quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

2015 é um ano para se olhar para o Paraguai

Via Reporter Brasil

Estado fraco e dependência econômica dificultam a vida do trabalhador paraguaio. Imigração cresce para o Brasil, com crise em Argentina e Espanha. Ano promete ser agitado com eleições municipais.

Marcel Gomes

É injusto por tudo o que significa o México de Emiliano Zapata, Frida Kahlo e Juan Rulfo, mas o termo “mexicanização” virou sinônimo de coisa ruim. É usado para falar do risco de determinado país cair nas garras do narcotráfico, ou ter um governo autoritário disfarçado de democrático, como nas sete décadas em que o PRI esteve no poder.

O termo encontrou sentido até na economia. Mexicanizar nessa área significa apostar nas maquilas, como são conhecidas as linhas de montagem industriais voltadas à exportação e que, via de regra, superexploram o trabalhador. Enfim, quando alguém diz que um país está se mexicanizando, costuma não ser boa coisa.

Quando estive em Assunção, em dezembro, para investigar a crescente migração de jovens paraguaios rumo ao Brasil, foi justamente isso que ouvi de interlocutores sobre a situação do Paraguai. As agruras que atingem a população local estão cada vez mais parecidas às enfrentadas pelos mexicanos – escalada da violência, tráfico de drogas e corrupção política.

Isso pode parecer estranho neste momento em que o PIB paraguaio cresce a taxa muitas vezes maior do que a brasileira, puxado pela lavoura da soja. Mas as coisas ficam mais claras para quem, como nós da Repórter Brasil, acompanha esse setor do agronegócio, marcado pela concentração de renda e pequena geração de emprego.

A realidade é que uma pequena diáspora paraguaia rumo ao Brasil foi iniciada neste novo milênio. O Ministério da Justiça brasileiro relata a existência de 17 mil paraguaios na região metropolitana de São Paulo, mas o Ministério das Relações Exteriores do Paraguai, que pude visitar em Assunção, estima-os entre 45 mil e 60 mil. No país, poderiam ser 80 mil.

Trata-se de uma migração que ganhou força mais recentemente, diferente da dos bolivianos, que já somam 350 mil em São Paulo. Dois entre cada três paraguaios chegaram à região metropolitana após 2000, e a metade após 2005, conforme pesquisa do Centro Scalabriniano de Estudos Migratórios, ligado à Igreja Católica.

São trabalhadores que desembarcam sem qualquer conhecimento das autoridades, facilitando a ocorrência de casos de superexploração laboral – e até trabalho escravo. A maioria é de homens jovens que vêm atuar na construção civil e na indústria da confecção, inclusive nas cadeias produtivas de famosas marcas de fast fashion.

Em que pese à desaceleração da economia brasileira, há razões para se crer que esse fluxo migratório deve se manter ou até se ampliar. Cito dois fatores a seguir.

O primeiro, conjuntural, diz respeito à situação econômica dos dois destinos historicamente escolhidos pelos migrantes paraguaios, a Argentina e a Espanha. Estima-se que vivam hoje até um milhão de paraguaios em cidades argentinas, principalmente na Grande Buenos Aires, e até 180 mil em território espanhol.

Entretanto, a longa crise econômica que atinge esses dois países não só desestimulou a chegada de novos migrantes, como também criou um movimento de retorno. O diplomata Hugo Morel, diretor de um setor da chancelaria paraguaia que dá suporte aos imigrantes no exterior, contou-me que nos últimos doze meses ao menos duas mil pessoas retornaram ao país com algum apoio do governo, após anos vivendo no exterior.

Ao mesmo tempo, o Brasil tornou-se um novo eldorado. Ou ao menos ganhou essa fama. Com o crescimento econômico da última década, sobretudo no governo Lula, e a mídia obtida com a Copa do Mundo e as Olimpíadas, o país passou a ser visto como alternativa real para os trabalhadores paraguaios. Muitos decidiram vir.

O segundo fator para a manutenção do fluxo migratório é mais de fundo. A vitória do empresário colorado Horacio Cartes na eleição presidencial de 2013 significa que o Paraguai dobrou a aposta no atual modelo: um verdadeiro Estado mínimo e uma economia movida a agronegócio e comércio de triangulação.

Após algum protagonismo no breve interstício que foi o governo Fernando Lugo (2008-2012), o Estado paraguaio segue como um dos menos capazes da América Latina. Não se pode fazer muito com uma carga tributária de apenas 12% do PIB, um índice que deve dar inveja aos neoliberais de qualquer país do mundo.

Na economia, a mesma coisa. O comércio de triangulação Ásia-Paraguai-Brasil sem dúvida enriqueceu localidades na fronteira, como Cidade do Leste (divisa com Foz do Iguaçu, no Paraná) e Pedro Juan Caballero (com Ponta Porã, no Mato Grosso do Sul). Mas quantos paraguaios desfrutam dos benefícios ali gerados?

É uma situação perversa: olhando-se o país como um todo, vê-se um Estado impotente e uma sociedade relativamente pobre, cujo PIB per capita só supera o da Bolívia e o da Guiana na América do Sul, mas com elevadíssima concentração de renda, semelhante a do Brasil. No final, cerca de 15% dos paraguaios tiveram de buscar uma vida melhor no exterior.

O modelo paraguaio também guarda uma profunda conexão funcional com o Brasil, para além das trocas comerciais. Trata-se da transformação do seu território em um espaço avançado para as mais diversas formas de ilicitudes, como o tráfico de drogas e armas, o contrabando e a lavagem de dinheiro, em benefício de criminosos brasileiros.

Quem me chamou atenção para esse aspecto foi o economista Luis Rojas Villalba, um colega que coordena um dos mais tradicionais centros de pesquisas locais, o Base Investigaciones Sociales. Para Rojas, o Paraguai assume para si um papel em relação ao Brasil semelhante àquele desempenhado pelo México em relação aos Estados Unidos. Se ele estiver correto, é a mexicanização em seu pior sentido.

Parece realmente difícil alimentar algum otimismo a partir do atual cenário paraguaio. Mas, como muitos dizem por lá, sí, se puede. É o mesmo slogan que pautou os levantes de trabalhadores mexicanos em fazendas do sul dos Estados Unidos nos anos setenta, e que acabou traduzido e ressignificado por Barack Obama décadas depois.

No Paraguai, os movimentos campesino e indígena fincam bandeiras pelos rincões do país, ainda que muitos grupos precisem superar os desafios da desarticulação e da compreensível aversão à política institucional. Nessa arena, a Frente Guasú se destaca, uma confederação de partidos progressistas e minoritária no parlamento. Não possui nenhum deputado, mas conta com cinco senadores, entre eles Lugo.

Quando eu estava em Assunção, no dia 10 de dezembro, uma marcha seria realizada por ativistas de dezenas de organizações sociais e políticas, em protesto contra novas medidas privatizantes do governo Cartes.

Fátima Rallo, do Conselho de Organizações Populares e Sociais do Paraguai, e Gladys Cabrera, da Associação Paraguaia de Apoio aos Migrantes, receberam-me para um conversa um dia antes do protesto. Falavam ao celular. Estavam preocupadas com os obstáculos criados pelo governo para impedir a chegada de caravanas de militantes vindos do interior.

Longe de ter sido a maior marcha que eu já vi. Mas seus organizadores celebraram-na como um passo importante para unificar as forças sociais paraguaias. Antigos adversários estavam lá, mais próximos do que nunca.

Após a pausa de final de ano, o embate deve ser retomado no parlamento e nas ruas. Em março, as chapas para as eleições municipais de novembro começam oficialmente a serem montadas. Sí, se puede. Que o bravo espírito rebelde dos zapatistas e dos estudantes mexicanos inspire os paraguaios. Que isso ajude a ressignificar a ideia de mexicanização. O Paraguai e o México precisam.

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