sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Não há diferença entre narcotráfico, burguesia e elites

Via Rebelión

O negócio das drogas está em sintonia com o financiamento da economia global

Raul Zibechi 

Tradução do espanhol: Renzo Bassanetti

La Jornada

Proponho que deixemos de falar de narco (narcotráfico, ou tráfico de drogas) como se fosse um negócio diferente de outros que as classes dominantes fazem. Atribuir os crimes aos narcos contribui para despolitizar o debate e desviar do núcleo central revelado pelos terríveis fatos: a aliança entre a elite econômica e o poder militar-estatal para esmagar as resistências populares. O que chamamos de narcotráfico é parte dessa elite, e como ela, tem laços estreitos com os Estados.

A história costuma ajudar a jogar luz sobre os acontecimentos atuais. A pirataria, como prática de saques e bandoleirismos em alto-mar teve um papel importante na transição hegemônica, debilitando a Espanha, potência colonial decadente, por parte da França e Inglaterra, potências emergentes. A única diferença entre piratas e corsários é que estes recebiam “patentes de corso”, assinadas por monarcas, que legalizavam sua atuação delitiva quando esta era realizada contra navios e populações de nações inimigas.

Assim, as potências dispunham de esquadras adicionais sem os gastos pertinentes, e conseguiam debilitar seus inimigos “terceirizando’ a guerra. Além disso, utilizávamos serviços dos corsários sem pagar custos políticos, como se os estragos que estes causassem fossem “excessos” fora do controle das monarquias, quando na realidade aqueles não tinham a menor autonomia das elites no poder. A linha que separa o legal do ilegal é tênue e variável.

Encontro várias razões para deixar de considerar aos narcotraficantes como uma coisa diferente da burguesia e do Estado.

A primeira, é histórica. O bem conhecido caso de Lucky Luciano, chefe da Cosa Nostra (Máfia, N. do T.) nos Estados Unidos.  Quando as tropas norte-americanas desembarcaram na Sicília, em 1943, para combater o regime de Mussolini, contaram com o ativo apoio da Máfia. O governo dos EUA tinha chegado a um acordo com Luciano, através do qual este mobilizou seus partidários a favor dos aliados em troca de sua posterior deportação para a Itália, onde viveu o resto de seus dias organizando seus negócios ilegais.

Além disso, os mafiosos eram, acima de tudo, fervorosos anticomunistas, razão pela qual foram usados no combate às forças de esquerda no mundo, e como tropa de choque contra os sindicatos norte-americanos.

Em segundo lugar, a superpotência utilizou o negócio das drogas em sua intervenção militar no sudeste da Ásia, particularmente na guerra contra o Vietnam, mas também em escala local, no mesmos período, para destruir o movimento revolucionário Panteras Negras. Em ambos os casos, a CIA teve um papel destacado. Sobre esses dois primeiros pontos, há dezenas de publicações, tornando-se desnecessário entrar em  mais detalhes. 

Em terceiro lugar, a Colômbia tem sido a principal área de testes para o uso de grupos criminosos contra as organizações revolucionárias e os setores populares. Um relatório de Americas Watch de 1990 informa que o Cartel de Medellín, dirigido por Pablo Escobar, atacava sistematicamente “líderes sindicais, professores, jornalistas, defensores dos direitos humanos e políticos de esquerda, particularmente da Unión Patriótica”. (Americas Watch, La Guerra contra lãs Drogas em Colombia, 1990, pag.22).


Em outro ponto, destaca que “os narcotraficantes se transformaram em grandes latifundiários e, como tais, começaram a compartilhar a política da direita dos latifundiários tradicionais e a dirigir  alguns dos  grupos paramilitares mais notórios”.

Esse é o ponto-chave: a confluência de interesses entre setores que procuram enriquecer e manter quotas de poder, ou adquirir mais poder às custas dos camponeses, dos setores populares e das esquerdas. Tudo indica que a experiência colombiana – particularmente a aliança dos narcotraficantes com os demais setores das classes dominantes – está sendo replicada em outros países como o México e a Guatemala, e está disponível para ser aplicada onde as elites globais creiam que for necessário. Também não está demais dizer que isso não poderia ser feito sem a colaboração da agência “anti-drogas” norte-americana, assim como de suas forças armadas.

Em quarto lugar, é preciso compreender que o negócio das drogas faz parte da acumulação por espoliação, tanto na sua forma como no seu conteúdo. Funciona como uma empresa capitalista, como uma “atividade econômica racional”, como conclui o livro “Cocaina & Co.”, dos sociólogos colombianos Ciro Krauthausen e Luís Fernando Sarmiento (Tercer Mundo Ediciones, 1991). Ela tem algumas diferenças dos outros negócios capitalistas apenas por se tratar de uma atividade ilegal.

A violência criminal, às vezes considerada como atividade demencial, é o argumento que os meios e as autoridades costumam utilizar para enfatizar os aspectos especiais  do negócio das drogas. Isso é tão falso como seria atribuir um caráter criminoso ao cultivo e comercialização de bananas por que em dezembro de 1928 foram assassinados 1800 grevistas que trabalhavam na United Fruit Company em Ciénaga de Santa Marta, no norte colombiano. Coisa similar poderia ser atribuída ao negócio da mineração ou do petróleo, manchados de sangue pelo mundo inteiro.

O negócio das drogas está em sintonia com o financiamento da economia global, com a qual flui através dos circuitos bancários onde seus ativos são lavados. É bom lembrar que durante a crise de 2008, o dinheiro do narcotráfico manteve a fluidez do sistema financeiro, e sem seu aporte, este haveria ficado em um gargalo de garrafa que teria paralisado boa parte dos bancos.

Por último, isso que mal chamamos de narcotráfico tem exatamente os mesmos interesses do setor mais concentrado da burguesia, com a qual se mimetiza, e que consistem em destruir o tecido social para tornar impossível e inviável a organização popular. Nada pior que acompanhar os meios de comunicação que apresentam os narcotraficantes como foragidos irracionais. Eles têm uma estratégia de classe, a mesma à qual pertencem.

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