terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Chile: o novo final do filme Missing

Via Rebelión

O jornalista e o estudante foram assassinados há 41 anos

Juiz sentencia assassinos dos estadunidenses Charles Horman e Franck Terucci

Ernesto Carmona (*)

Tradução do espanhol:    Renzo Bassanetti

Mapocho Press

O juiz especial Jorge Zepeda Arancibia sentenciou dois oficiais de inteligência chilenos pelo assassinato dos norte-americanos Charles Edmond Horman, jornalista de 31 anos, e Frank Randall Teruggi Bombatch, estudante de 24, fuzilados no Estádio Nacional uma semana depois do golpe encabeçado por Pinochet.

A sentença de 276 páginas condena a sete anos o oficial do exército Pedro Octavio Espinoza Bravo, que já paga na prisão outros assassinatos, enquanto que o agente da força aérea Rafael Augustín González Berdugo cumprirá dois anos de vigilância policial como cúmplice no homicídio de Horman.

A exaustiva investigação do juiz Zepeda confirmou a intervenção direta dos EUA no golpe através da   Operação Unitas, levada a cabo em Valparaiso, simultânea ao levantamento, mas, além disso, desmascarou a perseguição ordenada pelos EUA aos serviços chilenos de inteligência contra estadunidenses radicados no Chile simpatizantes de Salvador Allende, ou simplesmente interessados em conhecer de perto e viver o processo de revolução pacífica encabeçado pelo chefe de estado derrubado pelos EUA. No Estádio Nacional houve até 24  estadunidenses detidos registrados (Horman e Teruggi não foram anotados) entre homens e mulheres, incluídos estudantes, acadêmicos , escritores e inclusive dois clérigos Maryknoll.

Instigadores e encobridores dessa perseguição a cidadãos norte-americanos foram seus próprios compatriotas Ray Elliots Charles, capitão da marinha e chefe da missão militar dos EUA, secundado pelo embaixador Nathanael  Davis. Longe de proteger seus concidadãos, encobriram assassinatos e detenções de norte-americanos, além de proporcionar informações falsas a familiares como Edmond Horman, o pai de Charles, que se deslocou até o Chile para procurar seu filho.

Ray E. Charles faleceu em 2013 no Chile, onde vivia secretamente, amparado por uma rede de proteção com super-poderes que lhe proporcionou até seis identidades. Em 2012, a Corte Suprema acolheu a extradição dos EUA para trazê-lo para declarar nessa causa, mas o ex-militar norte-americano residia no Chile, em uma casa de repouso de cinco estrelas para anciãos.

O caso Horman/Teruggi foi abordado em 1982 pelo filme Missing , de Costa-Gavras, com Jack Lemmon e Sissy Spacek. Os advogados dessa causa foram Fabiola Letelier del Solar e Sérgio Corvalán Carrasco, que iniciaram esse processo há 15 anos a pedido dos familiares das vítimas, Joyce Hamren de Horman, viúva do jornalista, e Janis Randall Teruggi Page, irmã do estudante, depois de fracassar nos EUA um processo aberto pela família Horman, boicotado pelas autoridades norte-americanas, contra o então Secretário de Estado, Henry Kissinger.

Horman e Teruggi foram sequestrados em seus domicílios por pessoal uniformizado em dias diferentes. Não foram registrados como “prisioneiros” pela precária burocracia da prisão na qual foi transformado o Estádio Nacional. Sofreram cruéis torturas e foram fuzilados por fuzilamento no dia seguinte ao da sua prisão no mesmo centro esportivo. Charles Horman, retirado de seu domicílio na Av. Vicuña Mckenna, 4126. San Joaquin, Santiago, foi executado em 18 de setembro de 1973, dia da independência. Frank Teruggi, sequestrado de seu domicílio na Rua Hernán Cortez esquina com Pedro de Valdívia, Nunõa, Santiago, foi executado no dia 22 de setembro. Sete anos de prisão para Espinoza Bravo  e dois de vigilância policial  (supõe-se que em liberdade) para González Verdugo parece pouco castigo para esses monstruosos assassinatos (Verdugo apresentou-se primeiro como “testemunha”, mas o juiz Zepeda o sentou no banco dos acusados, e ele mudou legalmente seu sobrenome materno para Berdugo).   

A investigação judicial desse terrível episódio mostrou a dupla face da Embaixada dos EUA, que em vez de proteger os cidadãos norte-americanos, dedicou-se a encobrir os crimes de lesa-humanidade da ditadura cívico-militar contra seus conterrâneos. Por exemplo, quando o embaixador Nathanael Davis falou com Edmond Horman, pai de Charles, já sabia que o jornalista tinha sido fuzilado sem julgamento nem direito à defesa, mas ocultou essa informação ao progenitor e à família da vítima. Depois de múltiplas obstruções, várias autópsias, sepultamentos e exumações, em abril de 1974 Charles Horman foi finalmente enterrado no Cemitério Greenwood, de Nova Iorque, ou seja, sete meses depois de seu assassinato.

A sentença de primeira instância, com quase 300 páginas, foi concluída pelo juiz Zepeda em 9 de janeiro de 2015,  mas levou-se quase três semanas para notificar cada uma das partes envolvidas. Os advogados acusadores Letelier e Corvalán anunciaram que colocarão objeções  à “irrepreensível conduta anterior” concedida à defesa de Espinoza Bravo, por que esse personagem  está envolvido em numerosos crimes anteriores aos de Horman e Teruggi, particularmente nos assassinatos dos colaboradores diretos de Salvador Allende, executados nas primeiras horas do golpe cívico-militar no recinto militar de Peldehue, depois de sua transferência do Palácio de La Moneda ao Regimento Tacna.

(*) Ernesto Carmona, jornalista e escritor chileno

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