domingo, 9 de novembro de 2014

Danos Colaterais e Terrorismo de Estado

Sanguessugado do Informação Incorrecta

Max

Vamos fazer um pouco de limpeza.
Nomeadamente, vamos retirar da cena um equivoco, ou melhor, um mito: o mito dos "danos colaterais".
Já esta expressão consegue apresentar um concentrado de hipocrisia único: os danos colaterais são os civis mortos durante acções de guerra, como se fosse possível bombardear as linhas inimigas sem provocar vítimas inocentes.
Obviamente, quando for o inimigo a cometer um crime destes fala-se em "massacre"; quando somos nós, as forças do Bem, são "danos colaterais".
E, sendo colaterais, não há nada para fazer: é só alargar os braços, dizer "acontece, é o azar, a guerra é triste" e seguir em frente.
Mas os danos colaterais são realmente um simples azar, fruto do acaso?
Durante as guerras travadas pelos Estados Unidos após a queda do Muro de Berlim, o novo conceito de "danos colaterais" tem sido utilizado para justificar e tornar aceitável perante a opinião pública as vítimas civis: a ideia de base, portanto, é que estes "danos" não sejam desejados pelos militares, que falam de "casualidade", "erros", "errada informação" ou "problema de ordem tecnológico".
Mas um olhar mais atento permite entender que a maioria destes actos de guerra, que destruíram a vida de milhares de civis no Afeganistão, Iraque, Líbia, Síria nos últimos anos, não são frutos de erros ou de casualidade: são actos deliberados, destinados a matar mulheres, crianças e homens indefesos.
E estes actos não são um monopólio dos Estados Unidos: existe uma específica doutrina acerca disso, que é adoptada pela maior parte dos exércitos do mundo. É mais evidente no caso dos Estados Unidos simplesmente porque estes não conseguem ficar quietos algumas semanas sem invadir alguém, mas o conceito é geral.
A doutrina em si é simples e clara: impor o terror, que é a fonte da obediência.

Síria, antes e depois

A doutrina militar contradiz abertamente a propaganda política: atingir a população civil é uma maneira de ganhar a guerra; a tortura é uma das maneiras para destruí-la; abalar a sua consciência é uma forma de ganhar a sua alma (os bombardeios dos Aliados no final da Segunda Guerra Mundial constituem um amplo testemunho disso).
Os soldados ao redor do mundo estão bem conscientes e respondem com muita clareza: as vítimas do terror raramente se vingam; a maioria sofre em silêncio e deseja apenas a paz para enterrar os seus mortos. Não só, mas às vezes as vítimas pedem a protecção dos seus torturadores: desmoralizados por tanto sofrimento, aceitando a mão que o inimigo tende do outro lado da arma.
Durante a Guerra da Argélia, os militares franceses (em particular os coronéis Trinquier e Lacheroy) desenvolveram uma doutrina que se concentra num conflito armado contra a população civil: Os Ingleses tinham efectuado uma abordagem semelhante no Quénia, no início da década dos anos '50 (onde haviam voluntariamente massacrados inteiras aldeias de não-combatentes), mas ainda não tinham elaborado uma doutrina digna de ser ensinada nas escolas militares.

Líbia

Já não alvos não intencionais duma guerra brutal, os civis se tornam o objectivo militar para
conquistar e destruir em nome de objectivos humanos. Tortura, execuções sumárias, bombadeios de civis não são apenas um crimes de guerra, mas parte integrante duma estratégia militar a serviço da causa política.
O coronéis Trinquier e Lacheroy exportaram esta doutrina em escolas militares norte-americanos que, por suas vezes, implementaram-a nos Países da América Latina, especialmente na América Central.
As legiões "democráticas" e atlantistas que, sob os auspícios da Nato atacaram a ex-Jugoslávia, o Afeganistão e a Líbia também aplicaram esta doutrina na tentativa de impor The American Way of Life, o modo de vida americano e o liberalismo triunfante.
A doutrina militar shock and awe (choque e pavor) aplicada pelos Estados Unidos durante a invasão do Iraque em 2003 é que a reactivação desta doutrina por parte de teóricos interessados na actualização da teoria: Harlan Ullman e James Wade, tomando como exemplo o bombardeio de Hiroshima e Nagasaki pelos Estados Unidos em Agosto de 1945, descrevem em termos inequívocos que o efeito desejado é infligir destruição de massa, humana e material, com o fim de influenciar uma sociedade para que tome a direcção desejada pelos atacantes. Tudo isso em vez de atacar directamente alvos puramente militares.
Todavia, também aqui podemos encontrar uma profunda hipocrisia: escondido atrás do termo de "doutrina militar" fica mais simplesmente aquele que é um terrorismo de Estado, um terrorismo em massa, um terrorismo do Ocidente (no caso das Forças americanas e da Nato) perante o qual os órgãos de comunicação estão facilmente adaptados, porque é o trabalho dos seus donos atlantistas.
Continuam a utilizar o termo "danos colaterais", sem sequer deixar que o Leitor possa vislumbrar atrás disso uma precisa táctica que, como vimos, não passa de terrorismo.

Homs, Síria

Fica uma pergunta: podem ser considerados simplesmente como "ignorantes" ou "vendidos" ou estamos perante uma voluntária acção de cumplicidade?
Fica uma segunda pergunta: quem é o terrorista? O fanático que corta a garganta do ocidental ou as forças ocidentais que voluntariamente aterrorizam e massacram cidadãos inocentes? Neste caso a resposta é clara: ambos.
Este terrorismo de Estado mascarado com cinismo de doutrina militar tem de facto um dano colateral, e bastante grave até: a morte da Democracia.
Como nota final, alguns aprofundamentos:

  • Marie-Monique Robin, Les escadrons de la mort. L’école française, 2004, La Découverte
  • Maurice Lemoine, De la guerre coloniale au terrorisme d’État, Le Monde Diplomatique, 2004
  • Harlan K. Ullman, James P. Wade, Shock And Awe: Achieving Rapid Dominance, National Defense University, 1996 (versão Pdf em Inglês neste link)


Ipse dixit.
Fonte: artigo baseado em Dommages Collatéraux: la face cachée d’un terrorisme d’État de Guillaume de Rouville em L'idiot du Village

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