.

Esta ONG não partidária tem membros moderados das duas tendências, esquerda e direita, constituindo um poderosíssimo meio de propaganda e persuasão que junta interesses dos mais altos níveis do poder mediático., político, financeiro e militar. A NATO dispõe assim de um disfarce formalmente independente, o Conselho Atlântico, que promove através da sua densa rede capilar de interesses industriais, financeiros, políticos, mediáticos, científicos e universitários, o moldador das consciências.

Outra organização também formalmente independente do governo, ligada ao grande patronato e ao CESEDEN [N. do T.: sigla da organização espanhola Centro Superior de Estudos da Defesa Nacional] é a Euro-defesa. Constitui, pode dizer-se, uma réplica à escala europeia do mesmo conceito, isto é, a coligação de interesses entre empresários e as altas hierarquias militares no sanguinário negócio das armas.

Por exemplo:
A Euro-defesa tornou pública a sua posição sobre a OTAN em relação à Cimeira de Lisboa. Nela se ratificou o novo «Conceito Estratégico para a defesa e a segurança dos membros da NATO», assinado por todos os Chefes de Estado em 9 de Novembro de 2010.

Em relação à Cimeira divulgou um comunicado cujo título não necessita de explicação: Os interesses de Espanha perante o conceito estratégico da NATO 2010. Uma visão da Euro-defesa.

Entre as pérolas mais apelativas desse documento esta a frase seguinte:
«Se a Espanha quer ter o papel que lhe corresponde deve ajustar as suas contribuições e ampliar os orçamentos dedicados à defesa e à segurança».

Uma conclusão inquietante do dito documento, que aqui fica também textualmente citada é a seguinte:
«Em resumo, o Conceito Estratégico 2010 da NATO oferece uma nova ocasião a Espanha para recolocar decididamente as suas relações com a “nova NATO” e a sua política internacional, se queremos continuar a ser um dos seus membros mais activos». Fim de citação

Entre os altos directores deste clube das armas está um conhecido empresário, presumidamente implicado na débacle da Bankia. Como militar é um general que foi notícia relevante de todos os telediários e meios de difusão há dois anos, devido às suas declarações nada constitucionais.

O diário El País na sua edição de 28 de Fevereiro de 2013 denunciava o referido general por numa conferência sobre Forças Armadas e ordenamento constitucional ter sugerido que estavam que estaria justificada uma intervenção militar para travar a secessão da Catalunha «se os responsáveis pela defesa da Constituição não se comportarem como a sua função exige».

Declarações deste tipo são de manual. Fazem parte de uma estratégia de manipulação mediática cujo objectivo imediato é o de amedrontar a população e interferir nos processos sociais.

Esta poderosa maquinaria de propaganda e persuasão, que é o Conselho Atlântico e os seus mais chegados trabalham de forma moderna e eficaz com vista à criação de um estado de opinião favorável aos interesses económicos e belicistas do complexo militar-industrial.

O império militar EUA prossegue assim a extensão da sua hegemonia cultural e política no seio dos países satelizados, contribuindo para isso de forma decisiva a sua todo-poderosa indústria cinematográfica e televisiva, que constituem um autênticomeio de controlo total de carácter global.

As elites políticas, financeiras, militares e mediáticas do Estado espanhol estão a ser cooptadas e disciplinadas com o objectivo de consolidar este status quo. Isto condena-nos ao inaceitável papel de protectorado semicolonial, obrigados a intervir como cúmplices necessários nas guerras de rapina. Tudo isto não seria possível – digamo-lo claramente – sem o colaboracionismo crescente dessas mesmas elites.

O sentimento patriótico que inspirou o 2 de Maio, dia da independência no imaginário popular, perdeu-se. Estes tubarões mascaram-se de patriotas mas na realidade estão ao serviço do imperialismo, contribuindo assim, para o domínio militar e político do nosso país por uma potência estrangeira.

Por exemplo, uma grande quantidade dos artigos publicados no blog «Proa ao vento», do conspícuo general acima referido que foi notícia relevante nos telediários, próximo da Casa Real, são a prova evidente dos estragos que a propaganda imperialista provoca no pensamento militar e político das mais altas hierarquias do regime. Basta ler os seus artigos: «USA, o grande protector», «O franco-atirador», etc..

É tudo demasiado evidente.

Se alguma réstia de patriotismo existir nesta argamassa [piel de toro] não podemos procurá-la nas salas embandeiradas dos quartéis nem nos luxuosos salões palacianos, mas entre a arraia-miúda. Isto é, entre os povos que compõem o mosaico ibérico. Mosaico a que só uma República federal poderá dar vontade colectiva.

Por tudo o que disse acima concluo que a Coroa e as forças colaboracionistas que a sustentam são os cúmplices necessários de um processo contínuo de corrupção e traição à Pátria inaugurado com a ditadura e consolidado durante a Transição.

Devemos e podemos por um fim a isto tudo.

Nota do tradutor:
[1] Refere-se ao general José António Chiparro que defendeu uma intervenção militar para que o Estado espanhol pusesse termo às pretensões independentistas do povo catalão: «A Pátria é anterior e mais importante que a Democracia. O patriotismo é um sentimento e a Constituição não é mais do que uma lei».

Referências:
Atlantic Council: quand les médias français s’abreuvent directement à l’OTAN, Michel Collon

* Manuel Ruiz Robles é membro de Anemoi, uma palavra grega que significa todos os ventos. Foi o nome escolhido para um colectivo de militares espanhóis que querem «recolher “todos os ventos do povo” e soprá-los para os quartéis. Quartéis, aeródromos, barcos, centros de comando e controlo, bases militares “de utilização mútua”, cuartelillos, esquadras de polícia. E, naturalmente, ouvir os ecos do povo e animar as pessoas empobrecidas e “excluídas” da sociedade a perderem o medo e a lutar pelos seus direitos.» (in http://www.cronicapopular.es/2014/02/antonio-maira-portavoz-del-colectivo-de-militares-anemoi-impulsar-los-vientos-del-pueblo-en-los-cuarteles/)

Este texto foi publicado em: http://redroja.net/index.php/noticias-red-roja/noticias-externas/3475-el-consejo-atlantico-y-eurodefensa-dos-ongs-y-algo-mas

Tradução de José Paulo Gascão

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