domingo, 1 de março de 2015

Tempos difíceis

Via Sul 21

Paulo Muzell

Eric Hobsbawm, o grande historiador inglês falecido no início deste século escreveu uma autobiografia intitulada “Tempos Interessantes”. Ele se referia ao século XX, em que viveu quase toda sua vida e que ele tão lucidamente analisou no seu extraordinário “O breve século XX”.

Certamente se ele estivesse vivo na metade desta segunda década do sofrido século XXI, especialmente aqui no Brasil, o título da sua biografia seria outro: “Tempos Obscuros” ou, pelo menos, “Tempos Difíceis”.

Especialmente depois do estouro da “bolha imobiliária”, em 2008, o mundo vive um período de sérias dificuldades. Recessão nos Estados Unidos, a maior economia global; forte crise na União Européia agravada por elevadíssimas taxas de desemprego. Quando a economia americana ensaia uma lenta recuperação, a da China, segundo PIB do planeta começa a perder velocidade após longo ciclo de elevado crescimento.

Dentre os países periféricos e dependentes o Brasil conseguiu manter os salários e o nível de emprego em alta e a inflação sob controle nos primeiros anos do posteriores à crise. A partir de 2013 as dificuldades afloraram. Desequilíbrios orçamentários, redução das taxas de investimento, queda da produção industrial, redução das reservas internacionais, desequilíbrio no balanço de pagamentos e, por fim, desvalorização cambial, elevação da inflação e aumento da SELIC.

A eleição presidencial de 2014 piorou, e muito, um quadro político em crescente deterioração. Contribui para isso um crescente desprestígio do PT, fruto de seus próprios equívocos – que não foram poucos – e, também, de um furioso e permanente ataque da grande mídia e do poder judiciário. O PT prometeu entregar uma mercadoria cada vez mais escassa, quase inexistente: ética na política. O partido inchou, os “tempos heróicos” viraram coisa do passado, sonho distante de uma noite de verão. Os tortuosos meandros do poder paulatinamente engoliram o PT. E o pior é que a alternativa de mudança significa retrocesso: um presidente eleito por uma coligação PSDB-DEM-PSB, aquela “turminha do FHC” certamente seria muito pior.

A chamada operação Lava Jato originou um segundo ataque – o primeiro fora o “mensalão-Zé Dirceu” – desferido apenas contra o PT. A novidade e a gravidade é que a Lava Jato acresce um novo alvo, a Petrobras. A empresa com suas preciosas reservas do pré-sal é a nossa “jóia da coroa”, sonho do grande capital internacional do setor petroquímico. Um juiz paranaense com suspeitas relações familiares com o PSDB, em poucos meses se torna figura de projeção nacional. Utilizando o recurso da delação premiada, obtém depoimentos bombásticos de personagens nada confiáveis, “vazados seletivamente”. As denúncias atingem apenas os governos federais recentes, quando se sabe que os desvios e ilicitudes na estatal ocorriam desde 1996 e tiveram até a participação de um genro de FHC, à época diretor da Agencia Nacional de Petróleo (ANP). FHC elaborou e aprovou a lei 9478/97 que fragilizou a 8.666/93 (lei das licitações), “escancarando as portas para os desvios”.

As ações da empresa que nos últimos anos já vinham caindo, despencaram. As versões veiculadas pela grande mídia – jornais, rádios e tevês – têm o tom e o som de marcha fúnebre, prepara-se o “velório” da nossa grande empresa. Prejuízo incalculável para a engenharia e para o desenvolvimento tecnológico do país, ameaça que paira e que pode inviabilizar a realização dos investimentos programados para 2015 e anos seguintes, num montante anual superior aos 100 bilhões de reais. O grande absurdo e ironia do episódio é que a empresa vai bem, obrigado, nos últimos anos aumentou a produção e evoluiu tecnologicamente. É verdade que os efeitos do ataque deverão afetar o desempenho futuro, com perdas irreparáveis que no momento é impossível medir. A Casa Grande está cometendo um crime contra o patrimônio e os interesses maiores da nação.

Se tudo isso não bastasse, estamos vivendo um momento de extraordinário crescimento das igrejas evangélicas no Brasil. Uma crescente e nefasta ameaça ao já desolador cenário político brasileiro. O declínio da Igreja Católica abre cada vez mais espaço para eles. No último censo do IBGE, de 2010, já tinham 40 milhões de fiéis, cerca de 22,2% da população brasileira. As projeções para 2020 indicam que os evangélicos deverão representar mais de um terço da população.

Constituídas como entidades sem fins lucrativos, as igrejas evangélicas aumentam de forma impressionante seu patrimônio e poder. A Universal é dona da Record, uma rede nacional de tevê com 22 emissoras. Inaugurou ano passado um super e luxuoso templo do Salomão, com 100 mil metros quadrados de área, com capacidade de realizar cultos para 10 mil fiéis na cidade de São Paulo. Ocupam, ilegalmente, milhares e milhares de horas mensais em horários de tevê e rádio transmitindo seus cultos e mensagens em todo território nacional. Apelam descaradamente para o charlatanismo: prometem para o povão carente e fragilizado, curas milagreiras: passes, óleos e gotinhas que curam reumatismo, lombalgias depressão e até câncer. E a “sacolinha” segue andando, não para de circular.

Este sucesso médico-místico-empresarial elegeu em 2014 uma bancada pluripartidária na Câmara Federal, composta por 75 deputados, a maior do país. A segunda é a do PT com 70 deputados e a terceira do PMDB, com 66. O PRB mais que dobrou o número de representantes: de apenas 10 em 2010 passou a 21 na última eleição. Essa bancada dá suporte a um presidente do Congresso também evangélico, Eduardo Cunha. Figuras políticas de expressão nacional figuram nos seus quadros: Antony Garotinho, Marcelo Crivella e Marina Silva. Extremamente preocupante é a ameaça de “volta para o passado” que eles representam. Defendem a limitação dos direitos dos gays, a proibição do aborto e da união homoafetiva, a condenação de pesquisas genéticas fundamentais para o desenvolvimento da medicina e da ciência, dentre outros. O rápido crescimento dos cultos evangélicos vai se constituindo, cada vez mais, numa concreta ameaça de retrocesso. De que passemos de “tempos difíceis”, para “tempos obscuros”.

Paulo Muzell é economista

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