quinta-feira, 11 de junho de 2015

Izaías Almada: Qual é a surpresa? Já vimos esse filme em 1954 e 1964

Sanguessugado do Viomundo

 

Bandeira do PT

QUAL É A SURPRESA?

Izaías Almada, especial para o Viomundo

O PT é isso, o PT é aquilo. Vai perder sua base social. Há uma exaustão intelectual. A culpa da “crise” é do PT, e por aí vai a cantilena. Os “analistas políticos” enfiados na “imprensa safada”, na definição do jornalista Ricardo Kotscho, bem como a “velha” e a “nova” esquerda, seja lá o que isso signifique hoje no Brasil vai se divertindo em tentar analisar o futuro do Partido dos Trabalhadores às vésperas de seu encontro em Salvador.

Enquanto parte da esquerda faz o seu exercício de futurismo e os especialistas, acadêmicos ou não, queimam alguns neurônios à procura de alguma explicação sobre o PT, o efeito é um só: o de atirar pedras na Geni.

A isso se soma a inesgotável água da cisterna policialesca do Paraná, água fétida do arbítrio e do desconhecimento do arcabouço jurídico de um país que se quer democrático e que é retirada e espargida diariamente pelos órgãos de informação sobre uma população que, ao que tudo indica, não sabe exatamente em que país está vivendo.

Por trás da grande e planejada confusão desencadeada pela oposição tão logo se conheceu o resultado das urnas em outubro passado, o país mergulhou, com o apoio incondicional da imprensa, de alguns membros do judiciário e de um congresso majoritariamente conservador, numa espécie de vale tudo político.

Assim, sem mais nem menos, da noite para o dia o Brasil da “crise” tornou-se também o guardião daquilo que alguns consideram as grandes virtudes democráticas e, para tanto, criou no Estado do Paraná uma espécie de Inquisição, podendo condenar qualquer um (com inegável pendor a que esse “qualquer um” pertença ao governo ou ao Partido dos Trabalhadores) à fogueira midiática. Qual é a surpresa? Já vimos esse filme em 1954 e 1964.

E todos fingem seriedade. Claro, pois a situação é séria, dirão muitos. Mas qual situação é séria? A da corrupção? Qual corrupção? Essa do circo armado pela oposição e pela mídia em especial contra o PT? O desconforto do próprio Partido dos Trabalhadores e do governo? Ou a corrupção da lista de Furnas? Da CPTM e do Metrô em São Paulo? A da sonegação de impostos via HSBC na Suíça. E olha que existem outros bancos metidos na lavagem de dinheiro, o que só faz ampliar a lista de sonegadores. Lista sonegada ao público provavelmente por alguns dos próprios sonegadores… Qual é a surpresa?

Em primeiro lugar a corrupção brasileira não foi criada em 2002 como querem muitos, em particular o príncipe da privataria, o que – me perdoem o lugar comum, Freud explica. Além do que ela, a corrupção, está presente nos grandes conflitos da história desde sempre: Não se vendiam indulgências para um pecador entrar no céu? E antes disto: Cristo ou Barrabás?

Mas como estamos vivendo na passagem do século XX para o século XXI, o que importa é o resultado dessa atual e encarniçada luta pelo butim capitalista. Porque é disso que se trata. E aqui, meu caro leitor, não tem essa de combate à corrupção, pois ela é a própria razão de ser da sustentação desse regime econômico desde as suas origens.

Vale a pena ler sobre a “organização econômica da sociedade pós feudal”, desde a criação dos agiotas demonizados pela Igreja na Idade Média, a formação dos bancos e os cálculos dos juros bancários, a criação da Bolsa de Valores, as guerras estimuladas pelo grande capital.

Ainda há poucos dias um ex-juiz do STF colocou no twitter (essa pérola da comunicação telegráfica) que um juiz para julgar com independência tem que ganhar ao redor de 100 mil reais por mês. Em outras palavras: sem dinheiro não há justiça que aguente. Disso, todos nós sabemos, senhor juiz: é só visitar as prisões brasileiras e ver quantos ricos estão por lá… Por muito, mas muito menos dizem que Judas traiu Cristo.

Outro juiz (aliás, muitos juízes de direito andam saidinhos ultimamente, adoram falar nos telejornais, revistas e jornais diários), teve a ousadia de dizer que se a pessoa a quem interrogava (um empresário preso sem culpa formada) cooperasse, poderia ter as regalias de uma prisão domiciliar. Cooperasse? Mas cooperasse com o quê? Com aquilo que o ínclito juiz queria que fosse dito? Assim como fazem nos regimes totalitários. Qual é a surpresa?

E de repente, nesse quadro, desnuda-se aquilo que, com elegante hipocrisia vinha sendo encoberto e onde muitos mamavam e continuam mamando: o grande escândalo do futebol mundial, onde se destacam entre outros mandatários alguns cartolas e empresários brasileiros com importantes ramificações pelo Brasil e pelo mundo… Não só no futebol, é bom lembrar. Qual é a surpresa? O jornalista Juca Kfoury trata do assunto há anos e ninguém lhe deu atenção até agora.

E de surpresa em surpresa, onde as mentiras e maledicências são fortes moedas de troca, o brasileiro – particularmente aqueles que acreditam em Papai Noel e batem panelas nas varandas de seus vistosos apartamentos – vão descobrindo que em política o buraco é mais em baixo.

Apesar da “nova esquerda”, a verdade é que o PT ainda incomoda, e muito. Continua a ser o único partido político de centro esquerda no Brasil com estrutura suficiente para enfrentar nacionalmente o velho e o novo fascismo. Com um projeto de nação que inclui a todos os brasileiros, com um conceito de nacionalismo não excludente, pacifista e integrador, sobretudo com a América Latina e a África.

Agora, se existem novos candidatos a Guevaras, Chávez e Mandela aqui nessas terras brasileiras, eles que se apresentem, pois de críticas e autocríticas feitas em artigos e comentários pela internet, como eu mesmo faço, já estamos todos ficando cansados, não?

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