quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Dilma vendo a banda passar

Via Brasil de Fato

É inegável a corrupção na Petrobras, mas é também inaceitável o governo aceitar com mansidão a idéia que ela seja nova e que o PT seja responsável pelos maiores males de que sofre a estatal. Um dos delatores da Lava Jato admite que o esquema começou em 1997, quando o governo FHC aprovou o regime de concessões

Carlos Tautz

Entra semana e sai semana e o governo continua deixando que a oposição e a imprensa corporativa definam a narrativa da crise. Em articulação profunda, oposição e imprensa corporativa tem dado à sociedade a a versão que bem entendem sobre a corrupção na Petrobras. Intriga é ver Dilma, seu governo e seu partido permanecerem como naquela música do Chico Buarque: vendo a banda passar.

Talvez por entenderem que o projeto de poder do PT já tenha mesmo se esgotado e que não haja mais nada de substancial a fazer.

É inegável a corrupção na Petrobras, mas é também inaceitável o governo aceitar com mansidão a idéia que ela seja nova e que o PT seja responsável pelos maiores males de que sofre a estatal. Pelo menos três importantes momentos da estória recente desmentem o noticiário oposicionista:

1. Um dos delatores da Lava Jato admite que o esquema começou em 1997, quando o governo Fernando Henrique aprovou o regime de concessões. Por que esta informação não vai para as primeiras páginas?;

2. Em 1975, o general ditador Ernesto Geisel autorizou a Petrobras, então presidida pelo impolutíssimo Shigeaki Ueki, a celebrar com petroleiras estrangeiras os contratos de risco para exploração de petróleo que romperiam com o monopólio estatal. Após 14 anos dos contratos de risco, as estrangeiras não encontraram uma só gota de petróleo; e

3. O documentário Cidadão Boilesen narra a estória do dinamarquês Henning Boilesen, presidente do Grupo Ultra no Brasil durante a ditadura empresarial-militar, que financiou e torturou pessoalmente presos políticos. Sua empresa acertou um contrato pelo qual comprava da Petrobras a prazo e vendia à vista, o que, em cenário de inflação alta, garantia ao Grupo Ultra lucro de centenas de milhões de dólares mensalmente.

Ou seja: em se tratando de sangrar a estatal, nada há de novo. Nem a narrativa de que o Brasil se corrompe como nunca antes.

O ataque ao petróleo brasileiro, articulado com a tentativa de retirada à força do governante, retorna sempre que um governo tem a desconfiança dos maiores agentes econômicos e vacila. Dilma e o PT não aprenderam a lição histórica.

Aconteceu pela primeira vez em 1954, no quase golpe que resultou no suicídio de Getúlio Vargas, criador, sob clamor popular, da Petrobras; e em 64, quando o presidente João Goulart anunciou a intenção de fazer as reformas de base e, entre elas, encampar as refinarias estrangeiras.

Aagora, como antes, retornam os ataques ao petróleo brasileiro, diante da brusca reversão no que até há pouco Dilma defendia nas eleições presidenciais, e dos sinais de esgotamento do PT.

Enquanto vigorou, o projeto de poder petista manteve a Selic irrealmente alta e emitiu títulos do Tesouro aos borbotões. Satisfez os rentistas que abandonaram o barco tucano no início dos anos 2000 quando perceberam a rejeição popular ao neoliberalismo.

Apoiou com dinheiros públicos a economia primária e exportadora enquanto a Ásia demandava muito. Agora, a China passou a produzir internamente parte do que antes importava e gigantes brasileiros, como a Vale, que pesam na balança do comércio exterior, exportam quase pelo mesmo valor que exploram e patinam.

O projeto do PT também passou pela turbinagem das empreiteiras - da Odebrecht em especial -, com farto dinheiro público para obras superavaliadas e sustentadas pelo subsídio fácil do BNDES. Este foi o grande financiador, junto com o Banco do Brasil, do negócio agrícola exportador e das corporações que foram eleitas pelas políticas industriais petistas como as "campeães nacionais verde e amarelas".

E, por falar em Odebrecht: por que a Lava Jato ainda não colocou na cadeia nenhum de seus dirigentes...?

Voltando à vaca fria.

Para os círculos inferiores do capitalismo, o PT distribuiu bolsas compensatórias e treinamento técnico à mão de obra para manter o capitalismo funcionando. Se realmente planejasse uma emancipação estrutural dos pobres, o PT teria transformado a renda mínima e a Consolidação das Leis Sociais em obrigações de Estado.

O partido, ao contrário, preferiu as bolsas compensatórias. Elas são úteis durante as crises e as eleições porque os de baixo se sentem chantageados a apoiar o PT para não perder essas pequenas compensações.

Na crise na Petrobras, como a história mostra, surges riscos como o fim do sistema de partilha para exploração das super reservas do pré-sal - como ameaça o recém-eleito presidente da Câmara Eduardo Cunha -, cujos recursos seriam destinados a áreas estruturantes, como a educação.

Inertes, Dilma, seu governo e seu partido, entretanto, permitem que a história continue ser escrita desde o ponto de vista da oposição, os perdedores das eleições de outubro passado.

Por quê?

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