terça-feira, 4 de novembro de 2014

Elaine Tavares - A princesa do Jarau

Sanguessugado do Palavras Insurgentes

Elaine Tavares

Cerro do Jarau - Quaraí

Já era noite e só se ouvia o barulhar dos bichos. Medo, ele não teve. Não teria. Tinha vindo de muito longe atrás da princesa. Haveria de encontrá-la. Era pequeno quando ouvira o pai contar a lenda da Teiniaguá, uma espécie de lagartixa com cabeça de fogo, que morava numa lagoa fervente no cerro do Jarau, lá na cidade onde nascera. Ficava na fronteira com a Argentina, um lugar pequeno, cheios de mistérios, à beira do rio Uruguai. O bicho não era bicho, dizia o pai. Era uma princesa moura que tinha sido encantada, vindo lá das bandas de Salamanca, na Espanha.
A lenda corria de boca em boca na cidade de Quaraí. Todos tinham medo do lugar porque os padres diziam que a lagartixa tinha parte com o diabo. Mas, ao mesmo tempo, os homens sabiam que se ela, transformada em princesa, se apaixonasse por alguém, a criatura seria a mais feliz do mundo. Por isso sempre um se aventurava. Foi assim com o sacristão. Ele não ouviu os padres e buscou a Teinigaguá, aprisionando-a numa guampa. Quando destapou, a lagartixa virou mulher e eles se apaixonaram.
Os padres descobriram a coisa toda e decidiram matar o sacristão, pois acreditavam que ele estava enfeitiçado. Mas, quando tudo estava pronto para a execução, houve um grande tremor de terra e abriram-se grandes crateras. Era a Teiniaguá, buscando seu amor. Em meio a explosões ela salvou o sacristão e levou-o para dentro do monte, que ficou encantado, conhecido até hoje como a “Salamanca do Jarau”. Dizem que os primeiros gaúchos nasceram dessa união. 
Depois disso tudo, dizia o povo que quem se atrevesse a entrar no Jarau, encontraria a Teiniaguá e teria de passar por sete provas. Caso conseguisse vencê-las teria muita sorte no amor. Muitos pereceram naquelas entrâncias da montanha. Houve gente que nunca mais se viu.
Herculano viera de Minas. Tinha fé que encontraria a princesa, passaria pelas provas e, enfim, teria nos braços a pequena Rosa, por quem suspirava havia anos. Só a Teiniaguá poderia fazer o milagre. Rosa era bonita demais e filha do prefeito. Nunca sequer notara sua existência de guri mestiço, agregado na casa do leiteiro. Nem na igreja, onde todos se igualam, ela lhe voltara os olhos. A moura, com sua mágica, lhe daria Rosa.
Viajara por muito tempo, estava cansado. Mas, não imaginara aquele clarão surgido no lado esquerdo do monte. Era real. Parou o jipe e pulou a cerca de arame. O morro estava longe. Haveria que andar. Não pestanejou e foi seguindo a luz. Era a Teiniaguá. Olhos fixos, foi caminhando por cima dos cupins que abundavam nos campos. Suas retinas estavam carregadas com o rosto de Rosa, os lábios carnudos, o riso de cristal.
Herculano circundou o cerro buscando algum buraco. Não demorou muito e encontrou a fissura por onde um homem podia passar. Rastejou e entrou. O clarão explodia aqui e ali, negaceando. De repente, um canto, dolente. No meio do lago subterrâneo, ela apareceu. Não era lagartixa. Era mulher. Os cabelos negros, bem lisos, caindo pelos ombros. O vestido branco, molhado. O sorriso doce. Ele correu ao seu encontro. Daria tudo o que tinha em troca do amor de Rosa. Tudo? Sim!
Era de manhã quando o povo que mora perto do Jarau viu o homem saindo de dentro do monte, se arrastando como cobra. Tinham escutado os barulhos de trovão e sabiam que alguém devia estar com a Teiniaguá. Ninguém imaginava que sairia vivo dali. Mas, aquele saíra. Da janela espiavam. Não era gaúcho. Tinha um jeito nordestino, sabe-se lá. Viram que sorria e trazia alguma coisa na mão.
Sem olhar pra trás, Herculano subiu no jipe e deu meia volta. O caminho até Minas era longo demais. Ele chegaria.

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