sábado, 20 de junho de 2015

Acordo nuclear Irã x EEUU: até que passem as eleições

Sanguessugado do Informação Incorrecta

Nesta altura, o que fará o chefe do Império oceânico? Os seus colegas de partido não querem perder a próxima eleição presidencial. Deverá esticar as negociações até a hora da eleição para conquistá-las; ou a assinar um acordo e, em seguida, não respeitá-lo. Por exemplo, um compromisso para levantar as sanções e, a seguir, não respeita-lo.

Nuclear: o 5+1 de Irão e EUA

Max

No próximo 30 de Junho deverá ser assinado um acordo histórico entre os Estados Unidos e o Irão, acordo conhecido também como "5+1".
Assunto: o nuclear.
A possível conclusão positiva das negociações já despoletou a ira de israel, que vê em Teherão a origem de todos os males, mas os EUA insistem na via diplomática e até no Irão a notícia dum acordo com consequente fim das sanções económicas foi abundantemente festejada.
Todavia nem todos encontram razões para sorrir.
O Dr. Davood Abbasi é o antigo director da IRIB Italia, a rádio nacional iraniana. Agora voltou para Teherão mas cada vez que pensa no acordo não acha graça nenhuma.
Vamos ver quais as razões.

Irão: a historia em 5 parágrafos

A uma distância de cerca de 10.000 quilómetros de Washington era uma vez uma Nação que tinha pelo menos 3.000 anos de história por trás, mas que depois, no século XIX, tinha caído em desgraça. De facto, após a conquista da Índia por parte de Nadir Sha Afshar (24 de Fevereiro de 1739, Batalha de Karnal), aquela terra milenária não tinha tido um rei digno desse nome e tinha entrado num lento declínio lento. Os primos dos Americanos, os Britânicos, tinham de facto conquistado a terra em 1925, conseguindo fazer ascender ao trono um bárbaro e violento cabo dos cossacos, tal Reza Khan. Os americanos começaram a interessar-se mesmo naqueles anos e assumir o controle da terra em 1953 quando, num dos golpes mais bem sucedidos na história da CIA, trouxeram ao poder o filho de Reza Khan, Mohammad Reza Pahlavi.

Reza Pahlavi

Em 1979 a terra milenária acordou. E que despertar: os norte-americanos foram expulsos e receberam a maior humilhação da sua história, os seus espiões ficaram presos na capital do País ao longo de 444 dias; a Embaixada é agora um museu que as crianças do ensino básico visitam para entender como "aquelas pessoas" interceptavam os telefonemas no País com as ferramentas de ponta dos anos '80.

O despertar da terra milenária foi assustador para Washington: aquelas pessoas a 10.000 quilômetros de distância diziam , com a voz do seu idoso líder, que queriam ser independentes. não era o governo comunista do costume; estes faziam à sério: queriam ser "nem Oriente, nem Ocidente". Além disso, queriam também apoiar os "oprimidos" em todo o mundo e dizer "não" ao colonialismo e à arrogância "das Potências". A constituição da Nação proibiu as relações com a África do Sul por causa do apartheid e com Israel por causa da opressão contra os palestinianos. A mensagem da Nação, embora tivesse surgido num contexto cultural particular, teve um impacto global e certamente não era possível ignora-lo.

Nesta altura, também os rivais dos Americanos, os Soviéticos, estavam muito preocupados e foi assim que acreditaram ter encontrado a solução: o Sr. Saddam Hussein. Os americanos garantiam as fotos satelitares, o apoio logístico e o financiamento; o mundo árabe, que foi tão estúpido a ponto de não entender que aquela era uma libertação e não uma ameaça, fez a sua parte: a Arábia Saudita pagou um bom dinheiro; a Rússia deu os Mig, a Alemanha as armas químicas, a Inglaterra deu armas ligeiras, a Itália também vendeu armas [aos dois lados, ndt].

Saddam nos primeiros meses da guerra ganhou uma grande porção de terra; mas esqueceu que o nome da sua capital, Bagdade, era a língua do povo da outra Nação [Baghdad deriva de Bagh (Deus) e Dad (doada): no antigo idioma persa significa "Doada por Deus", ndt]; não entendia que estava atacando a sua própria história, o seu passado, o sangue do sangue do seu povo [os Iraquianos, tanto no Sul (Xiitas) como no Norte (Curdos) estão relacionados com os Iranianos, ndt]. A história não esperou; a Nação sacrificou 1 milhão de vidas mas acabou por expulsar Saddam também (1988), que anos mais tarde iria ser varrido para sempre pelos seus antigos aliados.

O Irão e os EUA

O Āyatollāh Khomeynī

A Nação tem um nome, e significa "terra da nobreza, dos puros". E continua a crescer.
Reconstrui as suas cidades destruídas pela guerra, as suas forças armadas são capazes de proteger o País e as suas fronteiras, a sua diplomacia é brilhante o suficiente para estar presente em todos os cenários regionais importantes.

A ideia de libertar os povos oprimidos faz nascer no Líbano o movimento Hezbollah em 2000 e em 2006 pode alcançar uma conquista histórica com uma derrota sem precedentes de Israel e a libertação dos territórios libaneses ocupados. Os diplomatas da Nação roçam uma conquista histórica e ficam muito perto de solucionar o conflito entre a Arménia e o Azerbaijão, mas uma pronta intervenção dos Americanos anula tudo.

A Nação se desenvolve e torna-se o nono País no mundo a enviar um satélite para o espaço, em 2009; tem uma indústria capaz de produzir tudo, desde os medicamentos até os navios de guerra; tem uma produção agrícola respeitável com produtos típicos como amendoins, açafrão e romã; uma força que se reflecte em tudo, no futebol que chega aos Mundiais, no cinema que ganha Oscar, na arte com os tapetes, na cozinha mais refinada com o caviar. Há um mundo dentro desta parte do mundo.

A Nação é atingida com sanções, propaganda dos media, acções hostis, golpes, mas cada vez é um fracasso. Durante a era de Bush filho, o Pentágono desenvolve pelo menos 18 planos para ataques contra o País, mas cada vez que concluem que o ataque seria um fracasso. Depois de Bush, que mesmo a sátira do seu País representou com QI próximo dum chimpanzé, o Salão Oval hospeda um sujeito muito mais genial, um tipo quieto que é tão perigoso quanto uma cobra, mas que se veste muito bem, ao ponto de enganar até o comitê do Nobel.

Desencadeia guerras em todos os lados, até mais do que Bush, subtilmente mantém um baixo perfil e deixa o trabalho sujo para outros grupos ou Países (os aliados europeus na Líbia, o ISIS na Síria e no Iraque, a Arábia Saudita no Iemen) ou, no caso da Somália e do Afeganistão, prefere utilizar os seu assassino robóticos: os drones. Muitas vezes ele mesmo escolhe os alvo para abater.

Para os habitantes da Nação da qual temos contado a história, o homem calmamente arquitecta as sanções mais traiçoeiras da história: não podem efectuar transações bancárias, faz que nem os remédios contra o cancro sejam entregues ou peças para aviões, e proíbe as compras do seu petróleo. O Ocidente obedece.

O inquilino da Casa Branca, todavia, sabe perfeitamente que estas palhaçadas não podem durar muito tempo e que, mais cedo ou mais tarde, os mesmos aliados que aderiram ao embargo começarão a cansar-se; então predispõe uma negociação com a Nação com a desculpa de regulamentar o programa nuclear que o País continua a perseguir, sendo que a verdadeira meta é a mesma que a sua Nação tem seguido desde 1979: por um fim ao despertar da terra que agora chamamos a República Islâmica do Irão.

Demasiado pessimista sobre as intenções da Casa Branca? Então, porque os Americanos insistem que no acordo sobre a energia nuclear sejam colocadas condições que com um programa nuclear civil não têm a ver? Eles reivindicam o direito até de visitar todos as bases militares iranianas, as do exército, as estruturas defensivas, as estações de radar, os sistemas de mísseis etc. E certamente não numa base de reciprocidade.

As negociações

Os delírios de B. Netanyahu

Em suma, os 5 + 1 apela para uma "rendição incondicional" do Irão e, assim, ao fim dos ideais que deram origem à República Islâmica. Na prática, os Americanos querem o fim do sonho de milhões de pessoas que fizeram a revolução em 1979 e colocar lá, no meio do Oriente Médio, uma colónia que actue, mais ou menos, como fazia o Xá do Irão antes da revolução.

Agora muitos perguntam-se, mesmo no Ocidente, se no Irão as pessoas e as autoridades, principalmente o líder supremo, o Āyatollāh Seyyed Ali Khamenei, entenderam isso ou não. A resposta é sim. Entenderam desde o princípio. Mas então porque concordaram em negociar?

Não podiam condenar, aos olhos do mundo, uma aparente tentativa de negociação; eles, que foram a vítima da injustiça, arriscavam passar para o lado dos "errados" ao recusar o diálogo. O Irão tem um pedido claro: desenvolver um programa nuclear civil para gerar eletricidade; dado que este é um direito reconhecido internacionalmente, não pode ser vítima de sanções injustas.

É claro que, no fim, quando se tornará claro aquilo que o 5 + 1 pede o Irão em vez de um razoável acordo nuclear, um "não" do Irão vai ser muito bem entendido pela comunidade internacional e nesse ponto ficará bem claro quem estava da parte errada e quem da parte da razão. É certo que as balanças internacionais não estão baseadas na razão e nem na ética, mas para o Irão será o suficiente que o mundo inteiro conheça a verdade.

Nesta altura, o que fará o chefe do Império oceânico? Os seus colegas de partido não querem perder a próxima eleição presidencial. Deverá esticar as negociações até a hora da eleição para conquistá-las; ou a assinar um acordo e, em seguida, não respeitá-lo. Por exemplo, um compromisso para levantar as sanções e, a seguir, não respeita-lo.
Em outras palavras, a negociação é uma outra técnica subtil de "guerra" com o objectivo de enganar os Iranianos, prejudica-los, obter informações confidenciais acerca deles, para dividi-los ou, pelo menos, colocá-los numa péssima luz perante aquelas populações do mundo que viram neles um exemplo.

Portanto, é guerra aberta atrás da mesa das negociação sobre o nuclear, mas uma guerra travada com o pensamento, como num jogo de xadrez.

Em conclusão, prever a possível evolução das negociações sobre o nuclear poderia até ser um exercício simples:
A) Não será assinado nenhum acordo.
B) O tempo para alcança-lo será esticado até o período da próxima eleição presidencial norte-americana.
C) Os Americanos irão antes aceitar os termos razoáveis ​​do Irã (sempre para fazer deles um uso instrumental nas eleições) para depois violá-los na altura certa.


Um texto não propriamente objectivo, como é evidente, mas um perfeito contrapeso perante as notícias dos media ocidentais; um texto no qual pode ser observado um ponto de vista diferente e, sobretudo, duma das partes directamente interessadas.
Há muito patriotismo, há muito idealismo: mas não está desprovido de pontos que obrigam a reflectir.
Com as negociações sobre o nuclear (o "5+1"), os Estados Unidos parecem ter completamente ignorado os pedidos de Tel Avive, o que não deixa de ser pelo menos "estranho": israel ainda é o melhor aliado de Washington na região. E é evidente que nem a Arábia Saudita vê de bons olhos estas negociações com a principal Nação xiita.
Provavelmente, o Pentágono encara esta como uma win-win situation:

  • se o Irão recusar o acordo, será mais uma prova da "maldade" de Teherão (e das razões de israelitas e árabes), o que iria plenamente justificar as sanções, apresentando também o simpático Obama como quem tentou até o limite um razoável acordo.
  • se o Irão aceitar os termos (tal como estão agora), os EUA (e, consequentemente, os seus aliados da região, ISIS incluído) terão pleno acesso ao sistema defensivo do Irão, Teherão nunca poderá desenvolver armas nucleares (enquanto israel tem, no mínimo 200 ogivas) e o simpático Obama ficará como "salvador do mundo".

Tudo isso em teoria. A prática é um pouco diferente, como a História ensina.
Tranquilos: não falta muito. Até o final do mês, todos terão que começar a pôr as cartas por cima da mesa. E aí começa a parte divertida.
Ipse dixit.
Fonte: Megachip

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