sábado, 24 de janeiro de 2015

Traição e delação enquanto ética

Via Brasil de Fato

Além de provas documentais das acusações, certamente a senadora apenas deixou vir à tona em sua fala a ponta de um iceberg, que deve se consolidar em algum “dossiê” capaz de maiores estragos

Alipio Freire

O que era óbvio, tornou-se testemunhal: a senadora Marta Suplicy (PT-SP), em sua entrevista ao jornal “O Estado de S. Paulo” (edição de 10/01/2015), traindo e delatando publicamente seus companheiros de conspiração da véspera, revelou que (como vimos alertando em nossa coluna e em outros artigos), desde meados de 2013, uma articulação – da qual participou ativamente o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva – tentou inicialmente inviabilizar a candidatura e, em seguida, a reeleição da presidenta Dilma Rousseff.

Além de provas documentais das acusações, certamente a senadora apenas deixou vir à tona em sua fala a ponta de um iceberg, que deve se consolidar em algum “dossiê” capaz de maiores estragos. Pelo menos, é o que ordenam os “Manuais do Bom Chantagista” – todos eles de tradição oral. Isto, que foi nossa hipótese levantada logo após a publicação da entrevista, se confirma com o silêncio eloqüente das altas esferas do PT, do Instituto Lula, e do próprio ex-presidente Luiz Inácio – posto a nu pela “loira de olhos azuis”, conforme se autorrefere a própria senadora na sua fala ao “Estadão”.

O mais grave é a naturalização da traição e da delação, que acabam se erigindo em métodos adequados e ética louvável: “O importante é se dar bem” (lei de Gerson).Ao conspirar contra a candidatura da presidenta – a senadora, o ex-presidente Luiz Inácio e seus parceiros e “cumpadres”, buscaram um expediente que garantisse a candidatura do segundo, mas que inviabilizasse qualquer discussão e decisão das instâncias do PT sobre o assunto. Assim, traíram as normas do partido e, portanto, os seus filiados. Nada mais normal que um grupo de petistas (não importa por qual razão política) preferisse outra candidatura que não a da presidenta Dilma Rousseff, e lançasse outro nome, submetendo-o ao debate. Acontece que o ex-presidente Luiz Inácio e sua corte não se submetem a nada, a nenhuma instância, não discutem nada. O chefe do grupo omite-se em todas as crises, age nas caladas, e pretende sempre aparecer como um consenso no interior do partido – consenso que nunca foi e que tende a se tornar cada vez mais insustentável.

Passo seguinte, anunciada oficialmente pelo PT a candidatura da presidenta Dilma, a conspiração prosseguiu, colocando em risco a própria continuidade do PT no governo.

Até hoje não sabemos quais possam ser as divergências no plano da política, embora no que diz respeito à ética e aos métodos, as divergências estejam mais que claras.

O que não se pode esquecer em qualquer hipótese é que, com esses métodos e ética (próprios dos nossos inimigos de classe e daqueles que se submetem aos seus valores), só seremos capazes de construir uma sociedade que seja um arremedo caricato da que dizemos combater.

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