sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Nenhum tucano vai para a cadeia?

Sanguessugado do Miro

Altamiro Borges


Nesta segunda-feira (2), “a Justiça de São Paulo decretou o bloqueio de R$ 282 milhões da multinacional francesa Alstom e do conselheiro afastado do Tribunal de Contas do Estado, Robson Marinho, réus em ação de improbidade movida pelo Ministério Público”. A revelação bombástica foi feita pelo jornalista Fausto Macedo, do Estadão, mas não mereceu as manchetes dos jornalões e nem os comentários hidrófobos dos “calunistas” das emissoras de rádio e tevê. Na sua seletividade escancarada, a mídia privada prefere destacar apenas as denúncias de corrupção contra a Petrobras, com o objetivo explícito de desgastar o governo Dilma. Os escândalos envolvendo os chefões tucanos foram arquivados no passado e seguem sendo abafados no presente. Se depender dos barões da mídia, nenhum tucano será preso – dado o peso simbólico que isto teria para desmascarar os falsos moralistas.
Como lembra o solitário repórter do Estadão, “Robson Marinho foi chefe da Casa Civil do governo Mário Covas (PSDB) entre 1995 e 1997”. Pelas mãos do seu padrinho político, ele foi nomeado conselheiro do Tribunal de Contas do Estado. Ele sempre foi um homem de confiança dos tucanos paulistas, que comandam o Estado há 20 anos. Há suspeitas de que o conselheiro do TCE – a típica raposa tomando conta do galinheiro – sempre ajudou na arrecadação de fundos para as campanhas do PSDB. No caso do “trensalão tucano” – que a mídia prefere chamar carinhosamente de “cartel dos trens” –, Robson Marinho é acusado de ter desviado uma fortuna em propinas As próprias multinacionais denunciadas, como a Alstom e a Siemens, já confessaram no exterior que repassaram dinheiro para políticos do PSDB. Mas nenhuma investigação avança, a mídia faz silêncio e os tucanos seguem fora da cadeia!
Nesta semana, porém, a juíza Maria Gabriella Pavlópoulos Spaolonzi, da 13.ª Vara da Fazenda Pública, decidiu tentar mexer novamente no caso. “Em agosto de 2014, Maria Gabriella decretou o afastamento de Marinho de suas funções no TCE. Ele está sob a suspeita de ter recebido na Suíça US$ 2,7 milhões em propinas da multinacional francesa Alstom, entre os anos de 1998 e 2005 (US$ 3,059 milhões em valores atualizados). A Promotoria acusa Roberto Marinho de enriquecimento ilícito, sustenta que ele lavou dinheiro no exterior e afirma que o conselheiro de contas participou de um ‘esquema de ladroagem de dinheiro público’”, relata o jornalista. Há quem bote fé que agora as investigações avançarão e que algum tucano irá, finalmente, para a cadeia. Com base na revoltante história de impunidade dos chefões do PSDB, tenho minhas dúvidas.
Não custa lembrar outro escândalo envolvendo os protegidos da mídia, o chamado “mensalão tucano” – que a mesma imprensa insiste em chamar de “mensalão mineiro”. Em junho deste ano, a maracutaia completará dez anos da sua descoberta. Ela antecede a eclosão do chamado “mensalão petista”. No caso do PT, o julgamento midiático já foi concluído e os acusados foram presos e execrados. O processo foi decisivo para carimbar na testa dos petistas o rótulo de corruptos, que hoje tem tanta força no imaginário popular. Já os tucanos metidos no tal “mensalão mineiro” seguem em liberdade. Até o cambaleante Aécio Neves, que teve seu nome citado pelo próprio articulador do esquema, o ex-governador Eduardo Azeredo, adora posar de vestal da ética. Aqui vale reproduzir uma solitária e esquecida reportagem da Folha online de dezembro passado (ela também não rendeu manchete):
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Folha 26 de dezembro de 2014
Após quase dez anos, ninguém foi julgado por mensalão tucano
Por Paulo Peixoto, de Belo Horizonte
Em junho de 2015 completam-se dez anos da descoberta do mensalão tucano, que ocorreu na esteira do mensalão petista. Enquanto o julgamento do mensalão do PT já foi concluído, o do PSDB de Minas se arrasta.
Somente neste ano o processo do então governador Eduardo Azeredo, que desde março de 2014 está pronto para ir a julgamento, deverá ser analisado pela primeira instância da Justiça mineira. A data não foi marcada ainda.
Azeredo renunciou ao mandato de deputado federal e perdeu o foro privilegiado. O STF (Supremo Tribunal Federal), então, encaminhou o processo para a primeira instância.
Apesar de a renúncia ter ocorrido em março, somente no dia 4 de dezembro a ação penal chegou à 9ª Vara Criminal, em BH, onde já tramita outro processo, esse com oito réus.
Essa outra ação tinha dez réus, mas a morosidade da Justiça permitiu que o crime prescrevesse para dois deles, que completaram 70 anos. Os favorecidos foram o ex-ministro Walfrido dos Mares Guia e o tesoureiro da campanha de Azeredo, Cláudio Mourão.
Esse processo ainda se arrasta, e nenhum réu foi nem sequer ouvido. A última audiência do ano não aconteceu porque os advogados dos réus não foram notificados do depoimento com a última testemunha de defesa, justamente do réu José Afonso Bicalho. A audiência foi remarcada para 21 de janeiro.
Há ainda um terceiro processo, que envolve o ex-senador Clésio Andrade (PMDB). Ele também renunciou ao mandato, o que levou o processo para a primeira instância.
De acordo com denúncia do Ministério Público Federal, o mensalão tucano envolveu desvios de R$ 3,5 milhões de empresas públicas de Minas, usados na campanha eleitoral de Azeredo, que tentava se reeleger governador em 1998.

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Estes e outros escândalos tucanos – como o da compra de votos para a reeleição de FHC ou o da criminosa “privataria” das estatais, entre tantos outros crimes – nunca foram apurados. Os suspeitos de envolvimento no desvio do dinheiro público – como FHC, José Serra ou Geraldo Alckmin – nunca sequer foram convocados para depor. Alguns já morreram e outros usaram de expedientes jurídicos, como Eduardo Azeredo, para escapar das barras dos tribunais. A mídia privada – nos dois sentidos da palavra – fez e faz de tudo para blindar os chefões do tucanato por motivos ideológicos, políticos e econômicos. Já o PT, que poderia ser mais incisivo na denúncia destes crimes, preferiu optar pelo pragmatismo político. Enquanto a direita é implacável contra as forças de esquerdas, alguns setores de esquerda preferem adotar o charmoso “espírito republicano”.
Daí o meu ceticismo. Apesar das inúmeras provas – geralmente provindas de órgãos de investigação no exterior – sobre as propinas do chamado “cartel dos trens”, nenhum tucano de São Paulo irá para a cadeia! Uma esperança que poderia restar é que o novo governador de Minas Gerais, o petista Fernando Pimentel, investigasse os vários crimes do PSDB no Estado. Ele poderia começar pelo aeroporto construído com dinheiro público na fazenda do titio de Aécio Neves. Dava até para averiguar melhor o caso do helicóptero com meia tonelada de cocaína. Mas o governador é conhecido como “o mais tucano dos petistas” e tende, também, a engolir esta herança maldita. Ou seja: o rótulo de corrupto, repetido por tucanos, ricaços e “calunistas” mais sujos do que pau de galinheiro, continuará cravado na testa dos petistas e dos militantes de esquerda. Os tucanos seguirão fora da cadeia!

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