quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Agrobanditismo: Pedem a punição de médico paraguaio de comprovou danos à saúde pelos agrotóxicos

Via Rebelión

Graciela Vizcay Gomez

Tradução do espanhol: Renzo Bassanetti

Ecos de romang

Caça às bruxas ou efeito Monsanto? O Carrasco (*) paraguaio colocou o dedo na ferida. A cadeia de televisão HBO iniciou a gravação no Paraguai sobre os efeitos dos pesticidas nas áreas rurais do país, tema pesquisado por uma equipe liderada pelo doutor José Luis Insfrán... e muitos estão nervosos!

Seu estudo foi publicado pelo Hospital de Clínicas e ele é o mentor do Simpósio sobre Agrotóxicos e Transgênicos, realizado na Faculdade de Ciencias Médicas da Universidad Nacional de Asunción (UMA), em 25 e 26 de setembro de 2014.

O médico, Dr. José Luís Insfrán, que vem denunciando há anos os efeitos na saúde das pessoas. Professor titular e chefe da Cátedra de Semiologia Médica  da UNA, responde com firmeza  que “Já não é mais possível negar que os agroquímicos utilizados no campo afetam a saúde humana”…

Nosso último encontro foi em Assunção, logo após o simpósio, no jantar oferecido pelo Dr. Joel Holden Filártiga, outro médico que, junto a Insfrán é precursor no Paraguai denunciando os efeitos que dia a dia se repetem em seus consultórios. Em janeiro passado, numa entrevista à E`a, Insfrán repetiu o que é revelado no relatório “As enfermidades hematológicas e os transgênicos”, elaborado recentemente por ele e vários estudantes de medicina.

Insfrán manifestou que “os milhões de litros de agrotóxicos derramados sobre as plantações de soja a cada ano sem dúvida afetam a saúde da população do Paraguai, principalmente a das áreas rurais”. Se relatório na pesquisa coloca que “...duzentos e dez casos novos de leucemia e linfomas aparecem a cada ano”, e que “...pode se afirmar que, por ano, aparecem 30 novos casos de enfermidades hematológicas por cada milhão de habitantes, e como no Paraguai somos aproximadamente sete milhões de habitantes, duzentos e dez novos casos de leucemia e linfomas aparecem por ano” (sic). 

Como era de se esperar, amordaçar o médico é agora questão de Estado; como consequência de suas afirmações e de sua pesquisa, Insfrán revelou que chegou a ele e à sua equipe “um pedido de punição através da Faculdade de Medicina da UMA, por “opor-se ao desenvolvimento do país”. O referido pedido provém dos alunos do curso de Biotecnologia da Facultad de Ciências Exactas y Naturales e do coordenador desse curso, ao decano da Faculdade de Medicina, Anibal Peris, segundo o Dr. Insfrán. 

A nós chegou um pedido de sanções através do Decano da Faculdade de Medicina, assinado por uns 30 alunos de Biotecnologia, por que nos opúnhamos ao desenvolvimento do pais”, disse o doutor  há poucas horas em outro meio de comunicação, Radio UNO.
A pesquisa do Dr. Insfrán e sua equipe foi apresentada no ano passado. “Nos chamáva a atenção que 25 anos atrás não tínhamos a alta proporção que hoje temos de pacientes com enfermidades hematológicas  (linfomas e leucemias, entre outros)”. “Praticamente 30% dos leitos ocupados por adultos eram de pacientes com esse tipo de enfermidades’,acrescentou.

Foram analisados casos de entre 2008 e 2013, e os compararam com os de 15 anos atrás, quando começa o auge da monocultura de soja, e o resultado é que a quantidade de pacientes aumentou três vezes mais.


Em setembro de 2014 teve lugar esse simpósio, cuja ideia e posterior aprovação por essa casa de ensino foi obra de Insfrán, embora os organizadores logo o afastaram para transformar o Simpósio em um circo de ONGs, onde os sojeiros e os defensores do modelo não participaram e os alunos de biotecnologia se sentiram atacados diante de tantas evidências científicas brindadas por cientistas de peso como John Fagan, da Universidade de Cornell, e onde a ausência mais sentida foi a do falecido Dr,. Andrés Carrasco, cientista argentino.

Consultado o Dr. Insfrán sobre se pessoal do Governo lhe pediu os resultados de seu trabalho para efetivar políticas preventivas e de controle, o pesquisador foi claro:
-“Não creio que o Governo, e muito menos a Universidad Nacional, estejam interessados. Em Agronomia e Biotecnologia ensinam que o uso dos transgênicos acelera o desenvolvimento de um  país”, manifestou o médico. Essa é uma grande hipocrisia  que o vizinho país enfrenta em relação à soja, que mata de forma silenciosa com seus coquetéis de veneno, e ruidosamente quando algum pequeno agricultor cai sob as balas dos donos das lavouras, das terras e das decisões que são tomadas no Palácio de los López, toca atual das multinacionais.

Lembro de estar sentada junto a meu amigo, o Dr. Joel Filártiga no referido simpósio, surpreendidos pelas perguntas obscenas realizadas por parte destes estudantes que hoje pedem sanções. Filhotes de genocidas amparados por um personagem do Senave (Serviço Nacional de Qualidade e Sanidade Vegetal do Paraguai), que lhes escrevia as perguntas para que fossem entregues aos palestrantes, cujas respostas os enfureciam. Passaram vergonha, o simpósio foi uma vergonha, mas mais vergonhoso ainda é ver uma universidade cooptada pelo dinheiro manchado pelo sangue de tantos camponeses paraguaios mortos envenenados por esses mesmos egressos e professores cúmplices dos mitâ´i (estudantes, guris, em guarani – N. do T.) que hoje pedem sanções.  São esses mesmos que ensinam a falácia de que “a dose faz o veneno”, no seu frenesi de de riqueza á base de “desenvolvimento de contaminação e morte”.


Isso me lembra as sábias palavras do catedrático de Filosofia do Direito Jesus Ballesteros, co-autor do livro “Biotecnologia e pós-humanismo”; em uma pequena entrevista, Ballesteros respondia com uma verdade tão sólida como crua: “Os riscos éticos da biotecnologia estão unidos ao dualismo, que despreza o corpo humano, como se ele fosse um simples objeto e não tivesse caráter pessoal, e ao voluntarismo tecnocrático, que acredita ser lícito fazer tudo o que é tecnicamente possível, e portanto permite a manipulação total da vida humana e o utilitarismo,  que defende a utilização dos embriões humanos como simples objetos a serviço da medicina regenerativa, o que além de imoral até agora não deu sequer um resultado positivo”.

Esses estudantes, filhotes de imorais e porta-vozes de um velho carniceiro que os usa como escudo, estão longe de aprender sequer 0,1% cento da sabedoria de Ballesteros. Acima tudo, em sua cegueira de um só neurônio, não vislumbram em seu horizonte que o veneno os tem a eles e a toda a sua descendência em sua lista.  

(*) Alusão  ao recentemente falecido e  renomado cientista argentino Andrés Carrasco,  biólogo molecular que confirmou, através de experiências de laboratório, os efeitos do glifosato (N.do T.)

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