domingo, 9 de novembro de 2014

Está difícil achar empregadas domésticas? Ainda bem

Sanguessugado do Motta

Carlos Motta

Resposta longa, mas necessária, a um comentário em minha linha do tempo do Facebook. 
Parece que algumas pessoas fazem questão de mostrar publicamente a sua idiotia - o que denota um comportamento patológico. 
A outra hipótese é que acreditam mesmo no que escrevem e dizem - o que indica uma grave distorção de caráter. 
Seja como for, é cada vez mais necessário combater esse extravasamento de preconceito, racismo e ódio.
O país em que desejo viver não pode tolerar tais manifestações.
Comentário: Então com o PT no Poder não temos mais EMPREGADOSSSSSSSSSS. Fazer o que??? Nos temos que aguentar ,e trabalhar em dobro.Mas ja resolvi cortar meu dedinho e receber uma fortuna assim quem sabe vou ter EMPREGADOS como o LULA LAAAAAAAAA.

Resposta: Com o PT ou outro partido qualquer no poder, nós temos leis no Brasil, que precisam ser cumpridas. Uma delas trata da contratação de empregados domésticos. Eles têm (quase) os mesmos direitos de qualquer outro empregado contratado pela CLT: friso que tem quase todos os direitos porque falta regulamentar algumas coisas. 
Acho que qualquer pessoa de bom senso percebe, facilmente, que é muito melhor para o conjunto da sociedade - classe média, ricos e milionários incluídos - que a desigualdade social e econômica diminua, que os miseráveis deixem de ser miseráveis, os pobres deixem de ser pobres e assim por diante. 
Não é só o PT que quer isso: o próprio papa Francisco tem se manifestado incisivamente a esse respeito e acredito que uma sociedade mais justa e fraterna, que dê oportunidades iguais a todos de melhorar de vida, é um desejo da maioria absoluta dos seres humanos. 
Há certos valores que estão acima de preferências partidárias ou de ideologias. 
Querer que todos melhorem de vida, creio, é um desses. 
Há apenas alguns anos os empregados domésticos eram tratados como escravos. Ganhavam menos que o salário mínimo, dormiam no serviço, ficavam 24 horas à disposição das patroas, comiam os restos do almoço e do jantar que preparavam, não tinham nenhuma proteção legal, nem contratadas eram - podiam ser despedidas a qualquer hora sem justa causa e sem direito a reclamar de nada. 
Ora, convenhamos, isso é uma indignidade. 
Hoje, em qualquer país dito de Primeiro Mundo, essa profissão de empregado doméstico é praticamente inexistente. É considerado um subemprego, ocupado geralmente por imigrantes, a "escória" dessas sociedades. O que existe lá fora e já é uma tendência aqui, são empresas especializadas nesse tipo de serviço, que cobram muito caro. 
Entendo a revolta de muitos pela nova situação social que o Brasil está começando a viver, com a enorme mobilidade verificada nos últimos anos, com pessoas das classes D ascendendo à C, ou seja, ampliando a classe média e aumentando o mercado de consumo. 
Essas pessoas estavam acostumadas a viver num país que tinha 20% de sua população nessa faixa intermediária e hoje mais da metade é de classe média. 
Essas pessoas têm medo de perder alguns de seus privilégios, como esse de ter uma escrava à sua disposição, mas elas precisam entender que o Brasil mudou, que o Brasil acompanhou a evolução do mundo, que o Brasil não é mais aquele paiseco vagabundo de outros tempos. 
Essas pessoas precisam compreender que elas ficaram para trás e estão cada vez mais isoladas em seus recalques e preconceitos. 
O Brasil mudou tanto que elegeu duas vezes um metalúrgico à Presidência da República, esse mesmo que perdeu um dos dedos num acidente de trabalho e é tão odiado por uma minoria de brasileiros que se enterrou no passado e é tão elogiado por intelectuais, políticos, artistas, autoridades, empresários, religiosos etc etc de todas as partes do mundo. 
O Brasil mudou tanto que hoje, felizmente, há falta de empregadas domésticas porque elas arranjaram empregos muito melhores e mais dignos e já estão vendo seus filhos se formarem médicos ou engenheiros. 
Esse é o Brasil que eu quero não só para mim, que não tenho empregada doméstica, mas para todos.
O Brasil que eu quero é um Brasil cheio de profissionais de nível superior e não com milhões de empregados domésticos.

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