sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Urariano Mota: Cheque em branco, Millôr e o barato do cassino do Chacrinha

Sanguessugado do Viomundo

Urariano Mota

Millor

chacrinha

Ontem, na tevê passavam ao mesmo tempo Lili Marlene e um documentário sobre Chacrinha.

Eu tinha interesse nos dois, apesar de já ter visto Lili Marlene no cinema. É de Fassbinder.

Mas eu estava (ainda estou) sob o impacto de “É isto um homem?”, de Primo Levi, e senti perder o entusiasmo pelo bom filme de Fassbinder, que me pareceu ontem à noite como uma versão da má consciência diante do nazismo.

Como uma remissão de um crime feita por um privilegiado, de um patriota arrependido.

Então fui pro Chacrinha. Não me arrependo. O documentário é um hit parade da angústia dos marginalizados na ditadura.

Um desfile debochado, baixo, do mundo da feira da carne humana. Chega  a ser cruel e brutal, insensível, quando casa as imagens das jovens dançarinas no Cassino do Chacrinha com as das presentes das chacretes. O documentário chega à finura de um escarro ao exigir que as senhoras sessentonas ponham biquínis e se rebolem cantando o som do programa dos anos 60 e 70.

Tem um momento cômico, quando Aguinaldo Timóteo fala que João Gilberto não tem voz, não sabe cantar, é feio e de cara amarrada, como pode se perfeito?

Mas no ponto culminante, na entrevista com uma chacrete, ela conta que recusou “cheque em branco” pra um encontro com um ricaço. Ela é evangélica agora, mas comenta: “se fosse hoje…”.

Então hoje de manhã, no café, lembrei à minha mulher um caso semelhante ocorrido com Millôr. Na época do Pasquim, Roberto Marinho convidou Millôr para a Globo, e lhe enviou o famoso “cheque em branco”. Que faz Millôr? Tira uma foto do cheque assinado por Marinho e publica nas páginas de O Pasquim. Com a legenda:  “A minha prostituição não vale tão pouco”.

Genial. Mas muitos anos depois Millôr foi trabalhar para a Veja, enquanto chamava Lula de analfabeto. Não, não é o caso de lembrar a tirada de Billy Wilder em Quanto Mais Quente Melhor, de que “ninguém é perfeito”. Não foi bem por dinheiro.

Não foi isso, amigos. Foi a idade, é a idade  que exige pagamento de pedágio. Poucos, poucos e raros, seguem a dignidade na velhice, como Niemeyer, Tolstói, o Barão de Itararé, Graciliano Ramos ou Sobral Pinto.

É a idade. “É a cabeça, irmão”, cantava Silvio Brito. Abelardo Barbosa, é um barato o cassino do Chacrinha. Ô Terezinha, ô Terezinha….

PS do Viomundo: Millôr Fernandes faleceu em 27 de março de 2012, no Rio de Janeiro. Ele havia iniciado ação contra a Editora Abril, pois a Veja, sem sua autorização,incluiu as suas obras no acervo digital da revista.  Millôr queria impedir a reprodução. No mesmo ano, o Tribunal de Justiça de São Paulo considerou improcedente a ação indenizatória pleiteada por Millôr, depois por seu espólio.

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