sábado, 17 de janeiro de 2015

Humor com humor também se paga

Sanguessugado do Boitempo

Izaías Almada

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Não poderia haver melhor demonstração de cinismo e hipocrisia nas delicadas relações entre as nações do que aquela que se passou há poucos dias nas ruas de Paris: milhões de franceses reunidos com personalidades internacionais, de braços dados, a marcharem contra o terrorismo e em defesa da liberdade de expressão.

Entre as tais personalidades, para além de grandes fabricantes e compradores de armas, uma chamou a atenção em especial, pelo deboche da sua presença: a do primeiro ministro israelense Benjamin Netanyhau, responsável direto pelo massacre de milhares de palestinos em 2014. E não bastasse essa pantomima, menos de uma semana da badalada manifestação um comediante frances é preso por fazer humor contra os judeus. Assim como é de domínio público que o grande Siné foi mandado pra rua no Charlie por ter feito uma gozação com os judeus e o filho do Sarkozy.

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Pois bem: aqui na brasilandia, que se arrepia sentimentalmente por qualquer “dá lá aquela palha”, defensores da liberdade de imprensa e de opinião “a qualquer preço” apareceram aos magotes. A maioria deles, tudo indica, tomados pela violência de um atentado estúpido, irracional, mas sem se dar conta dos antecedentes históricos que levaram até ele.

Existem ideias que podem ser tão mortíferas quanto uma AK-47, principalmente quando espalhadas para disseminar o preconceito, o ódio, a violência.

Espero não estar ofendendo ninguém, mas humor com humor também se paga. Os photoshops são de autoria do designer André Almada.

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Izaías Almada, mineiro de Belo Horizonte, escritor, dramaturgo e roteirista, é autor de Teatro de Arena (Coleção Pauliceia da Boitempo) e dos romances A metade arrancada de mim, O medo por trás das janelas e Florão da América. Publicou ainda dois livros de contos, Memórias emotivas e O vidente da Rua 46. Como ator, trabalhou no Teatro de Arena entre 1965 e 1968. Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras

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