terça-feira, 2 de junho de 2015

Bora fazer um referendo sobre a doação de empresas a partidos políticos?

Sanguessugado do Sakamoto

Leonardo Sakamoto 

- Você é favor do aborto?

Muita gente acha que essa é uma pergunta imparcial. Mas me diga: quem na face da Terra, com exceção de alguns lunáticos, é a favor do aborto? Alguém curte abortar da mesma forma como curtiria um milkshake de Ovomaltine do Bob’s?

– Putz, me deu vontade de abortar. Acho que vou fazer um para por emoção nessa minha vida sem graça. E, logo depois, pego um cineminha.

Não, ninguém gosta de abortar, o que é traumático para a mulher, física e psicologicamente. É o último recurso, não o primeiro, muito menos um método contraceptivo como querem apregoar alguns. E, apesar de proibido para além dos casos de estupro, risco de vida para a mãe e anencefalia, ele ocorre a todo o momento. O que importa para a sociedade é que aconteça por baixo do pano.

Quando um político deseja atacar direitos no Brasil adora levar o tema a escrutínio popular. Uma das bases de uma democracia é que a maioria não pode oprimir uma minoria. Mas a maioria da população, que tende a ser conservadora em questões comportamentais, tende a esmagar qualquer tentativa de amplia/manter direitos às minorias ou a grupos vulneráveis (desculpe, não enquadro o feto nesse grupo, mas a grávida sim). Como no direito ao aborto.

Ou tentará optar pela saída mais fácil em detrimento daquela que, apesar de complexa, poderá produzir frutos a longo prazo. Como no caso da redução da maioridade penal em detrimento a mudanças estruturais nas políticas para a juventude.

O presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha (mais uma, vai contando…) quer um referendo sobre a redução para 16 anos. Afinal, até uma ostra saudável sabe que o povo, cansado de violência e querendo uma solução urgente, aprovaria qualquer promessa de solução em um piscar de olhos. Ainda mais uma com um quê de vingança. Mesmo que, na prática, não resolvesse coisa alguma.

Para mim, uma das questões centrais de um plebiscito ou referendo é a maneira como se formula a pergunta.

Qual seria a resposta das perguntas abaixo:

– Você é a favor do aborto?

– Sua filha engravidou, mas você descobre isso apenas depois que ela foi presa por fazer um aborto clandestino em uma clínica ilegal – uma vez que o hospital público não quis nem conversar a respeito e vocês não têm dinheiro para pagar uma clínica particular. Você é a favor que ela vá para o xilindró por conta disso?

A palavra mágica, meu povo, é empatia. A capacidade de se identificar com o outro. Coisa que falta por aqui e que não fazemos questão de fomentar.

Se for adiante a questão sobre a maioridade penal, gostaria de pedir a Eduardo Cunha também levar a referendo a seguinte pergunta:

– Você é favor de proibir doações de empresas para candidatos e partidos políticos?

Seria uma rara oportunidade de, em pleno cerrado do Planalto Central, ver a onça bebendo água.

“Japonês canalha! Por que não faz uma questão sobre a maioridade penal? Vai fugir do assunto?” Ah, eu estava esperando você perguntar isso, meu pequeno Padawan.

Para isso, trago um dos blocos da sétima edição do Havana Connection, em que discutimos o tema com base no caso do triste assassinato do ciclista no Rio de Janeiro. Com mediação do jornalista, Leonardo Sakamoto, o Havana Connection conta com a participacão do coordenador do MTST, Guilherme Boulos, do deputado federal Jean Wyllys e da jornalista Laura Capriglione.

Para ver a Íntegra do Havana Connection 7, clique aqui: Presidente da República Joaquim Levy, tire dos ricos, não dos pobres!

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