terça-feira, 7 de outubro de 2014

Se eleito for

Via Adital

Egon Dionísio Heck*

O que será das nossas crianças? Qual será o nosso futuro, a partir de amanhã?

Enquanto as urnas vão acariciando silenciosamente voto por voto, ponho-me a dialogar com meus botões, já envelhecidos e cansados da mesmice política a cada eleição. A primeira constatação é obvia: tudo farinha do mesmo saco. Ou melhor, os que tem alguma chance de chegar ou permanecer no palácio do Planalto, rigorosamente propõem ou seguem a cartilha neoliberal, colonialista, ditatorial, eletista. Diante de tal cenário, a reação primeira seria de rejeição em bloco e não votar na falta de democracia.

Mas tem quase um milhão de brasileiros originários cuja situação é infinitamente pior. Além de sentir-se no direito do exercício da indignação terão que amargar mais quatro anos de vilipêndio sobre seus direitos constitucionais. O agronegócio cresce e se expande mais que erva daninha. São os povos indígenas que primeiro e mais intensamente terão que arcar com as consequências nefastas, destruidoras, criminosas. Ele nada poupa. Rasga o ventre da mãe terra e o enche de venenos, impunemente. Os filhos originários da terra são agraciados com uma silenciosa guerra. Tudo acontece com a benção do sistema que covardemente insiste de chamar isso de progresso.

E se eleito for algum indígena, seja para Assembleia Legislativa estadual seja para o Congresso Nacional, cenário pouco provável, mesmo assim terá sido o passo mais fácil, diante do hercúleo esforço que terão que fazer, em meio a um ambiente de cobras criadas, de cartas marcadas, de interesses consolidados.

Tenhamos a coragem e honestidade de pensar ,por uns instantes, no gigantesco desafio que terá pela frente esse eventual eleito. Por mais que o movimento indígena tenha avançado e amadurecido, dificilmente não sucumbirá diante das presas sanguinolentas do monstro.

Apesar dos apesares "se eleito for” ninguém poderá fugir do páreo. Que os céus conclamem todos os heróis e combatentes para cerrar fileira na defesa da vida e direitos dos povos indígenas.

O que será das nossas crianças? Qual será o nosso futuro, a partir de amanhã?

Cimi, secretariado.

* Assessor do Conselho Indigenista Missionário (CIMI) no Mato Grosso do Sul

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Comentários são como afagos no ego de qualquer blogueiro e funcionam como incentivo e, às vezes, como reconhecimento. São, portanto muito bem vindos, desde que resvestidos de civilidade e desnudos de ofensas pessoais.
As críticas, mais do que os afagos, são benvindas.