terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Automotores Orletti: Memórias da ditadura argentina

Via Rebelion

Fabiola Pomareda (*)

Tradução do espanhol: Renzo Bassanetti

O local se conserva muito parecido a como estava no ano de 1976, embora com claros sinais de abandono. No andar térreo funcionava uma oficina mecânica, que hoje consiste em um escuro e frio salão de 8 metros de largura por 30 de comprimento, com cabos e ganchos afixados no teto, um alto-falante amarrado a uma viga metálica e horríveis lâmpadas fluorescentes. Na lateral direita, velhas escadas de madeira levam ao segundo piso. Ao entrarmos, sentimos calafrios, mas não foi nada comparado ao que dentro de pouco veríamos e ouviríamos ao percorrer o piso superior.

O ex-Centro Clandestino de Detenção, Tortura e Extermínio Automotores Orletti funcionou na zona oeste da cidade de Buenos Aires, numa antiga oficina mecânica localizada nos números 3519 e 3521 da rua Venancio Flores, em frente às linhas de trem. O bairro é Floresta, tranquilo, de casas baixas, predominantemente residencial. É aqui onde jazem as memórias da última ditadura militar da Argentina e é aqui onde estão as lembranças das atrocidades a que foram submetidos os que passaram por esse local.

Os detidos somente lembram que os traziam com os olhos vendados e os desciam dos veículos. Subiam-nos por um uma escada e os metiam numa espécie de cela. Anos depois recordariam os detalhes e os ruídos, já que não sabiam para onde os tinham levado. Lembrariam do som da cortina metálica da oficina, enrolando-se ao ser aberta; dos ruídos do trem, que ainda passa pela frente; e das vozes e das risadas  das crianças quando saiam ao recreio no pátio da escola Mauro Fernandez, que era vizinha do prédio.

Quando chegamos, as cortinas metálicas estavam baixadas pela metade. Somos recebidos por Alba Pereyra, argentina que trabalha junto a outros ativistas nesse local, denominado Espaço-Memória.

“Isto foi um centro clandestino de detenção, e a base da Operação Condor”, disse. Calcula-se que por aqui estiveram sequestrados uns 300 cidadãos uruguaios, chilenos, bolivianos, paraguaios, cubanos e argentinos. A maioria deles continua desaparecida.

O espaço Orletti ficou imortalizado nos textos produzidos por diversos organismos de direitos humanos como a sede da Operação Condor.

O centro funcionou entre 12 de maio e 3 de novembro de 1976, precisamente o ano em que foi  organizada a Operação Condor, um plano de coordenação de operações entre as cúpulas das ditaduras do Chile, Argentina, Brasil, Paraguai, Uruguai e Bolívia juntamente com a CIA dos Estados Unidos, e que se estendeu até os anos 80. Consistiu na vigilância, detenção, tortura, transferência de presos entre países e desaparecimento de pessoas consideradas subversivas ou contrárias ao pensamento político das ditaduras. Calcula-se que, durante esse período, despareceram 50 mil pessoas no Cone Sul.  

Durante a ditadura militar que se instalou na Argentina a partir de 24 de março de 1976, até 1983, Orletti foi um dos mais de 500 centros clandestinos de detenção, tortura   e extermínio instalados no país, e um dos 45 que operaram em Buenos Aires.  Esteve sob a responsabilidade do Primeiro Corpo de Exército e da Secretaria de Inteligência de Estado Argentina (SIDE), e foi base das forças de inteligência estrangeiras, entre elas o Órgão Coordenador de Operações Antisubversivas (OCOA), e o Serviço de Inteligência da Defesa (SID), ambos uruguaios, e a Direção Nacional de Inteligência chilena, (DINA) 

Os testemunhos, o terror

O segundo piso da Orletti foi, no passado, uma residência familiar que se conectava com a oficina. Subimos por uma escada e vimos o papel de parede descascado, que levam a um patamar e em seguida a uma cozinha. Mais além, começamos a ver os quartos. Tenebrosos, frios, com marcas nas paredes, lâmpadas penduradas do teto. Eram peças com isolamento acústico, que foram usadas para interrogatórios.

Dois salões maiores têm tetos altos, janelas com grades, de onde não se pode ver o exterior, e vigas metálicas no teto. Foram salas de torturas, onde por mais que gritassem, ninguém escutaria aos de dentro. Os torturadores mantinham o rádio a todo volume para assegurarem-se disso.  

Quem nos guia por esse trajeto é Ricardo Poggio, ativista que trabalha no Espaço-Memória.

Segundo nos conta Poggio, o primeiro a falar em Orletti foi o jornalista uruguaio de direita Enrique Rodrígues Larreta Piera, que chegou à Argentina procurando seu filho desaparecido Enrique Rodríguez Larreta Martínez. O homem foi identificado pelos serviços de inteligência, sequestrado e posteriormente levado a Orletti, onde mantinham seu filho.

Esta é uma parte do testemunho de Rodríguez Larreta na denúcia judicial que apresentou em 1977 em Londres: “Na noite seguinte, é a minha vez de ser conduzido ao andar de cima, onde sou interrogado sob tortura, como os demais homens e mulheres que estiveram ali. Sou despido completamente e, colocando-me os braços para trás, sou pendurado pelos pulsos por uns 20 minutos a uns 30 cm do chão. Ao mesmo tempo, me colocam uma espécie de tanga onde há vários fios elétricos. Quando estes são conectados, a vítima recebe eletricidade em várias partes do corpo ao mesmo tempo. Esse aparelho, que chamam de “máquina”, é conectado enquanto são efetuadas perguntas e proferidas ameaças e insultos, aplicando-se também golpes nas partes mais sensíveis (...). Não posso precisar com exatidão  durante quanto tempo fui torturado; creio que em meu caso, não foi por mais de meia hora, mas na maioria dos casos as torturas duravam, segundo meus cálculos, de duas a três horas”.

Rodríguez Larreta eventualmente foi transferido para o Uruguai e liberado, da mesma forma que seu filho. 

Puggio nos conta também que em Orletti houveram muitos casos de roubos de bebês que mulheres detidas deram à luz. Uma dessas mulheres foi Macarena Gelman, nora do poeta Juan Gelman. Vimos o quarto onde, grávida de 7 meses, ela esteve detida e torturada, junto à cozinha, no andar superior. Macarena Gelman, que recebeu o mesmo nome da mãe, nasceu em cativeiro no final de 1976, e foi entregue a um ex-policial no início de 1977. A jovem foi recuperada no ano 2000 depois de uma busca incessante, e em 2010 prestou testemunho na causa judicial que segue pelos crimes perpetrados em Orletti. 

O motivo pelo qual esse local deixou de ser usado foi a fuga de Graciela Vidaillac e José Morales em 3 de novembro de 1976. Graciela estava nua, amarrada e pendurada das vigas metálicas de um dos quartos  por onde andamos. Puggio nos conta a história. Os repressores foram almoçar e a cada 15 minutos vinham ver o que acontecia com ela. Depois de um tempo, deixaram de vir, e ela ouviu que roncavam. Começou a afrouxar as vendas e conseguiu soltar-se. Ela encontrou seu marido em um pequeno quarto com outras pessoas e o desamarrou. Nesse momento, os repressores os viram. Graciela jogou uma metralhadora para seu marido e houve um tiroteio. Ela foi ferida na axila esquerda, mas conseguiram descer a escada até a rua. A meia quadra dali havia um depósito de caminhões, e às 6 da manhã, sob o olhar dos vizinhos, ocuparam um caminhão e conseguiram fugir. Depois o casal exilou-se no México. 

A memória histórica

Todos esses relatos, que levam à construção de uma memória histórica na Argentina e na América Latina, fazem pensar como o terrorismo de estado atravessou toda uma sociedade..

Desde 2003, a Comissão de Direitos Humanos de Uruguaios na Argentina começou uma campanha legislativa para conseguir a expropriação do prédio onde estava a Orletti. Em 23 de março de 2009, a cidade de Buenos Aires tomou posse do imóvel.

Alba Pereyra acompanhou todo o processo desde o seu início. Ela trabalhava no escritório central do Instituto Espaço para a Memória (IEM), e escolheu trabalhar no Espaço-Memória Orletti por que tem vários familiares que estiveram presos e outros desaparecidos. Particularmente seu pai foi vítima da Operação Condor. Ela e sua família também estiveram exilados no Uruguai e posteriormente na Espanha.

Em 2009, começaram as tarefas de pesquisa, preservação e sistematização da informação nesse espaço; mas foi somente em junho de 2014 que o grupo começou a trabalhar ali, organizando visitas guiadas, oficinas e ciclos de cinema.

“O fato de terem expropriado esse locais tem a ver com uma luta de mais de 30 anos”, expressou Pereyra. “É importante que estejamos trabalhando nesses locais e falando do que aconteceu aqui. Conseguiu-se muito de 2003 até hoje. Creio que a sociedade vai tratar de manter o que se conquistou, que continuarão aparecendo netos, e que se mantenham os julgamentos. Tudo isso é uma fortaleza para resistir à direita,  por que novamente há uma investida da direita no continente”, continuou.

Georgina  Andino é outra ativista que trabalha em Orletti. Seu pai, Jorge Andino, de 79 anos, foi detido e esteve preso em um centro similar durante a ditadura. “É importante que isto fique aberto e que se convidem as pessoas a entrar”, opinou Andino.

Para Liliana Ferro, a transformação cultural que a Argentina tem vivido nos últimos anos é irreversível. “Ganhamos uma batalha cultural.  Agora, os direitos humanos são ensinados nas escolas; quando eu frequentei a escola, isso não acontecia”, anotou a mulher, que também guia nas visitas ao local.  

Quanto à discussão sobre a diferença entre o que é um Espaço-memória, como Orletti, e um museu, isto ainda é um debate aberto na sociedade argentina, assim como a resposta à pergunta “Que conteúdo será dado a esses Espaços-memória?”

Para Pereyra, “um museu da memória pode se localizar em qualquer lugar e ter elementos trazidos de qualquer local, enquanto estes espaços foram recuperados. Aqui, foram os moradores com as organizações de direitos humanos os que começaram a fazer atividades para que todos soubessem onde estavam localizados esses locais.

Poggio assinalou que “um museu conta fatos precisos que aconteceram ao longo de um período de tempo, enquanto que um espaço é um lugar que tem vida e durante todo o tempo vai sendo enriquecido com os testemunhos, as experiências e as vivências”.

“Há marcas pontuais que mostram que este é um local de memória. A velha escada é um dos pontos mencionados em todos os testemunhos. A cortina metálica, com seu ruído também. São confirmações do espalo. O gancho que ficou pendurado ainda é uma prova material  que nos diz o que estava acontecendo ali”, acrescentou Poggio.

E enfatizou: “Estamos numa etapa de denúncia permanente, e quando dizemos ‘nunca mais’, isso significa denunciar os responsáveis”.

Em março de 2011, um Tribunal de Buenos Aires condenou a penas de entre 20 anos de prisão e cadeia perpétua a quatro repressores que atuaram na  Automotores Orletti. De março de 2013 até hoje, o mesmo tribunal já julgou a 25 acusados de delitos de lesa humanidade cometidos através da Operação Condor, em prejuízo de 106 vítimas.

Muitas vezes, as pessoas desconhecem que esses fatos aconteceram ali, e daí a importância das marcas que convidam a refletir sobre o passado. 

Quando estávamos entrando em Orletti, nessa tarde de verão, alguns meninos conversavam em uma área verde em frente à oficina. Um deles disse ao outro: “Ali mataram gente”.

As cortinas metálicas da oficina Orletti estiveram baixadas durante muitos anos. Agora não mais

(*) Fabiola Pomareda. Jornalista, San José, Costa Rica. Seu blog é: http://fpomareda.blogspot.com/

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