quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Bill Gates:dá com um tentáculo e retira com todos os outros

Via Rebelión

Gates, ajudas que o ajudam

Gustavo Duch

Tradução do espanhol: Renzo Bassanetti

El Periódico

Pensemos que eu e você somos milionários, e com os melhores sentimentos constituímos uma fundação solidária. Por exemplo, para apoiar as pesquisas sobre o câncer no pulmão. E, enquanto entregamos fundos para essa causa, ao mesmo tempo pensamos em como aumentar o patrimônio econômico da fundação. É então que, ouvindo os assessores para investimentos econômicos, colocamos o dinheiro em ações de empresas da área do tabaco. Assim, caímos na viciosa situação de que quanto melhor funcionar o negócio do fumo, mais bondosos  nós poderemos ser.

Bom, são mais ou menos assim as práticas da maior fundação filantrópica do mundo, a Fundação Bill e Melinda Gates, com um fundo de doações de 40 bilhões de dólares.  Assim denunciaram em 2007 Piller, Sanders e Dixon no Los Angeles Times, com o exemplo de uma menina da Nigéria  que, graças à Fundação Gates, era vacinada contra a poliomielite, embora o que preocupasse sua mãe era uma tosse que não parava em função das fumaça das empresas petroleiras que funcionavam próximas. Entre elas, a italiana ENI, que contava, entre seus investimentos, com o dinheiro da Fundação Gates. Até esta data, a Fundação tinha doado 218 milhões de dólares contra a poliomielite e o sarampo, e investido 423 milhões de dólares em corporações petroleiras.

Se observarmos as atividades da Fundação, podemos ver nos âmbitos agrário e alimentar  cenários parecidos. Concretamente, notamos que o crescimento dos fundos dedicados a apoiar atividades na África, supostamente para lutar contra a desnutrição tem sido paralelo aos investimentos em empresas do setor agrário, como a Cargill (o maior comerciante mundial de grãos) ou a Monsanto (líder no negócio de sementes e pesticidas), responsáveis, por seu comportamento açambarcador, de muita pobreza no âmbito rural.

Mas, sobre as ajudas da Fundação Gates à agricultura empobrecida da África, podemos defender uma tese mais atrevida ainda: com os supostos fundos solidários, o que a Fundação busca não é frear a fome ou a desnutrição na África, mas sim permitir o avanço dos negócios agrícolas nos quais investiu seu dinheiro. Remeto-me aos dados da organização GRAIN depois de analisar detalhadamente o conjunto das doações (3 bilhões de dólares) da Fundação Gates à agricultura entre 2003 e setembro de 2014.

Nessa análise, chega-se objetivamente a quatro conclusões: a primeira se baseia em contabilizar o local para onde vão essas contribuições: aproximadamente 50% para organismos internacionais  e regionais (o que logo comentaremos), enquanto que 80% da metade restante termina  em organizações de pesquisa e desenvolvimento da Europa e Estados Unidos. Concretamente, 79% das doações da Fundação  para universidades e centros de pesquisa foram parar na Europa e EUA, e escassos 12% para beneficiários na África. Se revisarmos o apoio a ONGs, veremos que três quartos  dos 669 milhões de dólares que entregou foram parar em organizações com sede nos EUA, enquanto que as ONGs com base na África recebem escassos 4%. Ou seja, a Fundação Gates luta contra a fome no Sul entregando dinheiro ao Norte. 

A segunda conclusão baseia-se em para quem e para que dedicam os fundos os receptores das ajudas de Gates. É aí onde vemos o predomínio de três organizações internacionais e regionais: a AGRA (Aliança para a Revolução Verde na África), a AATF (Fundação Africana de Tecnologia Agrícola), e o CGIAR, um consórcio de 15 centros  internacionais de pesquisas agrícolas, cujas missões são a expansão de uma agricultura industrializada na África, com base em sementes patenteadas e um alto uso de fertilizantes e pesticidas. Ou seja, a Fundação Gates facilita recursos econômicos à agricultura das multinacionais e não à agricultura camponesa. Além disso, essas organizações são tão influentes nas políticas agrárias de muitos países africanos, que a terceira conclusão é que as doações outorgam a Gates a capacidade de influir diretamente nas decisões tomadas na África em relação à agricultura. 

Por último, a análise de GRAIN constatou que nenhum dos auxílios da Fundação se dedica a apoiar as iniciativas do próprio campesinato africano e sua maneira de entender a agricultura. Ao contrário, ajudam seus próprios negócios agrícolas, e vale um exemplo: 4,3 milhões de dólares que Gates entregou á AGRA transformaram-se em um apoio aos distribuidores de produtos agrícolas no Malawi, que compram 67% de seus produtos à Monsanto, onde Gates investiu. Assim, o dinheiro circula, mas a fome não diminui.


Artigo publicado no  El Periódico de Catalunya, 9 de janeiro de 2015.

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