quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Líbia: modelo da democracia ocidental

Via Rebelión

Três anos depois do levantamento que acabou com o mandato e a vida de Kadafi, a Líbia se desintegra entre antigas alianças tribais e ingerência de seus vizinhos.

Para os líbios, o Estado está sobrando

Karlos Zurutuza

Tradução do espanhol: Renzo Bassanetti

Gara

O procedimento no lado tunisino da fronteira é tedioso, mas no líbio o ambiente se descontrai. O funcionário fuma despreocupado enquanto espera sentado no chão, ao lado de sua guarita. Não é necessário registrar a entrada na Líbia através do sistema informático: basta estampar o selo que o funcionário tem na sua mão livre sobre uma página do passaporte aberta ao acaso.

Se for perguntado “quem manda aqui?”, é fácil: Aqui, justamente na área por onde se estende a fumaça do cigarro, manda seu dono; e a equação se repete ao longo dos 1500 km de litoral até a fronteira com o Egito.

Que digam isso a Wail, um residente de Zwara, com 30 anos, ao qual roubaram o carro em um posto de controle da vizinha Zawiya, a oeste de Trípoli.

“Voltei a Zwara e contei à milícia, que em seguida montou um posto de controle no qual requisitou cinco veículos com matrícula de Zawiya”, recorda o jovem amazigh.

“Disseram a seus donos que se quisessem recuperar seus veículos, teriam que pedir às suas milícias que devolvessem o meu”. No dia seguinte, Wail dirigia novamente seu carro.

Impossível sobreviver sem uma milícia que lhe cubra as costas, ao menos na atual conjuntura. Mais de três anos depois do levantamento que acabou com  o mandato e a vida de Kadafi, a Líbia vive num estado de convulsão política que jogou o país em uma guerra civil. 

Há dois governos e seus respectivos parlamentos: um com sede em Tripoli, e outro na cidade de Tobruk, a 1200 quilômetros a leste da capital. Este último conta com o reconhecimento internacional, depois de ser eleito através do processo de sufrágio celebrado no último dia 25 de junho, mas que somente contou com a participação de 10% da população.

Falamos de um cenário no qual lutam diferentes milícias agrupadas em duas alianças paramilitares: “Amanhecer da Líbia”, liderada pelas Brigadas de Misrata, que atualmente controlam Trípoli, e “Operação Dignidade”, dirigida por Jalifa Haftar, um antigo general do exército líbio. Os primeiros acusam aos segundos de “kadafistas”, e estes aos anteriores de “islãmicos”.

Younes Al Tabaui, recentemente nomeado ministro da Cultura no executivo de Tripoli, assegura que se trata de um conflito “puramente político”

“Todas as partes jogam sujo, sobretudo aquelas que estão incentivando esta guerra desde fora”, informava Al Tabauí a GARA, em seu escritório nas imediações de Tripoli.

A lista é longa e complexa: O Qatar e a Turquia são os principais aliados de Tripoli, enquanto que os de Tobruk, que se autodenominam “liberais”, contam com o apoio dos Emiratos Árabes Unidos, Egito e Arábia Saudita.

E o Ocidente? A França apoia de forma aberta a Tobruk (embora essa aliança inclua também as tribos antes leais a Kadafi, como Warshafana, Warfala, Gadafa). Em Trípoli, somente continua aberta a Embaixada da Itália (suas multinacionais energéticas estão situadas a oeste do país), e o antigo embaixador britânico na Líbia assegura que “ambas as partes querem o melhor para a Líbia”. Para a OTAN, o momento para intervir é difícil, mais que nada por que ainda não sabe a favor de quem.

Antigas alianças

A ausência de um governo capaz de administrar o Estado faz com que a crise de identidade se aprofunde entre os líbios. Diferentemente do Iraque, isso não ocorre em linhas sectárias, mas sim nacionais, como no caso das minorias (tubus, tuareg e amazigh), ou tribais, se nos referirmos à maioria árabe do país.

O fenômeno da “tribalização” se agudizou durante o levantamento de 2011, quando o Governo central foi suplantado pelas milícias que contavam com armas e experiência de combate.

O historiador líbio Faraj Nejm assegura que existem 140 tribos na Líbia, que se estendem por todo o Magreb e pela África sub-sahariana.

As tribos são tão parte do problema como da sua solução, apontava Kemal Abdallah, analista egípcio especialista em questões líbias, num artigo escrito em fevereiro do ano passado. Abdallah explicava que as interações entre as tribos seguem  padrões de alianças sólidas, como as das chamadas “tribos beduínas”, que incluem aos Warshafana, Gadafa, Warfala e Awad Suleyman.

Curiosamente, a de Zintan foi a única que rompeu com essa aliança, somando-se ao levantamento de 2011. Hoje elas parecem ter limado as asperezas e tornam a juntar-se sob a proteção de Tobruk (lembrem: “Kadafistas” e “liberais”,  patrocinados por França e Arábia Saudita).

Hoje a Líbia se reduz a isso? A um conjunto de tribos que vivem aos tapas entre si dentro das fronteiras coloniais?

Em um mapa publicado em 1955, Pierre Rondot, general de divisão francês, detalhava uma rede de alianças entre as tribos líbias, que poderia ser transferida, sem trocar uma vírgula, para o momento de hoje, quando estas linhas estão sendo lidas.

Essas parecem ser as dinâmicas de um país cujo ministro do Turismo (o de Tripoli) é um tuareg a quem a guerra impede de retornar à sua Gadames natal.

Já se passaram quatro anos desde que o último turista visitou esse formoso oásis na fronteira com a Argélia, mas a rede de funcionários do setor (a mesma dos tempos de Kadafi) continua recebendo seus salários pontualmente.  Segundo dados oficiais,  85% dos assalariados da Líbia pertence ao setor público.

“No dia em que os salários deixarem de chegar, nos devoraremos uns aos outros”, é a cantilena que repetem os líbios de toda classe ou condição, etnia ou tribo. Esse, e não outro, será o Rubicão do paraíso assistencialista.

No momento, o petróleo continua fluindo juntamente com salários e pensões. O dinheiro é administrado pelo Banco Central, organismo ainda autônomo graças ao qual as diferentes milícias líbias podem continuar matando-se entre elas, sem que o assunto tenha maiores consequências.

 

Tradução do espanhol: Renzo Bassanetti

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