sábado, 7 de fevereiro de 2015

Venezuela e a batalha pela hegemonia mundial

Via Rebelión

Ángel Guerra Cabrera

Tradução do espanhol: Renzo Bassanetti

A crise de hegemonia que os Estados Unidos atravessa tem criado no cenário internacional uma situação instável, perigosa e de desenlace imprevisível, pois Washington não se resigna a aceitar a perda da primazia quase absoluta que desfrutava no planeta. Parece não querer dar-se conta de que o mundo caminha em direção à multipolaridade, na qual ela está obrigada a levar em consideração os interesses e concepções de outros atores – entre eles, China e Rússia -, a menos que deseje correr o risco de empurrar a humanidade para o holocausto de uma guerra nuclear. 

Os EUA atuam muitas vezes guiados mais pela irracionalidade do que por pragmatismo, como na Ucrânia. Ou, como observamos na América Latina e no Caribe,  mesmo no caso de Cuba, onde afirmam que vão mudar sua política, não se cansam de repetir, com descaramento inaudito, “que seu objetivo continua o mesmo”. Ou seja, restaurar o capitalismo e a putrefata democracia liberal  na ilha contra a opinião do povo cubano.  

Washington fecha os olhos diante de sua crescente debilidade econômica – que a bolha do petróleo e do gás do fracking não podem ocultar -, de seu descrédito político, que tem colhido com suas sangrentas guerras de agressão, das torturas a prisioneiros, do assassinato de civis inocentes por drones ou por seus grupos de operações especiais em cada vez mais países, da espionagem generalizada das comunicações, inclusive de seus próprios aliados, do constante homicídio de negros por seus policiais e da alarmante desigualdade e pobreza que corrói a sociedade norte-americana.

Nessa situação, acabar com a Revolução Bolivariana pela força, já que pela via eleitoral não conseguiu, é sua maior prioridade na sua política em relação à nossa região, que decidiu acelerar depois da desaparição do presidente Hugo Chávez. Mas seu objetivo não é só esse, mas sim arrasar com todos os governos que não se submetem, não aceitam as políticas neoliberais e buscam a unidade e a integração da América Latina e Caribe (ALC). Os estrategistas do Império raciocionam que, se Washington não é capaz de controlar o que sempre considerou seu quintal, muito menos poderá se impor ao resto do mundo.

Por isso, os EUA ambicionam destruir a arquitetura bolivariana em nossa região, construída a partir de 1999 sob a liderança e a inspiração de Hugo Chávez, mas para conseguir isso, devem arrasar com o pontal venezuelano. Não é somente por que a Venezuela tem as maiores reservas de hidrocarbonetos do mundo.

Tanto ou mais importante é a existência na pátria de Bolívar de um destacamento revolucionário de singular combatividade, consciente politicamente e carregado de simbolismo, como o chavismo. Este, embora com os baixos preços do petróleo e submetido a uma guerra econômica e de desabastecimento, junta reservas morais e políticas fundamentais para manter unidas e combativas as melhores forças e os governos mais independentes da América Latina e Caribe.

É por isso que o império tem experimentado tudo contra Caracas, desde uma metódica guerra psicológica juntamente com uma guerra econômica por setores burgueses nacionais e internacionais que especulam com as divisas do povo venezuelano ou açambarcam e contrabandeiam apoiados por todas as corporações midiáticas do planeta, até a organização das violentas e assassinas “guarimbas” (*) sob responsabilidade de delinquentes, paramilitares colombianos e apátridas, que somente em fevereiro do ano passado custaram 43 mortos. E, violando o direito internacional, foram reforçadas as sanções contra a Venezuela.   

Na recente reunião com os governos do Caricom, o vice-presidente estadunidense, Joe Biden, se propunha a destruir a Petrocaribe, exemplar instrumento de solidariedade com esses países idealizado por Hugo Chávez, embora haja vazado que o funcionário também conspirou grosseiramente contra o presidente  Maduro.

A presença provocadora e ingerencista em Caracas de três ex-presidentes latino americanos, questionados em seus países por seu desrespeito aos direitos humanos, dá uma medida sobre quem apoia a oposição golpista venezuelana, pois dias antes o presidente Maduro tinha recebido o apoio de seus colegas da Celac diante dos planos desestabilizadores.

Na disputa pela hegemonia mundial, abre-se um importante capítulo na América Latina e Caribe, desde agora até a Cume das Américas. A diplomacia ianque está se jogando a fundo para ali tecer uma emboscada contra Cuba e a Venezuela e tentar dividir os governos latino-americanos e caribenhos. O tiro lhes sairá pela culatra.

(*) Gurarimba: Método de luta da oposição venezuelana para boicotar ações de governo, que consiste em ocupar violentamente ruas, destruir mobiliário, disparar armas de fogo, e tentar produzir reações repressivas do governo. Em alguns momentos, essas ações, realizadas sobretudo nas zonas da classes alta de Caracas, provocando o confinamento da população e gerando seu rechaço a esses atos (N. do T.)

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