quarta-feira, 4 de março de 2015

Existiu um Estado na Líbia?

Via Rebelión

Manlio Dinucci

Tradução do espanhol: Renzo Bassanetti

Il Manifesto

hillary

 

Como de costume, os vencedores da OTAN pretendem reescrever a História. Segundo afirmam eles, a Líbia nunca foi um Estado, e Muammar Kadhafi foi um ditador sanguinário. Na realidade, a  Árabe Jamahiriya Libia foi criada segundo o modelo dos socialistas utópicos do século XIX, de quem Kadhafi sempre foi grande admirador. Tratava-se, consequentemente, de um Estado mínimo que desgraçadamente resultou ser incapaz de defender-se diante da agressão da coalizão imperialista.

Segundo o agora presidente emério da República Italiana, Giorgio Napolitano, não é certo que a guerra de 2011 destruiu o Estado líbio. “Eu considero que nunca houve um Estado na Líbia no sentido moderno da expressão”, declarou Napolitano, ao fazer uso da palavra no Senado.

Há somente alguns meses, o próprio Napolitano tinha qualificado a Líbia de “Estado falido”, um conceito criado pelo Fundo para a Paz norte-americano. Agora, parece que ele pensou melhor:”Que possa se falar em Estado falido é uma coisa que me deixa perplexo. O exercício do poder autocrático  e pessoal do presidente Kadhaffi, baseado em um sistema de equilíbrio entre uma quantidade de tribos não era um Estado”.

Assim, segundo Napolitano, o que havia na costa sul do Mediterrâneo não era um Estado: a República Árabe da Líbia, nascida em 1969 depois de mais de 30 anos de dominação colonial italiana e de quase 20 anos de monarquia espúria inventada pela Grã-Bretanha e Estados Unidos. Um Estado que, depois de abolir a monarquia, fechou em 1970 as bases norte-americanas e britânicas e nacionalizou as propriedades da British Petroleum. Um Estado que – segundo reconhecia o Banco Mundial em 2010 , dispunha de “um alto nível de crescimento econômico”, garantindo assim, apesar das diferenças de desenvolvimento, o mais alto nível de vida na África, e que proporcionava trabalho a cerca de 2 milhões de imigrantes africanos. Um Estado que registrava “altos indicadores de desenvolvimento humano”, entre os quais poderiam ser citados o acesso universal ao ensino primário e secundário e, para 46% da população, o acesso ao ensino universitário. Um Estado cujos investimentos tornaram possível  o nascimento de organizações que teriam transformado em realidade a autonomia financeira da África: o Banco Africano de Investimentos (na Líbia), o Banco Central Africano (na Nigéria), e o Fundo Monetário Africano (em Camarões). 

Ao ser reescrita a história, está se tratando de apagar tudo isso, e a Líbia que existiu entre 1969 e 2011, vê-se representada agora por um não-Estado, como uma “multidão de tribos” – definição digna de um postal colonial -, que se mantinham juntas unicamente pelo poder de Kadhafi. Um poder que sem dúvida existia, resultado das fases históricas que a Líbia tinha atravessado, mas que tinha se afrouxado e descentralizado, abrindo assim a possibilidade de uma posterior evolução da sociedade líbia. Uma Líbia que a partir do levantamento em 2004 do embargo decretadp pelos Estados Unidos e União Européia, tinha reconquistado um espaço a nível internacional. 

Em abril de 2009, em Washington, a Secretária de Estado Hillary Clinton apertava calorosamente a mão de um dos filhos de Kadhafi, enquanto afirmava querer “aprofundar e ampliar nossa cooperação”. Menos de dois anos depois, aquela mesma Hillary Clinton iniciava a campanha internacional contra Kadhafi, iniciando assim a posterior guerra.

Contudo agora, no quadro da disputa pela próxima eleição presidencial norte-americana, os esqueletos começam a sair dos armários.

Provas documentais, publicadas pelo Washington Times e analisadas pela Comissão do Congresso que investiga o assassinato do embaixador dos Estados Unidos, perpetrado em Bengazi em 2012, demonstram que foi Hillary Clinton quem empurrou a administração Obama para a guerra contra a Líbia, “com pretextos falsos e ignorando os conselhos dos comandantes militares”.

Efetivamente, enquanto a senhora Clinton acusava Kadhafi de genocídio, as agências de inteligência norte-americanas indicavam em seus relatórios internos  que “Kadhafi tinha dado a ordem de não atacar civis e sim concentrar-se nos rebeldes armados”. Descobrimos assim um relatório enviado pelas autoridades líbias a vários membros do Congresso norte-americano em 2011, onde são documentadas as entregas de armas provenientes do Qatar aos jihadistas líbios, com “a autorização da OTAN”.

Naquela época, o presidente Giorgio Napolitano declarava que “ao não podermos ficar indiferentes diante da reação sanguinária de Kadhafi”, a Itália somava-se ao “plano de intervenção da coalizão sob condução da OTAN”.

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